Reação da economia no fim de 2020 já se esgotou

Valor Econômico
04/03/2021

A economia em 2021 pode repetir o ritmo lento dos anos pós-recessão – ela perdeu o rumo do crescimento

Mesmo as boas notícias contidas nos resultados do desempenho da economia em 2020 divulgados ontem já pertencem ao passado. Há duas relevantes. O recuo do Produto Interno Bruto, de 4,1%, ficou muito abaixo das previsões catastróficas feitas logo após a irrupção da pandemia. A queda foi menor que a de 30 países em uma relação de 56. Foi também a melhor performance entre as grandes economias da América Latina. Além disso, o avanço no quarto trimestre superou as expectativas, com 3,2% em relação ao trimestre anterior, sinalizando uma trajetória ascendente em 2021 que não se realizará. O otimismo deu lugar a temores de uma recessão técnica, com possível retração nos dois primeiros trimestres deste ano.

As mais recentes estimativas no boletim Focus (BC) indicam expansão de 3,29% (e caindo), quando a herança estatística de 2020 asseguraria por si só crescimento de 3,6%. O recrudescimento da pandemia no fim do ano frustrou as projeções mais entusiasmadas. A segunda onda da covid-19 se revelou mais letal que a primeira e o país caminha de volta para os lockdowns, com fechamento de atividades não essenciais, redução forte da mobilidade e o cortejo de restrições vistos nessa mesma época do ano passado, quando a covid-19 chegou ao Brasil. O Estado de S. Paulo, onde se gera um terço do PIB nacional, paralisará por duas semanas grande parte das atividades produtivas. Estados em pior situação – há 19 deles com ocupação de leitos de UTI superior a 80% – devem seguir o exemplo.

O impulso dado no quarto trimestre não tem força para se propagar sem a contenção da pandemia e vacinação em massa – ambas ausentes. No quarto trimestre, o consumo das famílias cresceu 3,4% e a Formação Bruta de Capital Fixo, pelo menos 12%, se descontada importação de plataformas de petróleo. O auxílio emergencial, que sozinho injetou R$ 291 bilhões em 2020 para amparar 68 milhões de pessoas que perderam a renda, acabou e não foi ainda reinstituído.

Os serviços, que se reergueram parcialmente no fim do ano, levarão outra pancada da pandemia com o cerco à mobilidade. O segmento “outros serviços”, que são os prestados às famílias e que agregam os setores mais dependentes de mobilidade, avançou 6,8% no último trimestre de 2020. O consumo das famílias, o “espelho” dos serviços pelo lado da demanda, definha com o desemprego alto e as limitações que a pandemia coloca à expansão de atividades produtivas que geram vagas. No ano, o consumo (peso de 60,7% do PIB) fechou em queda de 5,5%, um pouco menor do que os -4,7% do consumo do governo (peso de 20,1% no PIB).

Algum impulso poderia ser esperado da poupança feita durante a vigência do auxílio emergencial, mas seu uso no consumo também depende da contenção da pandemia, o que ainda parece distante. Essa poupança é seguramente mal distribuída, como a renda do país. Com todos os estímulos oficiais, o consumo das famílias recuou R$ 126 bilhões no ano, bem menos que os R$ 146,5 bilhões de queda observados entre o primeiro e o segundo trimestres do ano, no início da pandemia.

Nos dois trimestres seguintes o consumo somou R$ 241,5 bilhões. A poupança bruta, por sua vez, cresceu 2,5 pontos percentuais, de 12,5% para 15% do PIB, com aumento de R$ 191,8 bilhões. Em conta grosseira, camadas de baixa renda que usaram o auxílio podem ter reservado algo como R$ 60 bilhões para um futuro difícil (perto de 0,8% do PIB), montante relevante, mas insuficiente. A poupança dos mais ricos cresceu bem mais e só será usada quando os serviços voltarem ao normal.

As condições para o crescimento são adversas. Com o governo endividado, o impulso dos estímulos fiscais será bem menor, porque os gastos de suporte à economia produziram déficit da ordem de 10% do PIB. A ausência de reformas para contenção de gastos e amparo do teto elevou a desconfiança dos investidores e a conta está sendo paga por um dólar que chegou agora perto dos R$ 5,70.

A perda de valor do real implica perda de renda doméstica, que já se agravara pelo aumento da inflação, que, dos alimentos, pode se espalhar pelos efeitos de forte alta das commodities reforçada pelo dólar alto. Uma consequência é que o BC pode ser empurrado a elevar juros quando a economia não só não recuperou a plena forma, mas se retrai. A renda per capita caiu

4,8% (R$ 35.172) e é a menor da série histórica. A economia em 2021 pode repetir o ritmo lento dos anos pós-recessão – ela perdeu o rumo do crescimento.

 

 

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