Mortes por covid devem tirar 2,2 anos da expectativa de vida dos brasileiros

Valor Econômico  
01/03/2021

Por Alessandra Saraiva

Pesquisadora do Ipea faz projeção com base nos óbitos da doença em 2020 e número pode voltar a cair este ano

O grande número de mortes de idosos durante a pandemia deve ter conduzido a um corte de 2,2 anos na expectativa de vida do brasileiro em 2020. Essa queda, se confirmada, vai gerar desde perda de renda domiciliar, originada de pensão dos idosos, até encarecimento de seguros de vida em grupo, de acordo com especialistas. Ana Amélia Camarano, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e que estimou a queda na esperança de vida do brasileiro no ano passado – que era de até 76,5 anos em 2019 -, faz outro alerta: o cálculo foi feito com mortes contabilizadas por ela até 2020. Com as mortes por covid deste ano, pode haver um segundo recuo na expectativa de vida.

A queda da expectativa de vida do brasileiro não ocorria desde a década de 1940. Os cálculos da pesquisadora levam em conta universo de 191.552 mortos por covid-19 até 31 de dezembro. Desses, 77,1% tinham mais 60 anos, conforme o DataSus, base de informações do Ministério da Saúde. Ou seja, 147.686 mortos eram idosos.

Em menos de um ano a covid-19 matou em torno de 0,43% dos idosos no país, só em 2019. O total de idosos (34 milhões) foi computado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), usando como base dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O total de mortes de 2020 por todas as causas ainda não está disponível (incluindo covid) no DataSus. A pesquisadora usou o total de mortes de 2019 e acrescentou os óbitos por covid-19 para calcular a expectativa de vida. “Os mortos por covid-19 em 2020 representam cerca de 14,2% dos óbitos em 2019, que foram em torno de 1,35 milhão. É muita coisa”, disse.

O impacto mais imediato desse cenário, além da perda emocional das famílias, é o desaparecimento de renda de benefícios desses idosos. Cálculos com base nos dados da Pnad Contínua até 2019 indicam que 35% dos 72,6 milhões de domicílios brasileiros tinham pelo menos um habitante com mais de 60 anos e, nesses casos, o idoso contribuía com 70,6% da renda da família. Da renda dos idosos, 62,5% vinham de aposentadorias ou pensões.

Ana Amélia calcula que 21,2% dos domicílios brasileiros tinham, no mínimo, 50% da renda dependente dos idosos. A renda mensal per capita desses domicílios era de R$ 1.772,2. Se esses idosos morressem, observou ela, o rendimento médio per capita cairia para R$ 529,2. Ou seja: uma redução de quase 75% que afetaria cerca de 12,1 milhões de pessoas, sendo 2,2 milhões com menos de 15 anos. Ainda de acordo com ela, 18,6% do total de domicílios dependia apenas da renda do idoso. “Podemos dizer que a pandemia não deixa somente órfãos, deixa pobres também”, resumiu ela.

A redução da expectativa de vida deve afetar os preços de seguro de vida em grupo, diz Newton Conde, da Conde Consultoria Atuarial. Segundo ele, uma queda em esperança de vida em um ou dois anos é considerada impacto sazonal, um “ponto fora da curva” que seria ajustado nos cálculos das seguradoras. “Ninguém espera que tenhamos 200 mil mortes por ano por covid-19 por anos e anos.

Para Conde, como houve aumento acima do normal em óbitos no ano passado, as seguradoras devem ter liberado mais recursos do que o previsto, o que encarece as apólices.

A expectativa de vida no país apresentou crescimento contínuo, durante décadas. Ao falar sobre o histórico crescente da esperança de vida no país, Fernando Albuquerque, demógrafo e pesquisador do IBGE, citou como razões melhorias nas áreas de saneamento básico do país, bem como menor mortalidade infantil.

“A expectativa de vida começou a se modificar e a melhorar no fim da guerra [Segunda Guerra Mundial]”, disse. Naquele período, explicou ele, houve maior troca de informações entre as nações em temas importantes, como de vacinação – fundamental para recuo de morte de crianças com idade inferior a um ano.

 

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