Cagece autoriza início das obras da Planta de Dessalinização de Fortaleza, marco para a segurança hídrica do Brasil

Empreendimento será o maior projeto de dessalinização de água do mar para abastecimento humano do país e reforça a diversificação da matriz hídrica no Ceará 

A Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece), associada à Associação Brasileira das Empresas Estaduais de Saneamento (Aesbe), deu um passo histórico para a ampliação da segurança hídrica no Brasil ao autorizar o início das obras da Planta de Dessalinização de Fortaleza (Dessal). Com investimento superior a R$ 3,1 bilhões, o empreendimento será o maior projeto de dessalinização de água do mar para consumo humano já implantado no país e representa um avanço estratégico para o abastecimento da Região Metropolitana de Fortaleza. 

A obra será executada pelo Consórcio Águas de Fortaleza, por meio de uma Parceria Público-Privada (PPP) com a Cagece, que prevê a construção, operação e manutenção da planta durante um período de 30 anos. A previsão é que as obras sejam concluídas em 24 meses, com início da operação comercial na segunda metade de 2028. 

Quando entrar em funcionamento, a unidade terá capacidade para produzir 1 metro cúbico de água por segundo (1.000 litros por segundo), volume suficiente para atender aproximadamente 720 mil pessoas e suprir cerca de 12% da demanda atual de água da Região Metropolitana de Fortaleza. 

Para o presidente da Cagece e vice-presidente regional Nordeste da Associação Brasileira das Empresas Estaduais de Saneamento (Aesbe), Neuri Freitas, o empreendimento representa um divisor de águas para o saneamento brasileiro. Segundo ele, quando estiver em operação, a Dessal será a maior usina de dessalinização em funcionamento no país, superando plantas como a de Fernando de Noronha. 

“Essa vai ser a primeira planta de dessalinização de grande porte para abastecimento da população aqui no Brasil”, afirma Neuri. 

Tecnologia e eficiência para ampliar a oferta de água 

A planta utilizará a tecnologia de osmose reversa, considerada uma das mais modernas e eficientes para a dessalinização da água do mar. O processo será dividido em três etapas principais: 

Etapa 

Objetivo 

Pré-tratamento 

Remoção de sólidos em suspensão e contaminantes presentes na água do mar antes da dessalinização. 

Osmose reversa 

Separação dos sais dissolvidos, produzindo água de baixa salinidade e alta qualidade. 

Pós-tratamento 

Remineralização da água e ajuste rigoroso do pH para atender aos padrões de potabilidade estabelecidos pela legislação. 

De cada 2.300 litros de água captados no oceano, cerca de 1.000 litros serão convertidos em água potável. A salmoura resultante do processo será devolvida ao mar por meio de sistemas hidráulicos de difusão, projetados para minimizar impactos ao ecossistema marinho. 

O empreendimento também incorpora sistemas de recuperação de energia de alta eficiência e uma configuração otimizada do processo industrial, reduzindo significativamente o consumo energético. A operação foi concebida para utilizar, prioritariamente, energia proveniente de fontes renováveis, como eólica e solar, contribuindo para a redução da pegada de carbono. 

Para a Associação Latino-Americana de Dessalinização e Reúso da Água (Aladyr), esse passo posiciona o país na vanguarda da resiliência global. Eduardo Pedroza, diretor da associação, destacou:  

” A autorização para o início das obras da Dessalinizadora de Fortaleza representa um marco para a segurança hídrica do Brasil. Em um contexto de mudanças climáticas, crescimento urbano e maior pressão sobre os recursos hídricos, a dessalinização não é mais apenas uma alternativa para se consolidar como uma infraestrutura estratégica de abastecimento. Ceará reafirma sua posição de liderança ao transformar o planejamento de longo prazo em ações concretas, fortalecendo a resiliência hídrica de toda a Região Metropolitana de Fortaleza e estabelecendo uma referência para outros estados brasileiros” 

Segurança hídrica e adaptação às mudanças climáticas 

Além de ampliar a oferta de água para a população, a Planta de Dessalinização de Fortaleza representa uma estratégia de adaptação às mudanças climáticas, reduzindo a dependência do abastecimento em relação ao regime de chuvas e aos níveis dos reservatórios. 

Com a diversificação da matriz hídrica, parte da água atualmente destinada ao abastecimento urbano poderá permanecer disponível para outros usos estratégicos, como a agricultura, fortalecendo a resiliência hídrica do Ceará e promovendo maior segurança para o desenvolvimento econômico e social. 

O projeto também deverá servir de referência para futuras iniciativas de dessalinização em outras regiões brasileiras sujeitas ao estresse hídrico, consolidando um novo modelo de infraestrutura para o abastecimento de água no país. 

Compromisso ambiental e social 

Durante o planejamento do empreendimento, foram adotadas diversas medidas para minimizar impactos socioambientais. 

A localização original da planta foi alterada para evitar interferências em cabos submarinos de fibra óptica, preservando uma das principais estruturas de telecomunicações do país. As obras também contemplam perfurações profundas em áreas próximas à Praia do Futuro, reduzindo interferências em locais de desova de tartarugas marinhas, sob monitoramento dos órgãos ambientais competentes. 

O projeto inclui ainda ações de reassentamento das famílias localizadas na área da implantação e a manutenção de diálogo permanente com as comunidades vizinhas, além da realização de melhorias urbanas no entorno. 

Na área social, a expectativa é de geração de mais de 1.000 empregos diretos e indiretos durante a fase de construção, além da promoção de ações educativas voltadas ao uso racional da água e à preservação da zona costeira. 

Projeto alinhado às práticas ESG 

A Planta de Dessalinização de Fortaleza foi estruturada com base em princípios de ESG (Ambiental, Social e Governança). 

No eixo ambiental, destacam-se os sistemas de recuperação de energia, o uso prioritário de fontes renováveis, a gestão sustentável dos resíduos gerados no pré-tratamento e o projeto de dispersão da salmoura, desenvolvido para garantir rápida diluição e proteção dos ecossistemas marinhos. 

Na dimensão social, além de ampliar a segurança hídrica para cerca de 720 mil pessoas, o projeto prioriza a contratação de mão de obra local e o desenvolvimento de programas de educação ambiental junto às comunidades da região. 

Já na governança, a Parceria Público-Privada prevê auditorias independentes, mecanismos de transparência, compartilhamento de riscos e rígidos protocolos de conformidade, alinhando a operação aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas, especialmente o ODS 6 – Água Potável e Saneamento e o ODS 13 – Ação Contra a Mudança Global do Clima. 

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