Os desafios para a universalização do saneamento básico no Brasil estiveram em pauta na Fenasan 2026, durante a mesa-redonda “Universalização do Saneamento: desafios e avanços”, realizada na terça-feira (20), em São Paulo. O debate integrou a programação do 37º Encontro Técnico da Feira Nacional de Saneamento e Meio Ambiente (Fenasan), promovido pela Associação dos Engenheiros da Sabesp (AESabesp), e reuniu lideranças de empresas do setor para discutir o cumprimento das metas estabelecidas pelo Marco Legal do Saneamento.
Representaram a Associação Brasileira das Empresas Estaduais de Saneamento (Aesbe) no debate o presidente nacional da entidade e da Companhia Espírito-santense de Saneamento (Cesan), Munir Abud, e o vice-presidente regional Nordeste II da Aesbe e presidente da Empresa Baiana de Águas e Saneamento (Embasa), Gildeone Almeida Santos.
A mesa-redonda contou ainda com a participação de Carlos Piani, presidente da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), e Marilene Ramos, diretora de Regulação e Sustentabilidade do Grupo Águas do Brasil. A sessão foi coordenada pela jornalista Ana Paula Rogers, da Comunicação da AESabesp, e teve como moderador o presidente da associação, Agostinho Geraldes.
O encontro abordou os obstáculos e as estratégias necessárias para alcançar, até 2033, as metas previstas no Marco Legal do Saneamento: garantir abastecimento de água potável a 99% da população e coleta e tratamento de esgoto para 90%. Entre os assuntos discutidos estiveram as desigualdades regionais, a ampliação dos investimentos, a segurança jurídica, a eficiência operacional, a qualificação profissional, a modicidade tarifária e os impactos das mudanças climáticas.
Durante o debate, Munir Abud destacou que o cumprimento das metas exige considerar as diferenças entre as realidades estaduais. Segundo ele, embora estados como Espírito Santo e São Paulo tenham condições favoráveis para alcançar os objetivos, a universalização em escala nacional permanece um desafio.
“É uma realidade: alguns estados vão conseguir, como São Paulo e Espírito Santo. É uma meta difícil de ser alcançada em escala nacional, mas possível. Exige compromisso para chegarmos a 2033 pelo menos melhor do que estamos hoje”, afirmou Munir.
O presidente da Aesbe também chamou atenção para as discussões sobre a eventual ampliação dos prazos para cumprimento das metas, considerando os efeitos sobre as tarifas cobradas dos usuários e a capacidade de atrair investimentos para o setor.
Outro tema abordado por Munir foi a adaptação das empresas de saneamento às mudanças climáticas. Ao compartilhar a experiência da Cesan, ele destacou as medidas adotadas após a seca histórica de 2014, com ênfase na ampliação do reúso de água em parceria com a indústria.
“Atitudes como essa mudam o perfil do setor e mostram que as ações devem começar hoje. Começamos a redesenhar a Cesan para o enfrentamento das mudanças climáticas”, explicou.
A discussão também evidenciou os desafios enfrentados por estados que precisam ampliar a infraestrutura de abastecimento e esgotamento sanitário, especialmente em áreas rurais e localidades dispersas. Nesse contexto, Gildeone Almeida apontou a escassez de profissionais especializados como um dos principais entraves para a expansão dos serviços na Bahia.
“Estamos buscando obras estruturantes, principalmente nas áreas rurais. A sociedade sabe que água é um direito e ninguém quer esperar até 2033. O grande gargalo é a mão de obra. Estamos tentando reter talentos, mas o Brasil ainda enfrenta uma carência severa de profissionais qualificados”, afirmou o presidente da Embasa.
Gildeone também defendeu a desburocratização dos processos licitatórios e destacou iniciativas do programa Bahia Mais Saneamento, que reúne ações de governança pública, atração de capital privado não oneroso e subsídio cruzado para viabilizar o atendimento em áreas com população dispersa.
As contribuições dos representantes da Cesan e da Embasa reforçaram a necessidade de combinar planejamento de longo prazo, investimentos, qualificação de profissionais e soluções adaptadas às características de cada região. O debate também destacou a importância de modelos regulatórios que permitam conciliar a sustentabilidade econômico-financeira das operações com o atendimento a populações vulneráveis e localidades de maior custo.
Ao longo da discussão, os participantes ressaltaram ainda a necessidade de aprimorar as condições de financiamento e o tratamento tributário aplicável aos serviços de saneamento no contexto da Reforma Tributária, de modo a evitar custos adicionais para atividades essenciais à saúde pública.
A participação das lideranças das companhias associadas reforça a atuação institucional da Aesbe nos debates sobre os caminhos para a universalização do saneamento no país. A troca de experiências entre prestadores de serviços contribui para identificar desafios comuns e discutir alternativas que ampliem o acesso à água potável e ao esgotamento sanitário, respeitando as particularidades regionais.
A Fenasan 2026 ocorre de 20 a 22 de outubro, no Expo Center Norte, em São Paulo, e reúne especialistas, gestores públicos, empresas e profissionais para discutir tecnologias, tendências e soluções voltadas ao desenvolvimento do saneamento básico e à preservação ambiental.


