Crises e seus aprendizados

Valor Econômico
20/05/2020

Por André Barbosa

Diversificação é sempre importante em períodos como o atual

Investimentos em tempos de crise sempre trazem aprendizados. E com a crise atual não tem sido diferente.

No início de 2020, as perspectivas pareciam ser ótimas para ativos de risco, pois tudo indicava continuidade da apreciação nos mercados. O Ibovespa refletia esse sentimento, vindo de uma sequência de altas de 2016 a 2019, bastante influenciada pelas reduções da taxa Selic.

Desde 2018, observamos pessoas físicas aumentando sistematicamente a alocação em ações. O movimento se reflete no aumento do número CPFs na B3, que alcançou 1,68 milhão ao final de 2019, depois de ter oscilado em torno de 500 mil a 600 mil indivíduos entre 2008 e 2017. No entanto, o cenário benéfico se reverteu de forma muito rápida em 2020.

O Ibovespa vinha de lado até que a crise do coronavírus começou a tomar proporções mais graves na segunda quinzena de fevereiro. As semanas seguintes foram marcadas por movimentos caóticos em um mercado com extrema volatilidade, inclusive com seis “circuit breakers” ao longo de março.

Nas últimas semanas, a volatilidade vem diminuindo, na medida em que o afastamento social se mostrou efetivo, os BCs tomaram medidas rápidas e as discussões sobre medicamentos ou vacinas avançaram. No entanto, permanecem os questionamentos sobre possíveis ondas de contaminação subsequentes, com a diminuição do isolamento, assim como a magnitude dos impactos na economia e nas empresas.

O Brasil, porém, não é para amadores. A crise evoluiu não só para os efeitos do coronavírus, que afetam o mundo inteiro, mas também um aumento da incerteza política com a saída de importantes ministros. Em relação a isso, o grande ponto para os mercados são as especulações sobre a continuidade do ministro Paulo Guedes (Economia). Um possível evento com essa magnitude poderia comprometer e postergar ainda mais uma recuperação consistente dos mercados, assim como a confiança necessária para a retomada econômica no Brasil.

Em meio a todas essas oscilações e quedas da bolsa, observamos alguns movimentos entre os investidores que estão passando por sua primeira crise severa: 1) entrar em pânico em relação às quedas da bolsa e zerar as posições, muitas vezes nos piores momentos de mercado. Isso, em muitos casos, é reflexo de uma alocação mais agressiva do que a ideal para o perfil do investidor; 2) após quedas substanciais, alocar todos os recursos em uma aparente oportunidade imperdível de entrada. Com isso, o investidor fica sem disponibilidade de capital para aproveitar eventuais quedas subsequentes.

A notícia interessante, e talvez até surpreendente, é que muitos investidores aproveitaram as quedas recentes para iniciar seus investimentos na bolsa. Dados atualizados da B3 mostram que a base de investidores chegou a 2,24 milhões no final de março, correspondente a um aumento de 15% em relação a fevereiro.

Para esses novos investidores, assim como para os outros que já tenham comprado ações, tenho as seguintes recomendações:

1) foque no longo prazo! Embora, o momento atual pareça um bom ponto de entrada, ainda é impossível prever a duração da crise e quanto tempo será necessário para retornarmos a antiga normalidade;

2) entenda bem seu perfil de risco, para minimizar quebras de expectativas no futuro;

3) tenha uma carteira diversificada, com diversas classes de ativos, em vários setores e empresas diferentes;

4) invista em ações de empresas sólidas, que tenham capacidade financeira acima da média, sendo capazes de passar pela crise, mesmo que a duração seja mais longa do que a esperada. Essas companhias “vencedoras” podem até apreciar menos no curto prazo, mas tendem a emergir da crise com situação competitiva favorável, pois empresas menos preparadas devem sair mais fracas ou mesmo encerrar atividades; 5) invista na sua capacitação como investidor, assim você vai conseguir julgar se as recomendações que você recebe são feitas em seu melhor interesse;

6) pense em aportes recorrentes, em vez de tentar acertar a mosca da mínima do mercado. Depois de decidir qual parcela do seu capital você quer alocar em ações, execute os investimentos ao longo dos próximos meses, sempre lembrando da diversificação;

7) caso você já esteja plenamente alocado em ações, fique de olho em oportunidades de rebalanceamento. Os diversos setores e empresas estão sendo afetados de maneiras distintas e talvez existam oportunidades para otimizar sua alocação;

8) sempre mantenha uma reserva alocada em ativos extremamente conservadores para eventuais momentos de emergência.

André Barbosa é sócio diretor da Toro Investimentos
E-mail: andre.barbosa@toroinvestimentos.com.br

Este artigo reflete as opiniões do autor, e não do jornal Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações.

 

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