Uma oportunidade histórica

Valor Econômico
28/01/2020

Por Carolina Genin

O Brasil tem tudo para sentar na janela do trem de oportunidades que a próxima década representa para desenvolver o país, gerar emprego e fazer uma transição para uma economia mais limpa. A década que se inicia será marcada globalmente por investimentos que ajudem a adaptar o mundo a uma economia e estilo de vida menos nocivos ao clima e ao meio ambiente.

A decisão de colocar o país nessa rota de investimentos sustentáveis passa pelo Congresso Nacional, que reabre os trabalhos legislativos neste começo do ano com a oportunidade e a urgência de destravar a economia brasileira e criar as bases legais para o Brasil embarcar em uma “economia de baixo carbono”, como está sendo chamado o modelo econômico menos poluente e mais moderno já em implementação por diferentes setores e em diversos países, inclusive China, Estados Unidos e Alemanha.

Brasil recebeu pequena fração de seu potencial, US$ 5,1 bi, em títulos verdes, que bateram recorde global em 2019

Nossa agricultura é um importante mercado e vitrine, e por isso os congressistas precisam garantir para investidores que marcos regulatórios basilares como o Código Florestal não sofrerão alterações que gerem incertezas e riscos. O novo marco legal do saneamento e o das parcerias público-privadas podem ser importantes chamarizes para investimento em infraestrutura sustentável a curto prazo e com isso gerar emprego e renda. Reformas maiores como a tributária e a do pacto federativo podem ajudar os Estados a também liderar projetos regionais de desenvolvimento econômico atrativos para o mercado externo, construindo um importante degrau para muitos saírem de suas atuais crises fiscais.

Incluir o componente da sustentabilidade no planejamento de infraestrutura, agricultura e indústria, entre outros, é uma forma de posicionar o Brasil estrategicamente em uma década marcada por investimentos externos direcionados a um modelo econômico de baixo carbono em todo o mundo. Um relatório publicado em 2018 pela Global Comission of the Economy and Climate estima que, até 2030, serão investidos US$ 90 trilhões somente em infraestrutura sustentável. Hoje, pelo menos US$ 40 trilhões já estão disponíveis para investimentos verdes por parte de fundos de pensões, segundo o Instituto Think Ahead.

O Brasil tem tudo para estar entre os destinos preferenciais desses recursos, mas no momento estamos perdendo terreno para vizinhos como o Chile.

Um exemplo está na emissão e empréstimos de títulos verdes. A emissão desses títulos se expandiu rapidamente na última década, atingindo um recorde global de US$ 202 bilhões em 2019. O Brasil, maior mercado da América Latina, recebeu apenas uma pequena fração de seu potencial: US$ 5,1 bilhões, segundo dados da Climate Bonds Initiative. Enquanto isso o Chile, que é a quinta maior economia da América Latina, já se tornou o segundo maior mercado dos títulos verdes do continente, atraindo US$ 3,1 bilhões. Por meio desses títulos, o Chile atraiu mais de 300 investidores para financiar linhas de metrô, transição da frota de transporte coletivo para ônibus elétricos, melhorias em prédios públicos, entre outros.

A revolução tecnológica dos ônibus elétricos mostra como é possível atrair investimentos, gerar empregos ao mesmo tempo em que se diminui a poluição nas grandes cidades. A cadeia de eletrificação de ônibus gera empregos diretos e indiretos. Além disso, investimento em transporte público tem retorno econômico significativo para o desenvolvimento local, dá acesso a oportunidades e conecta comunidades mais pobres aos serviços urbanos. Quando outros fatores são colocados na conta, seu custo fica ainda mais baixo, graças a benefícios como melhora da qualidade do ar – diminuindo a pressão no sistema de saúde por doenças respiratórias -, redução de emissão de gases de efeito estufa, poluição sonora e engarrafamentos, além de um serviço melhor para o cidadão.

O Brasil está pronto para embarcar nessa nova realidade. Já existe uma fábrica de ônibus elétrico no país, e estudos mostram que não há grandes gargalos a serem superados para se produzir veículos elétricos no Brasil. Além disso, o país possui um diferencial expressivo que é a soma de uma matriz elétrica de baixo carbono com um histórico de inovações em sistemas de ônibus. Em dez anos, queremos exportar ou importar ônibus elétricos?

Assim como acontece com o ônibus elétrico, o Brasil pode se posicionar para receber investimentos com o selo verde em muitos setores, como infraestrutura, energia, agricultura e finanças. O Banco Interamericano de Desenvolvimento estima que os governos da América Latina necessitem investir em torno de US$ 77 bilhões até 2030 para adequarem suas economias e sociedades a um modelo de baixa emissão de carbono. Com sorte, o dinheiro público conseguirá cobrir no máximo um quarto deste valor. São os investidores do setor privado os verdadeiros motores financeiros por trás desta transição que deve determinar o nível de competitividade da economia desses países. Portanto, quem fizer primeiro, lucra mais do ponto de vista econômico, social e ambiental.

No entanto, em 2019, o Brasil perdeu investimento externo apesar do reaquecimento da economia. Até 27 de dezembro, os saques de investidores estrangeiros da bolsa tinham totalizado R$ 43,5 bilhões – o maior déficit registrado em toda a série histórica iniciada em 1994. Os incêndios na Amazônia brasileira e em outros países levaram 230 investidores com US$ 16,2 trilhões em ativos a expressar grande preocupação com o estado das florestas tropicais e ameaçarem deixar de investir em países como o Brasil.

Em 2020, o Brasil precisa mostrar com suas ações que merece cada centavo investido aqui e não acolá. O Congresso Nacional é uma instituição chave no posicionamento do país nos trilhos dos investimentos sustentáveis. O trem que levará as economias de hoje a um mundo de alta competitividade, geração de emprego e baixa emissão de carbono já está na estação. Só precisamos embarcar.

Carolina Genin é mestre em Meio Ambiente e Desenvolvimento pela London School of Economics and Political Science e diretora do programa de Clima do WRI Bras

 

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