Por Sergio Lamucci, Lucinda Pinto, Lucas Hirata e Estevão Taiar – Valor Econômico

12/12/2018 – 05:00

A economia brasileira vai ganhar fôlego em 2019, com a aceleração da retomada cíclica e a melhora da confiança de empresários e consumidores, dizem os analistas do Comitê de Acompanhamento Macroeconômico da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Para eles, o PIB vai crescer 2,8% no ano que vem, um ritmo consideravelmente mais forte que o 1,3% esperado para este ano.

A expectativa é que o novo governo dará prioridade à agenda de reformas, conseguindo aprovar a mudança do sistema de aposentadorias no Congresso e, com isso, adotar medidas para enfrentar o grande problema do país – o desequilíbrio fiscal. A visão mais otimista dos economistas da Anbima difere da avaliação de muitos investidores estrangeiros, que ainda mantêm uma atitude cautelosa em relação ao Brasil.

Ao anunciar ontem as novas projeções do Comitê da Anbima em evento no Valor, o economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato Barbosa, disse que a expectativa para 2019 é de “uma retomada gradual da economia, que não gere pressões inflacionárias”. Segundo ele, a recuperação da atividade será importante em relação ao crescimento de 2018, mas o quadro de grande ociosidade na economia deve garantir um cenário tranquilo para a inflação e, por tabela, para os juros no ano que vem.

A expectativa é que a taxa média de desemprego, por exemplo, recue de 12,2% em 2018 para 11,44% em 2019, de acordo com a mediana das projeções do Comitê Macro da Anbima, do qual Barbosa é presidente. A desocupação, com isso, seguirá elevada, em parte porque trabalhadores hoje desalentados deverão voltar a buscar emprego, dadas as perspectivas melhores para a economia, diz Barbosa.

As projeções deste mês dos economistas da Anbima mostram uma combinação mais favorável de crescimento e inflação que no encontro realizado em outubro. A estimativa para a expansão do PIB de 2019 subiu de 2,5% para 2,8%, enquanto a previsão para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) caiu de 4,2% para 4% – abaixo da meta do ano que vem, de 4,25%, como ressalta Barbosa.

Sócio da Mauá Capital, Luiz Fernando Figueiredo diz que “há um lado cíclico da economia que está prontinho para crescer”. Ele destaca a ociosidade e o fato de que as empresas reduziram os custos e os níveis de endividamento. Figueiredo vê com otimismo as perspectivas para o próximo governo, elogiando em especial a escolha da equipe econômica, além de avaliar que as chances de aprovação das reformas são significativas. Ex-diretor do Banco Central (BC), ele considera haver uma grande possibilidade de avanço em 2019 da mudança do sistema de aposentadorias, a provável prioridade inicial da administração Jair Bolsonaro. “Acho quase impossível o Congresso não dar a primeira reforma para um governo que acabou de ser eleito. O governo tem que errar demais para que isso ocorra.”

Figueiredo acredita na continuidade da melhora da confiança ao longo de 2019, ainda que não deva haver um salto como o registrado pelo indicador da Confederação Nacional da Indústria (CNI) em novembro. Ele o atribui ao fim do temor de uma vitória do PT nas eleições, que poderia colocar em risco a continuidade da agenda de reformas.

Barbosa também vê a recuperação da confiança no ano que vem, influenciada pela aceleração da economia e pela retomada do emprego. Além disso, é necessário ficar claro que as reformas estão avançando, diz Barbosa. Não é indispensável que a da Previdência seja aprovada na primeira metade do ano, mas é preciso que haja sinais de que as medidas de ajuste progridem no Congresso.

Nesse cenário, ajuda o fato de ter havido uma melhora da percepção quanto à situação fiscal de curto prazo, avalia o chefe de economia e estratégia do Bank of America (BofA) Merril Lynch, David Beker. O ponto de partida é hoje melhor, diz ele, ressaltando que a aceleração do crescimento ajuda o resultado primário (que exclui gastos com juros), ao elevar a arrecadação, assim como a devolução de recursos do BNDES para o Tesouro e a eventual obtenção de recursos com privatizações e com o leilão das concessões das áreas da cessão onerosa feita à Petrobras. A dívida bruta, com isso, deve subir mais lentamente. A projeção do Comitê da Anbima é de que o indicador terminará 2019 em 78,5% do PIB, um pouco acima dos 77% do PIB previstos para o fim deste ano.

Ao falar da atividade, o economista-chefe da Itaú Asset Management, Felipe Tâmega, diz que o cenário que se forma para 2019 é propício para um crescimento baseado no consumo das famílias. A redução do endividamento das famílias, a melhora do crédito e a queda do desemprego favorecem uma expansão da atividade liderada pelo consumo privado, aponta ele.

Os economista da Anbima trataram da diferença de visão sobre o Brasil dos investidores estrangeiros em relação aos locais.

Para Figueiredo, o estrangeiro tem demonstrado ânimo com o noticiário brasileiro, mas deve esperar sinais mais concretos a respeito do avanço da agenda de reformas para efetivamente alocar seus recursos no mercado doméstico. Ele avalia que, devido ao ambiente internacional mais desafiador para o próximo ano e também por experiências negativas acumuladas ao longo de 2018, o estrangeiro será muito mais cauteloso. “Hoje, o estrangeiro não está correndo risco em nada, o apetite por risco é baixíssimo”, diz. “Por isso, quer o mínimo de avanço da reforma para alocar.” O encaminhamento da reforma da Previdência ao Congresso, segundo ele, pode ser um primeiro sinal positivo, puxando o fluxo de investimentos externos.

A queda da exposição desse investidor nos últimos meses pode ser vista também como um elemento que cria um potencial de melhora, à medida que a agenda de reformas de fato avance. Barbosa lembra que, hoje, o estrangeiro tem uma posição comprada em dólares de US$ 40 bilhões. Se ela for revertida, pode haver um efeito expressivo de valorização do câmbio.

“Se virar isso, será uma avalanche de dinheiro para Brasil.”

Beker e Barbosa apontam a possibilidade de o Brasil ser visto como uma história positiva entre os emergentes em 2019. O crescimento deve se acelerar e a expectativa é de avanço da uma agenda de reformas, características que podem fazer o Brasil se sobressair no ano que vem entre esse conjunto de países.

Ao comentar o cenário externo, Beker diz que ele deverá ser fonte de volatilidade – há as incertezas quanto à guerra comercial entre os EUA e a China, os riscos do Brexit (a saída do Reino Unido da União Europeia), os problemas fiscais da Itália e as dúvidas sobre como a perda do controle da Câmara dos Deputados dos republicanos – o partido de Donald Trump – para os democratas afetará os EUA. Além disso, há a questão de quantas vezes o Federal Reserve (Fed, o BC americano) vai elevar os juros no ano que vem. Beker diz que, hoje, o mercado embute nos preços menos de duas altas, enquanto há instituições que preveem mais aumentos – o próprio BofA Merrill Lynch espera quatro. Menos altas favorecem os emergentes.

Apesar desses riscos, o cenário internacional não é inóspito, avaliam Beker e Tâmega. O primeiro lembra que a economia global continuará a crescer, ainda que a um ritmo um pouco mais lento. Segundo Tâmega, o que está embutido nos preços é uma expansão mais fraca dos EUA e da China, mas não uma desaceleração mais forte do país asiático nem uma recessão americana.