Investidor externo não olha apenas para a economia, diz Monica de Bolle

Valor Econômico
27/01/2020

Por Marcelo Osakabe

A analista critica a abordagem do atual governo sobre o meio ambiente

Diferentemente do que parecem imaginar setores do empresariado e do mercado financeiro local, o investidor estrangeiro não costuma separar as realizações econômicas do governo do presidente Jair Bolsonaro do restante das ações de sua gestão – marcada por polêmicas em diferentes segmentos, com destaque para a área ambiental. A avaliação é da economista Monica de Bolle, diretora do programa de estudos latino-americanos da Universidade Johns Hopkins, nos EUA. Para ela, em meio a uma perspectiva de retomada econômica ainda moderada, esse é um dos motivos da falta de entusiasmo dos estrangeiros com o país.

Em 2019, o Investimento Estrangeiro Direto (IED) no Brasil cresceu 26%, para US$ 75 bilhões, segundo a Agência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad). A economista, no entanto, crê que parte desse fluxo pode ser creditado ao investidor chinês, menos preocupado com controvérsias de curto prazo do governo. “A motivação deles é mais geopolítica, de muito longo prazo. Então, ruídos [gerados] por ministros de Bolsonaro afetam muito menos a perspectiva deles que outros grupos [de investidores]”, argumenta ela, que também é pesquisadora sênior do Instituto Peterson Para Economia Internacional (PIIE).

“A reforma da Previdência passou mas, no fim das contas, a recuperação que muitos achavam que ia se concretizar não ocorreu e isso deixou o Brasil menos atraente”, diz. “Quando se soma isso a discussões como o vídeo do Roberto Alvim [exhá 3 horas Finanças secretário da Cultura], por exemplo, ninguém separa economia do resto. O que acontece dentro do governo Bolsonaro, na esfera ambiental, política exterior, tudo é visto como parte do conjunto. O que existe é uma apreensão muito grande de como isso tudo vai se autocontaminar, embora exista a impressão de que a agenda econômica parece sólida e [o ministro] Paulo Guedes tem as ideias certas.”

A analista critica a abordagem do governo sobre o meio ambiente não apenas pelo dano de imagem, mas também porque faz o Brasil sumir das conversas sobre investimentos que levam esse tema em conta. “Essa é uma área determinante hoje para alguns investimentos e muita gente no mercado começa a discutir como introduzir essa abordagem em suas políticas, olhando para temas como descarbonização, créditos de carbono, infraestrutura verde. Países que começam a trilhar esse tipo de agenda naturalmente serão os que chamarão mais atenção dos estrangeiros. O Brasil está na contramão desse processo, para não dizer alijado”, diz.

Monica nota que o dano de imagem do Brasil no exterior não afugenta igualmente todos os tipos de investidores – europeus e americanos, por exemplo, estariam entre os mais incomodados. Mas mesmo entre os que poderiam ser considerados mais pragmáticos, a guinada também traria algum reflexo negativo. “Os chineses também estão comprometidos com a descarbonização, só que nos moldes deles. Eles sabem que essa é uma necessidade de longo prazo do país. Se hoje o governo brasileiro estivesse atento a essas mudanças e tivesse uma agenda verde bem estruturada, certamente teria muito mais investimento chinês querendo entrar.”

A economista também tem tecido críticas ao perfil fiscalista da equipe econômica liderada pelo ministro Paulo Guedes (Economia), que no ano passado esteve em Washington e visitou o PIIE. “A impressão que ficou aqui é que o Brasil está meio sem rumo, o que bate de frente, de certa forma, com a maneira como os mercados e os empresários enxergam o tema aí no Brasil. Acreditam que o fiscalismo de Guedes vai levar a crescimento maior. É claro que as medidas fiscais vão melhorar a perspectiva do PIB, mas isto não basta e ninguém tem clareza sobre de onde irá surgir esse crescimento mais elevado”, diz.

Sobre o crescimento esperado para o Brasil neste ano, ela diz: “Dobrar o crescimento de 1% para 2% é um feito muito pequeno se olharmos para tudo que passamos”. A pesquisadora avalia que, depois de tantos anos de crise, é difícil saber qual o tamanho da capacidade ociosa e do PIB potencial. “Se a ociosidade não for essa toda que imaginamos, isso significa que teremos falta de dinamismo mais para frente que confiança nenhuma e fiscalismo nenhum vai resolver. Se o Brasil estiver caminhando para taxa de crescimento de 2%, não é suficiente para gerar grande euforia por parte do estrangeiro. Pelo contrário, continuará a gerar incertezas parecidas com essas que temos discutido.”

 

 

 

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