A necessidade de planejamento urgente e de novas fontes de financiamento para o saneamento básico foi o principal destaque da participação do presidente da Associação Brasileira das Empresas Estaduais de Saneamento (Aesbe) e presidente da Companhia Espirito-Santense de Saneamento (Cesan), Munir Abud, no Seminário Clima e Saneamento: Sustentabilidade, Adaptabilidade e Financiamento para o Setor, realizado nesta terça-feira (5), em São Paulo (SP).
O seminário foi uma iniciativa do Núcleo Clima e Saneamento da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e reuniu especialistas e lideranças para discutir o papel do saneamento frente às mudanças climáticas e à necessidade de adaptação das cidades brasileiras.
Apoiadora oficial do evento, a Aesbe teve atuação de destaque ao longo da programação, com Abud participando de um dos painéis centrais, que discutiu os impactos das mudanças climáticas sobre o setor de saneamento.
Durante os debates, o presidente da entidade chamou atenção para o principal entrave à universalização do saneamento no Brasil: a falta de recursos. Segundo ele, embora as metas de atendimento — 99% de água potável e 90% de coleta e tratamento de esgoto até 2033 — sejam amplamente conhecidas, o desafio real está na viabilidade financeira.
“Estamos falando de algo entre 800 bilhões e 1 trilhão de reais em investimentos necessários. E esse recurso não está disponível nem nas companhias, nem nos orçamentos públicos”, afirmou.
Abud destacou que a solução passa, inevitavelmente, pela ampliação do acesso a financiamentos, incluindo bancos públicos, organismos multilaterais e instrumentos do mercado de capitais. Ele também mencionou que novos arranjos institucionais podem ser necessários para garantir a sustentabilidade dos projetos.
Outro ponto central de sua participação foi o alerta sobre os impactos das mudanças climáticas no setor de saneamento. Segundo Abud, o tema precisa ser tratado como prioridade estratégica por gestores públicos e operadores do sistema.
“O saneamento é o primeiro a sentir os efeitos das mudanças climáticas, seja pela escassez ou pelo excesso de água. Não podemos permitir que outras discussões ofusquem esse problema ainda maior”, enfatizou.
O presidente da Aesbe citou projeções que indicam redução significativa na vazão dos rios brasileiros nas próximas décadas, o que tende a agravar a crise hídrica em diversas regiões do país. Ele também lembrou episódios recentes de eventos extremos, como enchentes e secas severas, que já impactam diretamente a operação dos sistemas de abastecimento e esgotamento sanitário.
Ao apresentar caminhos possíveis, Abud destacou experiências práticas que vêm sendo adotadas como resposta aos desafios climáticos. Entre elas, o uso de água de reúso para abastecimento industrial e projetos de dessalinização em áreas com escassez hídrica.
Segundo ele, essas iniciativas demonstram que a crise também pode gerar oportunidades de inovação e novos modelos de negócio no setor. No entanto, reforçou que soluções estruturais exigem tempo e planejamento antecipado.
“Se não começarmos agora, vamos chegar atrasados. Projetos desse porte levam anos para sair do papel. Quem planeja tem futuro, quem não planeja tem destino”, afirmou.
A participação de Munir Abud ocorreu em painéis que reuniram representantes do governo federal, entidades do setor, agências reguladoras e instituições financeiras. No Painel 1 – “Correlações entre Mudança Climática e Serviços de Saneamento: Desafios e perspectivas”, ele dividiu o debate com Manuela Marinho, do Núcleo Clima e Saneamento da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (NCS/FESPSP), que atuou como mediadora; Antônio Miranda, professor visitante e coordenador de projetos da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP); Ricardo Rezende, gerente do Departamento de Indústria de Base e Extrativa Sustentáveis da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP); Alexandre Motta, presidente da Fundação Nacional de Saúde (FUNASA); e Ana Carolina Argolo, diretora da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA).
Os debates também abordaram temas como regulação, licenciamento ambiental e novas linhas de financiamento, incluindo recursos do Fundo Clima. No Painel 2 – “A Visão dos Governos, Parlamento e Prestadores: o que precisa ser feito pelo setor de saneamento para um melhor enfrentamento da Mudança Climática?”, a Aesbe também esteve representada por seu diretor executivo, Sérgio Gonçalves. O painel foi mediado por Fernandha Batista, do Núcleo Clima e Saneamento da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (NCS/FESPSP), e reuniu Adinan Ortolan, da Associação Brasileira de Municípios (ABM); Márcio Leão Coelho, do Ministério das Cidades, por meio da Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental (MCID/SNSA); Esmeraldo Pereira Santos, presidente nacional da Associação Nacional dos Serviços Municipais de Saneamento (ASSEMAE); Romário Júnior, coordenador técnico da Associação Brasileira das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Água e Esgoto (ABCON); André Galvão, superintendente da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (ABREMA); o deputado federal Fernando Monteiro, presidente da Frente Parlamentar do Saneamento Básico; e Adriano de Queiroz, da Associação Brasileira de Agências de Regulação (ABAR).
No Painel 4 – “Visão dos Financiadores Multilaterais: Impactos Climáticos e Desafios de Elegibilidade em Projetos de Saneamento”, a Aesbe também esteve representada por Joel de Jesus Macedo, coordenador da Câmara Técnica de Recursos para Investimento e Financiamento (CTRIF) da entidade. O painel foi mediado por Ana Szajubok, do Núcleo Clima e Saneamento da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (NCS/FESPSP), e contou com a participação de Léo Gaborit, diretor adjunto da Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD); Oscar Carvalho, coordenador de carteira no Brasil do Fundo Financeiro para o Desenvolvimento da Bacia do Prata (FONPLATA); Carlos Alberto Orellana, coordenador setorial de projetos de água e saneamento do Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF); Alex Vervuurt, consultor independente; e Luana Pretto, presidente executiva do Instituto Trata Brasil.


