No Brasil, investidor vê queda da Selic já neste mês e BC muda discurso

Valor Econômico
04/03/2020

Por Victor Rezende, Lucas Hirata e Lucinda Pinto

Discussão agora gira em torno da magnitude do próximo corte

O corte surpresa nas taxas de juros americanas pelo Federal Reserve (Fed) abriu de vez as portas para que os agentes do mercado projetem a Selic em níveis ainda mais baixos, em um movimento tão intenso que levou o Banco Central do Brasil a se posicionar no fim do dia e abandonar o sinal de que havia interrompido o ciclo de corte da Selic. Analistas não descartam há 3 horas nem mesmo a possibilidade de um corte de 0,50 ponto percentual no juro básico na decisão deste mês.

Nos cálculos da Quantitas, o mercado de juros futuros já embute uma redução de 0,20 ponto percentual na Selic na reunião de 17 e 18 de março do Comitê de Política Monetária (Copom), enquanto um corte de 0,15 ponto percentual já está projetado nos preços para o encontro de maio.

O que deu força para o movimento foi a decisão do Fed em reduzir os juros, em um anúncio feito fora das reuniões tradicionais, algo que não ocorria desde 2008. Com o objetivo de enfrentar os riscos econômicos em torno da proliferação do coronavírus, a iniciativa deu aval para expectativas de novos estímulos monetários pelo globo.

Por aqui, o BC se posicionou no fim do dia: “o impacto sobre a economia brasileira proveniente da desaceleração global tende a dominar uma eventual deterioração nos preços de ativos financeiros”. Também disse que “as próximas duas semanas permitirão uma avaliação mais precisa dos efeitos do surto de coronavírus na trajetória prospectiva de inflação no horizonte relevante de política monetária”.

Para analistas, o BC está sinalizando uma mudança de postura e começa a preparar o terreno para um possível corte de juros, em linha com o que vem ocorrendo com outros BCs no mundo. “Corte de juros no mundo e choque derivado da doença colocam pressão adicional para o BC cortar juros”, diz Marcos Mollica, gestor do Opportunity. Além disso, ao comentar o prazo para a próxima decisão, praticamente elimina o risco de reunião extraordinária, especulação que vinha aumentando no mercado.

“Acho que vem um corte de 0,50 ponto em março. Temos um cenário de revisão para baixo da atividade e o início deste ano não tem mostrado uma grande recuperação”, diz Gustavo Pessoa, gestor na Legacy Capital. Com a revisão do PIB global diante dos impactos do coronavírus, a gestora projeta um crescimento de apenas 1,5% em 2020 no Brasil, o que não seria muito diferente dos outros anos. “Dada essa fraqueza e ociosidade da economia, é correto cortar a taxa básica de juros”, acrescenta.

Pessoa acredita que, embora o nível da taxa básica de juros esteja estimulativo hoje, o grau de acomodação ainda não é suficiente. “Com um crescimento de 1,5%, deveríamos colocar a política monetária em um nível ainda mais estimulativo para promover uma expansão mais acelerada”, diz.

Quem também vê um corte de 0,50 ponto na Selic neste mês é a Gauss Capital, que também espera que o BC deixe algum espaço na comunicação para movimentos adicionais caso as projeções se deteriorem. Assim, a gestora vê possibilidade de outro corte de 0,25 ponto depois de março e acredita que as chances de o juro básico ir a 3,5% têm aumentado.

“Se o Fed está vendo um risco maior para a economia americana, isso também pode ter impacto no mercado local e irá atrapalhar a retomada da economia brasileira. Além disso, o diferencial de juros, que era algo preocupante por causa da depreciação do câmbio, passa a não ser mais uma questão tão impactante”, avalia Carlos Menezes, gestor de renda fixa na Gauss. Para ele, o caminho para o BC reduzir o juro básico está aberto.

Alguns agentes acreditam, porém, que o corte de juros em março será mais contido, diante da comunicação recente do Copom, que, no início do mês passado, via como adequada a interrupção do processo de flexibilização. É o caso do Credit Suisse, que vê dois cortes seguidos de 0,25 ponto percentual da Selic. Para o economista Lucas Vilela, os desafios impostos pelo novo coronavírus à economia global deram a base para mais estímulos monetários diante do risco de crescimento mais fraco. Em relação ao Brasil, o Credit Suisse espera um crescimento de 2% do PIB este ano e de 2,7% em 2021.

 Economista-chefe do UBS, Tony Volpon também espera um corte de 0,25 ponto na Selic já em março e acredita que uma nova redução nos juros é quase um consenso entre os agentes agora. “Havia duas condições para que o Copom pudesse voltar a cortar os juros: se o Fed cortasse primeiro ou se houvesse uma estabilidade cambial, com a provisão adequada dos instrumentos de hedge.

“ A economista-chefe da ARX, Solange Srour, alerta que um corte de juros já neste mês pode ser contraproducente, uma vez que arrisca deixar o dólar ainda mais pressionado e as taxas de juro de longo prazo em níveis mais altos – sinais negativos para a confiança no país. Esses dois fatores podem acabar apertando as condições financeiras, e não estimulando como desejaria o BC. Para ela, não há clareza suficiente para determinar que os efeitos negativos da proliferação da doença na atividade econômica seja maior do que a deterioração no preço dos ativos financeiros. “Vejo mais perdas do que ganhos se o BC tomar agora uma decisão que poderia ser feita mais para frente já que a política monetária está bastante estimulativa”, afirma.

Ontem, o real foi uma das poucas moedas que não ganhou terreno contra o dólar. Por aqui, a divisa americana subiu 0,56%, a R$ 4,51.

 

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