Inflação sugere hiato de 5%, diz economista

Valor Econômico
21/01/2020

Por Fabio Graner

Braulio Borges argumenta que ociosidade e preços contidos poderiam levar Selic para menos de 4%

O economista da LCA Consultores e pesquisador do Ibre/FGV Bráulio Borges publicou um texto no qual apresenta testes que confirmariam sua tese de que o nível de ociosidade da economia (hiato do produto) estaria em torno de 5% do PIB.

O principal teste, segundo ele, é a dinâmica inflacionária, que, apesar do salto do IPCA no fim do ano passado, está muito comportada. Ele lembra que 2019 foi o quarto ano seguido de inflação bem abaixo da meta, quando se desconsidera o atípico movimento da carne, que representou um quarto da inflação do ano passado e se concentrou no fim do ano.

Para ele, com essa ociosidade e projeções de mais um ano de inflação abaixo da meta em 2020, o BC teria espaço para colocar a Selic até abaixo de 4%, encerrando o ciclo de baixa em 3,75% ou 3,5% ao ano.

“Tanto o hiato estimado pelo Ipea como aquele obtido pela aplicação do filtro HP à série do PIB efetivo (“esticada” com projeções de consenso até 2023) superestimaram, consideravelmente, a inflação na projeção fora da amostra (2014 em diante), sobretudo de 2017 para cá (mesmo tendo explicado muito bem a inflação em 2001-2013, dentro da amostra). Já as outras duas medidas de hiato, que apontam excesso de ociosidade da ordem de -5% hoje, conseguiram explicar razoavelmente bem a dinâmica da inflação nos últimos anos”, afirmou.

O último número estimando o hiato do produto feito pelo ministério da Economia era de -3,5%, mas está em fase de revisão. O Banco Central não informa seus números, embora continue reiterando que o nível de ociosidade na economia segue elevado.

O economista, que tem se dedicado a esse tema há algum tempo, afirmou ao Valorque a constatação de que ainda há um grau muito alto de ociosidade tem implicações não só para a gestão da política monetária, mas também para a questão fiscal.

“Um hiato em torno de 5% subtrai dois pontos percentuais do PIB do resultado primário do setor público consolidado”, afirmou. “Isso é importante porque na discussão sobre o ajuste fiscal só se fala de um aspecto”, explicou, referindo-se às medidas de ajuste estrutural pelo lado da despesa, como a reforma da Previdência. “A parte conjuntural também é muito importante. Metade do ajuste estrutural que se diz necessário, da ordem de quatro pontos percentuais do PIB, seria por questão cíclica.”

Nesse sentido, explicou, uma boa política fiscal envolveria também a busca por se “fechar o hiato”, ou seja, reduzir mais rapidamente a ociosidade produtiva do país. Ele reconhece que o uso de instrumentos fiscais está interditado devido à visão do atual governo e, por isso, sobrou tudo para a política monetária, que ainda teria espaço para atuar.

Borges também considera que a manutenção de uma folga excessiva na capacidade produtiva do país causa efeitos negativos mais prolongados na economia, chamado de “efeito histerese”. Por exemplo, pessoas há dois ou três anos desempregada têm maior dificuldade de reinserção no mercado de trabalho e também há “fuga de cérebros” para o exterior, diante da redução de oportunidades. “Também afeta o estoque de capital da economia porque não há estímulo para a empresa investir”, disse. “Isso prejudica o potencial de crescimento”, completou.

O economista cobra maior transparência do BC, que não divulga sua estimativa de hiato do produto. Para ele, a autoridade deveria mirar no exemplo do Federal Reserve, o BC dos EUA, e no mínimo abrir o que considera o nível de desemprego de equilíbrio, permitindo maior clareza e eficácia para a sua atuação. O Valorformalizou junto ao BC o pedido para informar suas estimativa de hiato do produto. A resposta foi negativa.

 

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