Mercado vê Selic estável por mais tempo

Valor Econômico
07/02/2020

Por Victor Rezende e Lucas Hirata

Investidor reverte aposta em corte da Selic, mas vê espaço para manutenção prolongada

A clara mensagem passada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central de que o ciclo de flexibilização chegou ao fim foi incorporada rapidamente no mercado de juros ontem. Logo no início do pregão, as taxas futuras dispararam em reação ao comunicado mais há 3 horas duro da autoridade monetária, num movimento que reverte as apostas mais ousadas de parte dos investidores em novos cortes da Selic.

Na quarta-feira à noite, o colegiado reduziu a taxa básica de juros, de 4,5% para 4,25% anuais, mas afirmou que vê como adequada a interrupção do processo de flexibilização monetária. Bancos que viam um corte adicional em 2020, como Itaú Unibanco, Santander, Bank of America (BofA), Safra e ASA Bank, acataram a mensagem e agora veem estabilidade da taxa até o fim do ano.

Muitos analistas veem na postura do Copom a intenção de prolongar os efeitos dos juros baixos na economia, mesmo que isso signifique abrir mão de uma nova rodada de estímulo monetário. No mercado de juros na B3, isso se refletiu em forte alta em taxas de curto prazo e um movimento menos acentuado em vencimentos mais longos. A taxa do contrato de DI para janeiro de 2022 subiu de 4,92% para 5,02%, enquanto a do DI para janeiro de 2027 saiu de 6,41% para 6,49%.

Com isso, as instituições financeiras esperam, agora, que a taxa Selic permaneça em níveis baixos por um período ainda maior. “Ao mesmo tempo em que a barra para cortes adicionais está mais alta, o nível de exigência para uma reversão da acomodação da política monetária (…) também está”, afirma a equipe de estratégia do Morgan Stanley, que vê um excesso de prêmio de risco nos juros futuros.

A leitura de juros baixos por ainda mais tempo também é reforçada por preocupações derivadas da disseminação do coronavírus, que fizeram com que economistas de grandes bancos revisassem para baixo suas projeções de crescimento econômico e de inflação.

Para Carlos Kawall, diretor do ASA Bank, os sinais de uma retomada mais lenta da atividade, aliados a um cenário de inflação controlada, devem empurrar a primeira alta de juros para o terceiro trimestre de 2021, num processo que culminará em taxa de 5% no fim do ano e de 6% em 2022. “Nós havíamos reduzido a projeção de crescimento do PIB do Brasil, de 2,2% para 2%, por causa do efeito do coronavírus na economia chinesa. Além disso, já estávamos vendo com mais cautela os indicadores de atividade por aqui”, afirma.

Leitura semelhante é traçada no J.P. Morgan, que revisou o PIB do Brasil de 2% para 1,9% em 2020 e a inflação de 3,7% para 3,4%. Os analistas do banco veem o surto de coronavírus como um choque temporário, mas um crescimento mais fraco na China “provavelmente terá repercussões no Brasil”. “Menor crescimento e inflação devem permitir que o Banco Central mantenha as taxas baixas por mais tempo – agora vemos a primeira elevação de 0,25 ponto percentual apenas em dezembro de 2020”, dizem.

Para parte dos analistas, o principal risco para o cenário base do Copom é ver uma nova frustração com a recuperação econômica, o que poderia levar o colegiado a novos cortes da Selic. “É necessário observar os efeitos do coronavírus sobre atividade e inflação globais. Caso o impacto seja mais negativo para a atividade do que o previsto e mais deflacionário, o Banco Central pode ser obrigado pelo balanço de riscos a cortar novamente”, afirma Tomás Goulart, economista-chefe da Novus Capital. “Por outro lado, ao usar as defasagens da política monetária, o BC se coloca em um ponto em que não vê necessidade de alterar nada em termos de política monetária por, pelo menos, seis meses”, acrescenta.

Vale dizer que, para tomar suas decisões, o Copom costuma averiguar os efeitos de prazos mais duradouros – não os de curtíssimo prazo – das surpresas que aparecem no cenário. Além disso, o colegiado tem comentado que existem incertezas em relação a uma nova potência da política monetária, as transformações no mercado de crédito e o ritmo de fechamento do hiato do produto – diferença entre PIB e seu potencial.

Nem todas as casas, porém, acreditam na manutenção do juro a 4,25% por um período longo. O diretor de investimentos da Persevera Asset Management, Guilherme Abbud, reforça a possibilidade de a Selic ir a 3%, ao projetar a inflação em níveis ainda mais baixos e um cenário de decepção dos agentes financeiros com o ritmo de crescimento econômico. Assim, a gestora acredita que a interrupção no ciclo de cortes deve ser temporária. “Se voltarmos no tempo, não seria algo muito diferente do que aconteceu outras vezes”, afirma Abbud.

 

 

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