O novo normal já é realidade

Valor Econômico
18/06/2020

Por Viviane Martins

Sobre a transformação digital, percorremos em meses o avanço que levaríamos anos para alcançar

Apesar de ainda estarmos vivendo a pandemia, o grande debate neste momento é como será o comportamento da sociedade quando o coronavírus for controlado. Como serão as relações sociais, os hábitos, a economia. A realidade é que para parte destes setores o “novo normal” já chegou. A crise mudou comportamento dos clientes, além das rotinas das empresas, que se viram diante da necessidade de adequar-se ao trabalho remoto e de atender às novas necessidades de seus clientes.

As empresas que perceberem com mais celeridade as mudanças que já se impõem e estiverem dispostas a integrar gestão e tecnologia, aprofundando os conceitos do digital, da inovação e da criação aos seus negócios, se tornarão protagonistas do novo contexto socioeconômico.

Sobre a transformação digital, percorremos em meses o avanço que levaríamos anos para alcançar. Estamos quebrando tabus, como aqueles que nos prendiam aos escritórios e às reuniões presenciais. Quem ainda não se adaptou, trate de se acostumar

Neste “novo normal”, o trabalho e o consumo serão pautados pelo uso cada vez mais intenso da tecnologia, do e-commerce, do trabalho remoto e do aprendizado à distância e assíncrono. Essa tendência foi verificada em recente pesquisa da Falconi sobre os impactos da covid-19 nas empresas brasileiras. O estudo da consultoria de gestão com 408 companhias apontou que 78% delas aceleraram o processo de transformação digital, adaptando a organização de equipes e mudando seus modelos de negócio, principalmente a forma como ofertam produtos e serviços.

Esse esforço foi ainda mais relevante para 29% das organizações entrevistadas, que revelaram a aposta na mudança do mix de canais e até mesmo em novos produtos e serviços para uma adaptação rápida à mudança de comportamento dos compradores.

Na gestão de pessoas, o novo modelo irá permitir o acompanhamento de padrões de produtividade das equipes e a velocidade de aprendizado na capacitação dos indivíduos. Estes dados poderão ser usados para resolver, com mais precisão, problemas que envolvem os times. Se o propósito for aumentar a produtividade dos colaboradores, a gestão integrada com tecnologia permitirá a redefinição rápida dos papéis de cada membro da equipe, considerando informações como a agilidade na execução das tarefas e competência de cada um no desempenho dentro de um time.

Já na gestão da empresa, a integração com a tecnologia ajuda a eliminar desperdícios, bem como reduzir gastos por meio de uma alocação mais inteligente dos recursos da empresa. Isso poderá ser feito a partir do uso de bases de dados sobre o conteúdo do trabalho remoto de cada colaborador, associado ao entendimento das preferências dos clientes.

Por outro lado, neste processo de intensificação do uso do digital para compras e rotinas de trabalho, é natural que cidadãos, incluindo os colaboradores da empresa, cobrem uma postura ainda mais transparente de companhias e marcas sobre o uso de seus dados. É imprescindível que haja investimento em cyber-segurança e na adequação às novas regras da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), cuja data de início ainda está em discussão. As empresas e suas lideranças devem se comprometer com a proteção aos dados, evitando a ocorrência de fraudes que podem gerar perdas relevantes.

Outra tendência – não tão ligada ao digital como as mencionadas anteriormente – traduz esta nova era iniciada pela crise da covid-19. O engajamento com a sociedade é imperativo. Não há mais espaço para empresas e marcas sem propósito. Novamente, pesquisa sobre percepções a respeito do coronavírus realizada pela Falconi antecipou que as companhias enxergam a responsabilidade social como uma demanda da sociedade.

Não poderia ser diferente em um momento como esse. Cerca de 59% das empresas já executaram algum tipo de ação em prol da sociedade. A maioria busca ajudar com seus ativos, ou seja, oferecendo serviços de maneira gratuita, por exemplo.

Nesta crise do coronavírus as doações na casa de milhões de reais viraram rotina, com o foco na área da saúde, mas não só. Há iniciativas que dirigem recursos para necessidades imediatas não diretamente relacionadas ao vírus, como cestas básicas, ou para financiamento a pequenos empreendedores, com empréstimos a juro quase zero. Não para por aí. O saneamento básico começa a aparecer com mais espaço em discussões dentro das empresas, pois enfim notou-se que o país continua atrasado nesta área essencial para a saúde do cidadão.

A inciativa privada pode mais e já percebeu isso. Pode, sim, colaborar com o poder público de maneira mais assertiva e proativa. Essa junção de forças só traz benefícios. Da mesma maneira que as empresas entenderam que precisam agir para o bem da sociedade, o poder público também notou que necessita de ajuda. Não apenas no discurso, que sempre foi aberto a essa ideia, mas agora na prática.

Estamos exatamente em um momento-chave sob o olhar econômico. Governos estaduais e municipais anunciam o retorno gradual de atividades empresariais. Para estarem aptos a reabrir as portas, diferentes setores terão de seguir regras rígidas. Na cidade de São Paulo, por exemplo, comércio de rua e shoppings centers devem preparar planos com regras de distanciamento social, sanitização de ambientes, testagem de colaboradores, horários alternativos de funcionamento, sistema de agendamento de atendimento e alternativas às mães que trabalham e não terão onde deixar seus filhos, já que escolas e creches vão permanecer fechadas.

Não é tarefa simples. Mas é uma onda neste oceano de desafios à vista. E nesta onda a tecnologia e o engajamento com a sociedade estão presentes. Dois fatores que precisarão ser observados em conjunto para que a retomada do trabalho em maior escala seja possível.

Aliás, os grandes desafios, como estes que a covid-19 impôs ao mundo, são sempre sucedidos de grande crescimento. No que diz respeito à transformação digital, podemos arriscar dizer que percorremos em meses o avanço que levaríamos anos para alcançar. Estamos superando obstáculos e quebrando tabus, como aqueles que nos prendiam aos escritórios e às reuniões presenciais. Quem ainda não se adaptou, trate de se acostumar. O “novo normal” chegou para ficar.

Viviane Martins é presidente da Falconi Consultores de Resultados.

 

 

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