Mudanças estruturais beneficiam a bolsa

Valor Econômico
14/01/2019

Por Ana Carolina Neira e Marcelle Gutierrez

Juro baixo e reformas sustentam otimismo para ações

Uma onda mundial de juros mais baixos, um cenário global de menor aceleração econômica e bolsas operando em máximas históricas são fatores que ajudaram a levar o mercado de renda variável brasileiro a um novo patamar. Ainda que negociada a um preço histórico acima da média, este pode ser o novo “normal” para a bolsa brasileira, na avaliação de especialistas.

Desde 2009, quando a bolsa bateu seu recorde de retorno anual, ao subir 82,7%, uma série de outros números também sofreram mudanças significativas, culminando no avanço de 31,58% visto no ano passado. O país passou por uma profunda crise econômica, a Selic foi de 8,75% aos atuais 4,5% – atingindo o pico de 14,25% entre meados de 2015 e 2016 – e um grande esforço de controle fiscal tem sido promovido nos últimos anos.

 Ainda que negociada a um preço histórico acima da média, este pode ser o ‘novo normal’ para a bolsa

O resultado disso é um cenário econômico mais estável, com uma recuperação econômica que ainda caminha de forma bastante gradual, mas capaz de sustentar as apostas para o mercado de renda variável. Segundo o diretor de investimentos da Western Asset, Paulo Clini, o Ibovespa é hoje negociado a 13,8 vezes o lucro projetado para 12 meses, acima de sua média histórica de 12,6 vezes. Ainda assim, esse indicador é aceitável de acordo com o cenário atual da economia. “Se você olhar, a maioria das bolsas no mundo agora está negociando a um certo prêmio em relação à média histórica, aqui é igual. O investidor aceita pagar um pouco mais caro por bolsa porque está tendo retornos menores na renda fixa”, diz.

Para ele, ainda que a denominação “acima da média histórica” possa parecer alarmante para alguns investidores, a expansão dos múltiplos é justificada. “Não olhamos somente para isso, mas especialmente por causa da queda da taxa de juros existe espaço para expansão adicional”, diz.

Clini acredita que o Ibovespa possa chegar a ser negociado em uma relação de 14 ou 14,5 vezes o preço/lucro, impulsionado não apenas pelo contexto de juros mais baixos que geram maior fluxo para o mercado de ações, mas também pelas perspectivas de aceleração econômica combinadas às expectativas de crescimento de lucro das empresas.

O estrategista para mercados emergentes do UBS, Ronaldo Patah, compartilha da mesma avaliação. Após um período em que a bolsa foi bastante afetada pelo difícil momento econômico (entre 2010 e 2015, o Ibovespa foi do patamar dos 69 mil pontos para o dos 43 mil pontos), ele vê como esperada essa reprecificação dos ativos. “Quando analisamos o mercado pela relação preço/lucro sabemos que há grande relação com a previsão dos lucros para as empresas, que por sua vez está relacionada às projeções do PIB. Se considerarmos que podemos crescer acima de 2% nos próximos dois anos, as empresas da bolsa verão esse reflexo. Logo, a bolsa não está cara.”

Patah ressalta o fato de que o mercado de ações brasileiro vem acumulando altas nos últimos anos. Para ele, caso a política econômica atual prove-se acertada, ela tende a ser continuada pelos anos seguintes, independentemente de quem assumirá a Presidência em 2023. Assim, somados os últimos anos já positivos e os períodos seguintes, com as projeções para o Ibovespa muito otimistas, o Brasil poderá viver uma década de avanço na bolsa.

“Caso o país cresça por dez anos consecutivos, a relação de múltiplo preço/lucro da bolsa tende a atingir um novo patamar”, diz Patah. O cenário hoje parece caminhar nessa direção, afirma, o que significa que pode haver espaço para o Ibovespa buscar uma relação preço/lucro de até 15 vezes ainda em 2020.

Para os especialistas, esse novo caminho é possível porque, desta vez, há mudanças estruturais dando suporte para ganhos adicionais no médio prazo. A reforma da Previdência e a taxa Selic no menor patamar histórico são as mudanças mais importantes para fazer a bolsa brasileira andar até aqui e vislumbrar novos avanços.

 “Além das mudanças estruturais inegáveis, as pessoas precisarão ter mais poupança para o mesmo rendimento esperado na aposentadoria. Além disso, precisarão diversificar os investimentos para fora da renda fixa, principalmente em ações”, diz Marcelo Audi, sócio e gestor da Cardinal Partners. Segundo Audi, esse é um “ciclo inédito” na história contemporânea do país, que equivale ao observado em outras economias do mundo, como o Chile na década de 1990 e Reino Unido e EUA a partir dos anos 80. “É o que a história econômica do mundo ocidental mostra e vai acontecer no Brasil. A cada dia que passa, fica mais claro que é essa a direção para onde a gente está indo.”

Em 2009 e 2010, por exemplo, quando o Ibovespa registrou valorização de 82,7% e 1,04%, respectivamente, o cenário era bem diferente, afirma André Pimentel, diretor de investimentos da gestora Infinity Asset Management. Isso porque, à época, o crescimento econômico era baseado, em grande medida, em estímulos fiscais. “Naquela época, o crescimento resultou de exageros, com estímulos fiscais. Agora, a gente vê o governo com gastos cada vez menores e a recuperação [da economia] sendo tocada de uma maneira mais consistente e rentável”, diz.

Ainda em 2009, o PIB caiu 0,2% ante uma alta de 5,1% em 2008. No ano seguinte, houve avanço de 7,5%. O ano de 2010 foi o último dos dois mandatos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Na avaliação de Daniel Gewehr, estrategista-chefe de ações para Brasil e América Latina do Santander, as mudanças promovidas pela atual agenda econômica – incluindo intensa queda da taxa básica de juros e a agenda de reformas – garantiram a redefinição do mercado de ações brasileiro. “Esse nível de Selic não serve apenas para estimular a economia, mas gera um fluxo adicional importante para a renda variável, tanto por parte dos investidores institucionais quanto da pessoa física”, afirma.

Segundo o estrategista, a taxa de juros menor num ambiente de inflação ancorada e o ajuste fiscal promovido pela atual equipe econômica justificam a expectativa de que o Ibovespa supere os 118 mil pontos. “Diria que os dois pontos principais quando olhamos para a bolsa nos últimos dez anos são, no curto prazo, os efeitos da política monetária e, pensando no longo prazo, o ajuste fiscal resultado das reformas”, explica o estrategista, citando a reforma da Previdência como a maior responsável por dar mais segurança aos agentes, que conseguem ter mais previsibilidade e perspectiva de que o Brasil crescerá de maneira sustentável.

“Se olharmos o índice, as ações ligadas ao ciclo doméstico estão ganhando cada vez mais peso. Com uma economia que cresce, esses ativos avançam junto e empurram o índice como um todo. É isso o que deve acontecer nos próximos anos”, afirma, prevendo um futuro em que o Ibovespa continuará tendo papéis ligados às commodities exercendo certo peso, porém de maneira mais equilibrada e competitiva com os ativos ligados à economia doméstica. “Lá em 2009 ou 2010, o índice era muito formado por essas ações ligadas às commodities, que apresentam maior risco e relação com o exterior. Agora, temos uma bolsa bem mais doméstica, que caminha com a economia brasileira.”

 Para Audi, da Cardinal Partners, o ciclo positivo visto na bolsa brasileira em 2019 está apenas no começo, já que a alocação em ações dos fundos de investimentos domésticos atualmente é de 13% no Brasil, ainda extremamente baixa na comparação com os anos anteriores. Por exemplo, entre 2000 e 2005, a taxa Selic estava entre 15% a 20% e a alocação em ações foi de 11%. O gestor usou dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais (Anbima). “Essa grande alocação estrutural ainda não aconteceu e vai ganhar proporção no ano que vem, porque as pessoas vão despertar para essa nova realidade.”

Além da baixa da taxa de juros e as mudanças na Previdência, Audi acredita que a consolidação econômica levará a uma alta ainda superior dos investimentos no mercado acionário e também da busca das empresas pela captação de recursos nesse mercado. “O aumento de IPOs [ofertas iniciais de ações] e follow on [ofertas subsequentes] já está acontecendo. As empresas estão deixando de emitir bônus internacionais, por exemplo, para captar no local.”

De forma geral, Audi diz acreditar que o investidor terá que “mudar sua mentalidade” em três direções: diversificar além da renda fixa, pensar no longo prazo e se acostumar com a volatilidade.

 

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