Retorno de carteira de ações do BNDES supera Ibovespa

Por Francisco Góes – Valor Econômico

02/07/2019 – 05:00

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) teve um ganho econômico de R$ 74,8 bilhões em cinco anos com empresas listadas na bolsa de valores das quais é sócia. Em dez anos, esse ganho é um pouco menor, mas ainda assim relevante: R$ 66,3 bilhões. Os números correspondem a um aumento da “riqueza” do banco em um conjunto de empresas abertas que, no fim de março deste ano, representavam 88% da carteira de renda variável do sistema BNDES.

O cálculo, elaborado pelo banco a pedido do Valor , considera uma carteira de “partida” de ações de empresas abertas em poder do BNDES, na data em que foram compradas. Se as ações estavam na carteira há mais tempo, toma-se por base, para o cálculo, o número de papéis que o banco possuía e o valor desses ativos no mercado na data de arrancada (cinco ou dez anos). A essa carteira se somam proventos que o BNDES recebeu ao longo do tempo como dividendos, juros sobre capital próprio, resultado com venda de ações e, em alguns casos, juros sobre debêntures. Chega-se, assim, ao ganho econômico. Para calculá-lo, leva-se em conta o que o banco recebeu de proventos mais a posição da carteira final (em 31 de março de 2019), deduzindo eventuais investimentos no período de cinco ou dez anos e a carteira de “partida”. É usado o conceito de ganho econômico porque o BNDES ainda não vendeu a carteira e, portanto, não realizou lucro ou prejuízo nas operações.

O bom resultado do banco em empresas abertas é demonstrado pela rentabilidade da carteira da BNDESPar, a empresa de participações do BNDES. Em cinco anos, esse retorno foi de 17,1% ao ano, acima do Ibovespa, principal índice da B3, de 13,6% ao ano. Em dez anos, a conta é mais ajustada, mas ainda assim favorável ao banco: rentabilidade de 9,1% ao ano nas ações da carteira da BNDESPar frente a um Ibovespa que rendeu 8,8% ao ano. Em 15 anos, a conta é 12,2% ao ano na carteira de ações da subsidiária do BNDES ante 10,2% ao ano do Ibovespa. As contas têm como data final o dia 31 de março deste ano, fim do primeiro trimestre, último resultado contábil disponível do BNDES.

Os dados sobre a carteira de ações em empresas abertas do sistema BNDES são importantes por dois motivos. Primeiro porque há uma pressão do governo para que o banco venda a carteira o mais rápido possível. Esse teria sido, inclusive, um dos fatores da insatisfação do governo com a gestão de Joaquim Levy no BNDES, que terminaram com a saída do executivo do banco, em junho. O outro fator é justamente resultado do primeiro. Com o pedido de demissão de Levy, o governo indicou o economista Gustavo Montezano como novo presidente do BNDES. Com a posse de Montezano, esperada para os próximos dias, a diretoria do BNDES tem a expectativa de avançar na discussão com o conselho de administração do banco sobre a estratégia de venda da carteira de ações de empresas abertas, que é concentrada na BNDESPar.

No fim de março, as participações do sistema BNDES – que considera o próprio banco mais a BNDESPar – em companhias abertas e fechadas somavam R$ 120,5 bilhões a valor de mercado. Desse total, a parcela em ações corresponde a R$ 110, 8 bilhões. Há ainda subscrição de debêntures, no montante de R$ 7,8 bilhões, e cotas em fundos de investimento que somam R$ 1,9 bilhão. A carteira de ações do sistema BNDES é concentrado tanto em termos de setores como em termos de empresas. Entre os principais papéis estão Petrobras (óleo e gás), Vale (mineração), Eletrobras (energia elétrica), JBS (proteína animal) e Suzano (papel e celulose), entre outros.

As informações elaboradas pelo BNDES sobre o retorno nas companhias abertas nas quais é sócio mostra que o banco teve desempenhos positivos em quase todos os papéis. A métrica utilizada para fazer essa medição é a Taxa Interna de Retorno (TIR), que considera todas as entradas e saídas do fluxo de caixa do investimento e o valor de mercado inicial e final da posição acionária.

No caso de Petrobras, por exemplo, a TIR de cinco anos na carteira do BNDES foi de 14,44% ao ano. Esse desempenho garantiu ao BNDES um ganho econômico de R$ 30,5 bilhões no período, diferença entre a posição inicial e a posição final do banco no papel, somando-se os proventos. A TIR de 14,44% ao ano para Petrobras é levemente superior ao Ibovespa no período (13,6% ao ano). A maior TIR da carteira é da Gerdau (72,43% ao ano em cinco anos). A menor taxa de retorno corresponde à Embraer (negativa em 0,64% ao ano no mesmo período). No meio estão papéis como Vale (TIR de 14,57% ao ano), Eletrobras (41,31% ao ano), JBS (20,86%) e Suzano (32,71%). A soma dos ganhos e perdas de 19 empresas abertas na carteira do sistema BNDES permite chegar então ao ganho econômico de R$ 74,8 bilhões em cinco anos.

Nesse período, a TIR das empresas abertas nas quais o banco participa é quase toda positiva e de dois dígitos, com exceção de Cemig (4,96% ao ano), Tupy (5,21%), Light (5,34%) e Totvs (4,43%), além da citada Embraer. As TIRs de cinco anos na carteira do BNDES são maiores, em boa parte da amostra, em relação às taxas de retorno de dez anos. Esse fenômeno se justifica, segundo analistas, porque a carteira de partida do BNDES em cinco anos considera uma bolsa “depreciada”, enquanto a TIR em dez anos partiria de uma bolsa mais alta, então as ações se valorizaram sobre uma base maior. A TIR da Petrobras em dez anos, por exemplo, foi de 1,90% ao ano (ver tabela ao lado).

Eliane Lustosa, diretora da área de privatizações do BNDES, diz que o banco está pronto para avançar em uma política de venda de ativos de renda variável. “O processo de venda [de ativos em bolsa] vem acontecendo e, em momento em que há uma valorização de mercado, existe uma boa oportunidade para acelerar essa desmobilização em renda variável”, disse Eliane ao Valor.

Estratégia a ser seguida vai ser discutida pela diretoria do banco com o conselho de administração Não há, porém, prazos fixados. A estratégia a ser seguida vai ser discutida pela diretoria do banco com o conselho de administração. Ambas as instâncias de decisão vão passar por mudanças. Segundo Eliane, o objetivo é pactuar com o novo conselho como se dará a venda e a velocidade desse processo. A ideia é que as ações que estão “maduras” na carteira e têm liquidez sejam vendidas desde que haja boas oportunidades no mercado.

“A partir do momento em que existe a percepção de que o valor da empresa no mercado está condizente com a expectativa de valorização é o momento de vender se a empresa tiver liquidez. Se não tiver, é o caso de buscá-la”, disse Eliane. Nesse esforço, o BNDES pode contratar um banco para ajudá-lo. A contratação de bancos pode servir, inclusive, para fazer a venda de blocos relevantes de ações. Esse processo foi pactuado pelo banco com os órgãos de controle e, atualmente, o BNDES possui um ranking de instituições credenciadas que podem ser chamadas, em concorrência, para prestar serviço na venda de um ativo. Existem participações relevantes na carteira mapeadas e que podem ser vendidas por meio de bancos contratados.

“Não existe na carteira [do BNDES] nenhuma ação que seja estratégica”, disse Eliane. Ela está no banco desde 2016, quando chegou para ocupar a diretoria da área de investimentos na gestão da ex-presidente Maria Silvia Bastos Marques. É hoje a “decana” da diretoria, mas deve deixar o cargo por decisão pessoal para dedicar-se a um período sabático.

Nos três anos em que conduziu a área de investimentos do BNDES, Eliane ajudou a formular uma política escrita para investir, acompanhar e desinvestir na carteira de ações. A política deixa claro que ter participação em ativos maduros não faz mais sentido para o BNDES. A questão é como se desafazer de uma carteira tão grande em ações sem provocar estragos nas cotações das empresas na bolsa. Um caminho para evitar esse problema é o que o banco vem trilhando, fazendo vendas por lotes, em bolsa, via corretoras, ao longo do tempo, como vem  ocorrendo com Petrobras e Vale. A venda para um sócio estratégico pode ser também um caminho para ativos em que o banco tem participação relevante. Um exemplo desse tipo de processo foi a operação Fibria – Suzano, na qual o banco embolsou mais de R$ 8 bilhões.

 

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