BNDES encolhe e desembolsos têm sucessivos recordes de baixa

Valor Econômico
17/05/2020

Por Alessandra Saraiva e Gabriel Vasconcelos

Antes acionado em crises, banco deve abandonar cada vez mais seu antigo papel de grande financiador da iniciativa privada, dizem economistas

Os números do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) neste ano mostram baixo ritmo de desembolsos — e põem na berlinda o papel do banco na economia. Em 12 meses até março, os desembolsos da instituição somaram R$ 50,049 bilhões. Esse patamar é o menor nessa série histórica desde agosto de 1997 (R$ 47,856 bilhões). Já as liberações de crédito no primeiro trimestre deste ano caíram 42% ante igual período no ano passado, para R$ 8,3 bilhões. Somente em março, recuaram 23,7% em relação a março de 2019, para R$ 3,193 bilhões.

Para economistas ouvidos pelo Valor, o quadro atual reflete mudança no perfil do banco, que deve abandonar cada vez mais seu antigo papel de grande financiador da iniciativa privada, e deixar essa função para o mercado. Entretanto, em meio à crise causada por covid-19, os agentes financeiros encontram-se cada vez mais cautelosos. Isso pode obrigar o BNDES a assumir novas funções para incrementar crédito e projetos na economia, afirmaram os especialistas.

Enquanto o ritmo de desembolsos cai em meio à pandemia, a procura por crédito aumenta. As consultas de empréstimo junto ao banco subiram 80% entre fevereiro e março, para R$ 3,456 bilhões, com alta de 13% ante março do ano passado. No trimestre, as consultas aumentaram 10%, ante igual trimestre em 2019, para R$ 9,766 bilhões.

Mesmo com demanda por crédito, a tendência é que os desembolsos do banco reduzam ainda mais, nas palavras do professor do instituto Insper, Sérgio Lazzarini. Ele lembrou que a tendência de recuo já vinha desde antes da covid-19.

Na prática, o atual governo já sinalizava que o banco iria focar em áreas mais delicadas de conseguir financiamentos — como saneamento, por exemplo. Lazzarini comentou que o setor privado, atento à modificação de postura do BNDES, já se voltava para outras formas de financiamento – como papéis em mercado de debêntures, por exemplo. “O setor elétrico estava indo muito fortemente nessa direção”, disse.

Mas a pandemia mudou as decisões de investimento, bem com postura dos agentes de mercado dispostos a financiar projetos, reconheceu ele. O professor admitiu que, com incerteza na economia, há cautela no mercado de crédito, neste momento.

Uma ação que o banco poderia tomar para impulsionar crédito na economia, mesmo com crise e cautela em alta, sugeriu Lazzarini, é assumir papel de grande garantidor de crédito. “Temos exemplos de bancos internacionais que não emprestam, e sim fazem garantia de empréstimos da iniciativa privada”, comentou.

Outro papel que o BNDES poderia assumir, para impulsionar projetos sem atuar em grandes desembolsos, é se tornar grande estruturador de “project finance” do país, sugeriu o economista Claudio Frischtak, sócio da Inter.B Consultoria. O banco já atua nessa área, que trata de financiamento de longo prazo de projetos com base nos fluxos de caixa projetado. Mas poderia incrementar mais iniciativas nesse campo, acrescentou Frischtak. Ao mesmo tempo, a instituição também poderia continuar a ajudar na operacionalização de privatização de ativos no país.

Para Frischtak, pensar em novo papel para o banco hoje é fundamental. Isso porque a instituição, em sua análise, não voltará mais a sua função de grande financiadora de projetos. “Essa mudança no papel do banco, esse processo, eu vejo como irreversível. Não enxergo o BNDES voltando ao que era”, afirmou ele.

Carlos Antonio Rocca, coordenador do Centro de Estudos de Mercado de Capitais da Fipe – Cemec-Fipe, concorda com Frischtak no que concerne à necessidade de atuação do banco na preparação de projetos. Ele avaliou, ainda, que o banco tem atuado de forma satisfatória para apoiar a economia ante à crise causada pela pandemia. “Está desenvolvendo linhas de financiamento para capital de giro para pequenas e médias empresas. Mas não creio que deva voltar ao padrão dos desembolsos a taxas subsidiadas com recursos do Tesouro, que liquida o mercado de capitais”.

Em contrapartida, o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e ex-diretor do BNDES, Ernani Torres é mais cético em relação ao papel do mercado de capitais e do BNDES na economia, em oferecer mais liquidez e projetos durante a crise. Na análise do especialista, há entendimento do governo de que o mercado de capitais irá substituir de forma eficaz, o banco como financiador de grande porte. Mas isso não é certeza, alertou ele.

“Hoje, [o empréstimo do BNDES] está precificado de propósito para que não seja atraente e isso é especialmente delicado em momento de crise”, observou. Para Torres, BNDES está “engessado” porque “a cabeça das pessoas [governo] é resolver o problema fiscal e que o mercado vai resolver tudo, quando isso não acontece”.

 

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