Novos cortes de juros seguem firmes no radar

Valor Econômico
20/03/2020

Por Victor Rezende e Lucas Hirata

Em pesquisa com 47 instituições, apenas oito veem manutenção da taxa Selic em 3,75%

O tom conservador do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, ao dizer que considera adequada a Selic em 3,75%, não convenceu os participantes do mercado. Grande parte das instituições financeiras e consultorias ouvidas pelo Valorainda projeta reduções adicionais da taxa básica nos próximos meses. Nas palavras de alguns analistas, a realidade vai ser impor e o colegiado terá de aplicar novos estímulos, dado o grande choque na atividade econômica e nas expectativas de inflação.

No cenário-base de 39 casas, a taxa Selic terminará o ano em nível ainda mais baixo que o atual. No entanto, a magnitude dos cortes varia bastante. Há quem espere apenas mais um corte de 0,25 ponto percentual e os que projetam juro a níveis até então inimagináveis, na casa dos 2%. Entre as 47 instituições consultadas, apenas oito esperam que os juros se mantenham nos atuais 3,75% este ano. E algumas já indicam que outras medidas, além do corte de juros, podem ser adotadas pelo BC para tentar conter os impactos do novo coronavírus.

A dinâmica do mercado de juros futuros ontem refletiu bem o entorno turbulento da política monetária. Diante da postura mais dura adotada pelo Copom, a abertura do pregão foi marcada por um clima de nervosismo. Na B3, um movimento de zeragem de posições promoveu um salto expressivo nas taxas de curto prazo, mais sensíveis à política monetária -tudo isso patrocionado por mais um dia de estresse nos mercados globais. Na máxima do dia, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 subiu de 4% para4,65%, mas terminou o pregão em 3,95%.

Na noite anterior, o Copom decidiu reduzir a Selic de 4,25% para 3,75%, mas indicou que vê o novo patamar como adequado. Para muitos analistas, o discurso foi cauteloso demais diante de um cenário que se deteriora rapidamente com o impacto do coronavírus na economia global.

“O comunicado do BC foi um pouco mais cauteloso do que eu imaginava […] Meu pensamento inicial era de que o BC sinalizaria que há muita incerteza e que, agora, ele vê um ambiente possivelmente desinflacionário, como eles haviam colocado na declaração de duas semanas atrás”, diz o economista-chefe para América Latina do Morgan Stanley, Arthur Carvalho, que espera redução adicional de 0,25 ponto da Selic em maio. “Eu achava que eles iriam manter otom anterior, dado o efeito no PIB e o impacto da queda nos preços de petróleo.”

Uma visão mais agressiva é adotada pelo economista-chefe da ACE Capital, Ricardo Denadai, para quem o BC adotou um discurso “assustadoramente conservador”, mas terá de voltar atrás na comunicação e reduzir de forma intensa a taxa básica. “Avaliamos como cenário mais provável que o Copom terá de fazer uma reunião extraordinária nas próximas semanas para cortar a Selic em, pelo menos, 1 ponto percentual”, afirma.

Denadai avalia que não será possível esperar até maio, tendo em vista que a situação econômica e financeira piora a cada hora. “A dimensão do problema é muito maior do que eles aparentemente imaginam. Está em curso uma grande recessão econômica no Brasil e no mundo. Nosso PIB em 2020 deverá ser bastante negativo”, diz o economista. Além do corte extraordinário, ele vê a Selic próxima a 2%, talvez abaixo disso, no fim do ano. “Temos que caminhar rapidamente para juro real negativo.”

Nos cálculos do Valor Data, a taxa de juro real estava ontem em 0,73%, considerando o contrato do swap de juro de 360 dias descontada a projeção de inflação para um ano.

O economista-chefe para Brasil do BNP Paribas, Gustavo Arruda, também observa que o impacto do novo coronavírus no país será bastante expressivo e vê a Selic caindo a 3% ainda este ano, sem descartar uma atuação emergencial antes da reunião do Copom em maio. “Nosso cenário base agora contempla um PIB de -1% e há risco de revisões para baixo”, afirma. “Em tempos normais, a política monetária tende a ser conservadora. No entanto, acreditamos que a recessão projetada no Brasil se mostrará desinflacionária. Nesse cenário, a autoridade monetária precisa agir para amenizar o choque”, diz

O ambiente de incerteza em níveis elevados coloca o cenário conservador do Copom em xeque. Mas, para Arthur Carvalho, do Morgan Stanley, isso não prejudica a credibilidade da autoridade monetária. “É compreensível que o BC possa mudar sua avaliação de forma material e significativa”, afirma o especialista, ao destacar que “as mudanças não estão vindode fatores econômicos, mas de fatores de saúde pública e questões sociais”.

Quem porém não acredita em uma mudança no posicionamento do Copom é Dan Kawa, sócio da TAG Investimentos, para quem a taxa básica de juros deve se manter inalterada em 3,75% ao longo deste ano. Para ele, o discurso do colegiado “foi prudente diante dos enormes riscos envolvidos no cenário”.

Já o economista-chefe para Brasil do Barclays, Roberto Secemski, diz que não descarta alguma flexibilização adicional e modesta da Selic à frente, mas, “considerando o desempenho volátil do real, esperamos que um novo estímulo monetário mais significativo venha de medidas macroprudenciais, e não da taxa básica de juros”, diz.

 

 

 

 

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