O Rio Grande do Sul enfrenta mais um cenário de apreensão diante das fortes chuvas que atingem o estado neste mês de julho. Segundo balanço divulgado pelo governo gaúcho, os temporais já provocaram estragos em 143 municípios, com deslizamentos, alagamentos, vendavais e queda de granizo. O levantamento mais recente aponta 155 pessoas desalojadas, 51 desabrigadas e um ferido. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) chegou a emitir alerta vermelho de grande perigo para acúmulo de chuva, com previsão de volumes superiores a 100 milímetros em 24 horas, risco de transbordamento de rios e novos deslizamentos de encostas.
As precipitações também afetaram a infraestrutura viária do estado: 18 trechos de rodovias estaduais chegaram a ter interdição total ou parcial, a maioria em razão de alagamentos nas pistas. Passados pouco mais de dois anos da maior tragédia climática da história gaúcha, em 2024, a população do Rio Grande do Sul volta a viver dias de instabilidade e insegurança.
O quadro de chuvas acima da média na Região Sul tem relação direta com o El Niño, fenômeno caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, que altera a circulação atmosférica em escala global. No Brasil, o fenômeno costuma provocar efeitos opostos entre as regiões: reduz as chuvas no Norte e Nordeste, ao mesmo tempo em que intensifica o volume de precipitações no Sul do país. Institutos meteorológicos monitoram desde o início do ano a evolução do que vem sendo chamado de “Super El Niño”, com potencial para se tornar um dos episódios mais fortes já registrados, o que reforça a tendência de chuvas mais frequentes e intensas sobre o Rio Grande do Sul nos próximos meses.
Cenários como esse escancaram a importância estratégica do saneamento básico na prevenção e na mitigação de desastres. Sistemas eficientes de drenagem urbana, manejo de águas pluviais e manutenção de redes de esgoto reduzem diretamente o risco de alagamentos e seus impactos sobre a população — especialmente em áreas urbanas de maior vulnerabilidade. Investimentos contínuos em infraestrutura sanitária, ampliação da cobertura de drenagem e planejamento urbano integrado às condições climáticas são medidas fundamentais para que eventos extremos como o que atinge o RS não se repitam com a mesma intensidade de 2024.
A Associação Brasileira das Empresas Estaduais de Saneamento (Aesbe) reforça que o enfrentamento de episódios climáticos extremos não se resume à resposta emergencial: exige planejamento de longo prazo, investimento constante e integração entre poder público, empresas de saneamento e sociedade civil. Um sistema de saneamento robusto é, também, uma ferramenta de adaptação às mudanças no regime de chuvas provocadas por fenômenos como o El Niño.
É justamente para aprofundar esse tipo de discussão que a Aesbe criou o Papo de Clima, programa dedicado a debater os impactos das mudanças climáticas sobre o setor de saneamento básico no Brasil. Gravado na sede da entidade, em Brasília, o programa já reuniu especialistas, presidentes de companhias e coordenadores das câmaras técnicas da associação para discutir segurança hídrica, resiliência da infraestrutura e adaptação do setor a eventos como o que atinge o Rio Grande do Sul.
A associação também é responsável pela Série Universalizar, conjunto de estudos técnicos que orientam o setor rumo à universalização do saneamento no país. Um dos documentos mais recentes da série, o Volume 13, foi apresentado durante a COP30, em Belém, e reúne diretrizes voltadas aos prestadores de serviços de água e esgoto para o enfrentamento de eventos climáticos adversos — justamente o tipo de cenário vivido agora pelo Rio Grande do Sul. Outros volumes da série, como o 9 e o 12, também trataram de soluções baseadas na natureza e da agenda de políticas públicas sobre mudança climática para o setor, temas que reforçam a importância de um planejamento técnico consistente diante da intensificação de chuvas extremas.
Solidariedade ao povo gaúcho
Diante do novo momento de dificuldade enfrentado pelas famílias atingidas pelas chuvas, a Aesbe manifesta sua solidariedade à população do Rio Grande do Sul e reforça o compromisso do setor de saneamento com a reconstrução, a prevenção e a proteção de vidas. Que o setor continue avançando na direção de cidades mais resilientes — porque investir em saneamento é, também, investir em segurança para todos.


