Incertezas com o Orçamento voltam a pesar sobre os ativos

Valor Econômico
30/03/2021

Por Marcelo Osakabe, Felipe Saturnino e Victor Rezende

Saída de Araújo dá alívio apenas pontual; dólar chegou a superar R$ 5,80

A aprovação de um Orçamento considerado de improvável execução para 2021 continuou no centro das atenções dos mercados ontem. Como resultado, o dólar voltou a testar o patamar de R$ 5,80, enquanto os juros futuros ficaram sob pressão, especialmente os de prazo mais longo. Já o Ibovespa só não encerrou no vermelho por causa do forte desempenho da Vale e de outras ações ligadas a commodities.

Investidores estão preocupados com o cenário político complicado que o governo tem à frente para tentar desatar o nó orçamentário – que poderia levar, em última instância, ao rompimento do teto de gastos.

“Achei muito ruim. É um orçamento fictício, porque retira despesas obrigatórias, sendo que estas não podem ser reduzidas. É como dizer que o sol não pode nascer amanhã”, afirma Alberto Ramos, chefe da área de pesquisas econômicas sobre América Latina do banco Goldman Sachs. “O teto perde a sua funcionalidade se você empreende manobras contábeis, porque já não serve mais para conter a expansão fiscal.”

No fim do pregão na B3, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 subiu de 4,73% para 4,765%, enquanto o DI para janeiro de 2027 disparou de 8,69% para 8,84%. Já o dólar subiu 0,44%, para encerrar cotado a R$ 5,7668, após alcançar R$ 5,807 pela manhã.

Apesar da escalada do câmbio, em termos reais, ajustado pela inflação de Brasil e EUA, o dólar ainda continua longe do pico de R$ 3,9552 registrado em outubro de 2002. Segundo cálculo de Emerson Marçal, coordenador do Centro de Macroeconomia Aplicada da EESPFGV, esse valor equivaleria a R$ 7,93 no câmbio de hoje.

O mal-estar ontem só foi limitado pela notícia da saída do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Expoente da ala ideológica do governo, o chanceler é tido como um dos responsáveis pelo atraso do país em obter vacinas contra a covid-19. O Ministério das Relações Exteriores passará a ser chefiado pelo embaixador Carlos Alberto França. Mudanças no comando de outros importantes Ministérios – como Defesa e Justiça – também foram anunciadas ontem.

“A saída de Araújo é positiva porque ele fazia parte da ala ideológica, que tinha pouco apoio tanto de empresários como do Congresso”, diz Rogério Braga, gestor de renda fixa da Quantitas. “É importante no sentido de que o governo abre espaço para mais indicações do Parlamento.”

Mesmo com o respiro trazido pela troca do comando do Itamaraty, o mal-estar com o Orçamento continuou no foco do dia. Cálculo do Instituto Fiscal Independente (IFI) mostra que o projeto, na atual versão, estoura o teto em R$ 31,9 bilhões, o que ilustra o tamanho do esforço que o governo precisará empreender para se ater às regras.

Ainda que o problema seja evidente, resta saber como será a negociação entre Executivo e Legislativo dentro de um arcabouço novo, nota o economista-chefe da Exploritas, Andrei Spacov. “Sabemos que o processo de negociação deste governo costuma ser ruidoso e conflituoso”, diz. “Esse, no fundo, é um novo relacionamento entre Executivo e Congresso. O movimento dos congressistas para garantir emendas foi uma reação. Talvez esse processo não seja amigável e alguém terá que arbitrar isso, muito possivelmente o Tribunal de Contas da União (TCU).”

Para alguns, o resultado muito aquém do desejado na semana passada também respingou na reputação dos presidentes de Câmara e Senado, Arthur Lira (PP-AL) e Rodrigo Pacheco (DEM-MG). “Certamente o mercado diminuiu a confiança que tinha [neles]”, diz Patricia Pereira, estrategista-chefe da área de renda fixa da MAG Investimentos. “Não acho que eles já sejam vistos como adversários do mercado. Mas certamente o mercado vai dar menos crédito a eles.”

Na outra ponta, há quem entenda que a avaliação é algo feito no calor da situação e que o saldo de ambos, até aqui, é bastante positivo. “Em menos de 60 dias, Lira e Pacheco aprovaram a autonomia do BC, a PEC gatilhos, o veto do saneamento e a reforma do setor de gás natural. Então, desse ponto de vista, a agenda pró-mercado do ministro Paulo Guedes e o Congresso continuam em lua de mel”, diz Alexandre Manoel, economista-chefe da MZK Investimentos. “Não é um contratempo desse que vai apagar o que já fizeram até aqui.”

Em sua avaliação, as dificuldades enfrentadas na semana passada são parte de um processo de aprendizado e, dado que um rompimento formal do teto implica na responsabilização “do CPF” de muita gente, entre servidores e políticos, ele crê como muito baixo tal risco. Por outro lado, diz, a pressão por mais gastos discricionários cresce juntamente com a chance do decreto de calamidade pública. “Esse é o grande receio”, diz, lembrando que o mecanismo está previsto na PEC emergencial.

Para Solange Srour, economista-chefe do Credit Suisse no Brasil, a proposta orçamentária do ano passado apenas dá contornos concretos a uma incerteza com o fiscal que ronda o país há tempos, prejudicando a retomada da economia. Para ela, o governo poderia recobrar alguma confiança dos investidores caso, além de reformar o atual projeto, fizesse andar alguma reforma que atuasse como âncora fiscal de médio prazo.

“No momento, em que parece inevitável que teremos que aumentar o gasto público para além dos R$ 44 bilhões previstos [na PEC emergencial], o que poderia ajudar a reverter essa baixa confiança é ver Executivo e Congresso mostrarem alguma disposição para fazer andar alguma reforma que traz poupança, como a reforma administrativa, ou outras ideias como a reforma do FGTS junto com auxílio desemprego.

 

 

 

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