Por Victor Aguiar – Valor Econômico
27/12/2018 – 05:00
Mesmo após os ganhos expressivos acumulados pelo Ibovespa em 2018, as perspectivas para a bolsa brasileira no ano que vem seguem positivas, em meio às projeções de recuperação da economia local. Apesar da instabilidade vista no exterior, analistas apostam em ações de setores ligados ao cenário doméstico – como consumo, varejo e bancos -, de olho nas projeções de melhora nos resultados corporativos e manutenção dos juros em patamares baixos.
Papéis de estatais também são citados por analistas como boas alternativas de investimento no próximo ano, dada a expectativa de privatizações e venda de ativos dessas companhias. Por outro lado, os setores de alimentos e bebidas, seguros e commodities são vistos com maior cautela e tendem a ser menos favorecidos em 2019.
Para André Carvalho, estrategista de ações do Bradesco BBI, há grande otimismo em relação às perspectivas de recuperação operacional e crescimento de lucro das empresas brasileiras no próximo ano, o que cria uma expectativa favorável em relação ao desempenho das ações. Além disso, as projeções de aceleração da atividade econômica contribuem para manter um sentimento positivo em relação ao mercado acionário.
De acordo com as estimativas do boletim Focus desta semana, o Produto Interno Bruto (PIB) deve avançar 2,53% em 2019. A projeção para a taxa Selic segue em 7,25% ao fim do ano que vem, mas a mediana das estimativas entre os economistas que mais acertaram as previsões – os chamados Top 5 – aponta para Selic em 6,5% no fechamento de 2019.
Por outro lado, Carvalho pondera que ainda há nebulosidade no front político, com dúvidas persistentes a respeito do andamento das reformas econômicas. “Em 2019 teremos um ambiente micro muito bom, mas o macro estará confuso”, diz Carvalho. Ele afirma que, apesar dessa falta de clareza, uma compressão dos prêmios de risco das ações já começou a ser verificada desde o fim das eleições – e tal movimento tende a continuar, em linha com os avanços da agenda do novo governo.
Essa redução nos prêmios de risco, somada ao aumento da percepção de risco no exterior, já provocou uma mudança no ranking de ações do Ibovespa com melhor desempenho acumulado ao longo de 2018. Papéis de exportadoras e companhias ligadas às commodities – como Vale e siderúrgicas -, que passaram boa parte do ano entre as líderes, perderam terreno para ativos mais ligados ao cenário doméstico nos últimos dois meses, num movimento em linha com as apostas dos analistas.
Magazine Luiza ON, com ganhos acumulados de mais de 120% no ano, desponta como ação do Ibovespa de melhor desempenho em 2018, seguida por Suzano ON (108%) e Cemig PN (106%). O “top 10” ainda inclui os ativos da B2W (85,4%), Gol (67,8%), Fibria (52,7%), Banco do Brasil (44,8%), Petrobras – tanto ON (46,6%) quanto PN (39,5%) – e Santander Brasil (36,4%). O Ibovespa tem alta de 11,42% desde o início de 2018.
Para o próximo ano, Carvalho diz que as ações de empresas de consumo mais ligadas ao crédito, como CVC, Lojas Renner e Cyrela, estão bem posicionadas para aproveitarem o ambiente mais favorável para o consumo doméstico. “Em ‘utilities’ [energia e saneamento], Copasa, Cemig e Energisa aparecem bem”, afirma, ressaltando que o setor elétrico tende a ser beneficiado pela perspectiva de reestruturação das estatais.
Ricardo Peretti, estrategista da Santander Corretora, também se mostra otimista em relação ao setor de varejo e consumo, mas pondera que as ações do Magazine Luiza e da B2W – papéis que aparecem entre os maiores ganhadores de 2018 – encontram-se num nível elevado de preços. Nesse contexto, ele dá preferência a Lojas Americanas, GPA e Lojas Renner dentro desse segmento.
Peretti ainda destaca os papéis do setor bancário, como Bradesco e Itaú, e de estatais, como Petrobras e Banco do Brasil – ações que seguem no radar mesmo após o bom desempenho em 2018, seja pelas perspectivas de aceleração da economia doméstica e demanda por crédito ou pela expectativa de privatização e venda de ativos.
“As empresas fizeram um esforço muito grande desde 2017 para se tornarem mais enxutas”, diz o estrategista da Santander Corretora, ressaltando que a perspectiva de manutenção da Selic em níveis baixos – a instituição projeta que a taxa básica de juros permanecerá em 6,5% ao ano no fim de 2019 – também é benéfica, por estimular o consumo e reduzir as despesas.
Fatores técnicos também justificam o otimismo dos analistas em relação ao mercado acionário brasileiro em 2019. O BTG Pactual, por exemplo, diz que o Ibovespa está sendo negociado com “valuation” (avaliação de preço) inferior à média histórica, em termos de relação entre preço e lucro, o que abre espaço para ganhos adicionais dos papéis. Além disso, fundos globais e voltados a mercados emergentes estão com baixa exposição às ações brasileiras.
“A economia tem tudo para ir melhor em 2019, e quanto mais rápida for a aprovação da reforma fiscal, maior será o aumento da confiança do investidor no Brasil”, diz Carlos Sequeira, analista do BTG Pactual. O banco projeta crescimento de 8,8% na receita líquida consolidada das empresas brasileiras em 2019 e alta de 30,8% no lucro líquido, ambos em relação ao resultado de 2018.
Sequeira também aposta suas fichas nas ações de empresas mais expostas à atividade doméstica: no setor de consumo, destaca Localiza e Lojas Renner; entre os bancos, cita Banco do Brasil. “A B3 também é um bom nome, achamos que ela irá se beneficiar pelo aumento do interesse pelo mercado acionário.”
Em linhas gerais, os analistas ponderam que todos os setores tendem a apresentar desempenho positivo na bolsa em 2019, mas dizem que determinados segmentos podem mostrar recuperação mais lenta ou enfrentar instabilidade ao longo do ano. Além disso, as instabilidades vistas nos mercados externos são apontadas como motivo de preocupação.
“Dificilmente o Brasil vai descolar do humor internacional por conta própria”, diz Peretti, do Santander, afirmando que os investimentos podem ter uma reação menos positiva caso seja deflagrada uma desaceleração mais intensa da economia mundial.
Carvalho, do Bradesco BBI, vê que ações de empresas ligadas ao setor de consumo, mas menos dependentes da melhora do cenário de crédito – caso da Ambev -, podem apresentar menor potencial de crescimento. A mesma lógica se aplica ao segmento de seguradoras, que encontrarão um contexto “mais desafiador” em 2019.
O cenário de commodities também é acompanhado de perto pelos analistas, especialmente o petróleo, que passou por uma forte onda de correção naos últimos meses de 2018 e retornou às mínimas em um ano. Tal contexto faz com que os analistas coloquem as ações de exportadoras como Vale, Suzano e Fibria em segundo plano, considerando as dificuldades externas e os ganhos contabilizados por tais papéis em 2018.
Quanto à Petrobras, os especialistas ponderam que as boas perspectivas para a empresa em 2019, em meio à possibilidade de aceleração nas vendas de ativos e desfecho do imbróglio em relação à cessão onerosa, abrem espaço para ganhos adicionais das ações. Contudo, a espiral negativa do petróleo representa um risco à estatal e pode afetar esse desempenho.
“O cenário global vai ser mais difícil para emergentes: alta de juros pelo Fed, desaceleração do crescimento global, riscos de guerra comercial”, diz Carvalho. “Se não tivermos a reforma aprovada, o Brasil seguirá crescendo, mas mais vulnerável ao cenário global. Nesse caso, é preciso ter exportadores na carteira”.