O gás natural e a transição energética

Valor Econômico
05/02/2020

Por Eloi Fernández

Se as condições regulatórias e econômicas não forem criadas rapidamente, o Brasil vai renunciar a uma fonte energética fundamental

O mundo vive hoje uma fase de transição energética, onde a tendência é o crescimento das fontes de energia renováveis (hídrica, eólica, solar, ondas, correntezas), com a substituição progressiva das fontes de energias fósseis (carvão, óleo e gás natural). Nesse quadro, o Brasil é um país privilegiado, nossa matriz energética primária representa 45% de fontes renováveis. No caso da geração de energia elétrica (EE), esse percentual sobe para 83% de energias renováveis, o que representa uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, resultado da geração hidroelétrica, que nos acompanha desde o início de nosso desenvolvimento moderno.

Mesmo tendo como objetivo final a descarbonização da matriz energética, muitos países elegeram o gás natural (GN) como o principal energético de transição, tendo como justificativas centrais ele ser uma fonte primária de grande disponibilidade, custo competitivo e, entre os fósseis, o de menor nível de emissão de CO2. China e Estados Unidos, por exemplo, têm obtido redução importante das emissões com incremento do consumo do GN.

Se as condições regulatórias não forem criadas, o Brasil vai renunciar a uma fonte energética fundamental

O Brasil foi historicamente um país pobre em recursos gasíferos, tendo lançado mão de importações do Gás Natural Liquefeito (GNL) e de gás boliviano para complementar a oferta doméstica para suprir o mercado nacional. O elevado custo de gás importado contribuiu para uma oferta de gás pouco competitiva no Brasil, com impactos econômicos importantes para a indústria e o setor elétrico nacional.

No caso da indústria, os preços elevados do gás afetam diretamente a competitividade dos setores de insumos básicos que são intensivos em GN (siderurgia, pelotização de minério de ferro, alumínio, química, cerâmica, vidro, papel e celulose). Estes setores têm sofrido um processo de rápida deterioração da competitividade no mercado doméstico e internacional. No setor elétrico, o elevado custo das termelétricas alimentadas por GN importado é determinante para a fixação do preço dos contratos de energia elétrica, notadamente nos períodos de baixa hidrologia.

As descobertas do pré-sal apontam para um potencial de oferta de volumes expressivos de GN ao mercado nacional. Convém ainda ressaltar que as recentes descobertas de óleo leve e GN na porção offshore da bacia de Sergipe-Alagoas, com potencial mínimo de 15 MMm3/dia de GN, criam perspectivas extremamente favoráveis no aproveitamento de GN numa região que vem demandando ampliação de sua geração termelétrica local.

O gás do pré-sal é associado ao petróleo e tem como característica principal uma baixa flexibilidade da oferta. Ademais, o aproveitamento comercial desta oferta dependerá de enormes investimentos na infraestrutura de escoamento, processamento e logística de transporte e distribuição. Por sua vez, a viabilidade econômica destes investimentos depende de garantias de mercado firme para o GN e dos preços do gás seco.

É possível desenvolver um mercado firme para o gás do pré-sal através de termelétricas que despacham na base do sistema elétrico. Geração termelétrica na base de 5 a 12 GW, pode demandar até 60 MMm3/dia, para uma nova oferta potencial de 105 MMm3/dia de GN do présal na Região Sudeste. Atualmente, grande parte das termelétricas são flexíveis e são despachadas de forma complementar às hidrelétricas e outras fontes renováveis variáveis (solar e eólica). Para que novas termelétricas possam ser âncoras para o gás do pré-sal, são necessárias mudanças regulatórias para aumentar a parte da geração térmica que é contratada de forma inflexível, com despacho na base.

Em estudo realizado pelo Instituto de Energia da PUC-Rio, cenários foram gerados e simulados, mantendo-se o total de térmicas e do custo estimado pelo planejamento energético nacional (PDE-2017), variando a proporção entre novas térmicas firmes e flexíveis de acordo com cenários de preço de gás. Este estudo demonstrou que uma oferta de gás nacional a preços mais baixos que o gás importado permitiria aumentar o volume contratado na modalidade firme, com a respectiva redução da contratação flexível, sem gerar custos adicionais para os consumidores de energia elétrica.

Observou-se ainda que com o aumento das térmicas na base, cresce o armazenamento hídrico, possibilitando a utilização de potencial adicional no controle das intermitências. Ademais, os resultados das simulações também mostraram variações irrelevantes no vertimento dos reservatórios hídricos e no aumento das emissões. No pior cenário ambiental, não se verifica alteração significativa nas emissões de CO2 eq, ficando o incremento em torno de 0,32% do teto de emissões no setor energético brasileiro definido no acordo de Paris.

Diante das limitações da expansão hídrica e da variabilidade da geração eólica e solar, a geração térmica com GN apresenta-se como a tecnologia apropriada no curto-médio prazos para atender a segurança energética e elétrica, e mais uma vez fortalecendo o papel do GN na transição energética.

Com relação ao preço do gás seco, é possível viabilizar investimentos necessários para a oferta ao mercado com preços do GN em patamares inferiores ao do gás importado. Isto ocorre porque o gás do pré-sal é muito rico, com presença significativa de GLP e gasolina natural. O processamento do gás rico permite separar estes produtos, que podem ser comercializados, contribuindo para amortizar o custo da infraestrutura de escoamento e tratamento do gás. Assim, além do suprimento das termelétricas, a nova oferta do pré-sal a preços competitivos permitiria desenvolver outros segmentos de mercado, como GNV e indústrias de insumos básicos.

Por fim, vale ressaltar que a lógica econômica e o ritmo do desenvolvimento dos campos petrolíferos do pré-sal são ditados pelo petróleo e não pelo GN. Assim, é fundamental que sejam introduzidas políticas adequadas para viabilizar o aproveitamento do gás, ao invés da sua reinjeção. Se as condições econômicas e regulatórias não forem criadas rapidamente, o Brasil vai renunciar a uma fonte energética fundamental para a competitividade da nossa economia e ambientalmente amigável.

Eloi Fernández y Fernández e Edmar de Almeida são do Instituto de Energia da PUC-Rio. Reinaldo Souza, Paula Maçaira e Oswaldo Pedrosa são do Instituto de Economia da UFRJ

 

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