Juro baixo dá fôlego adicional para a bolsa

Aumento da aversão a risco no exterior limita ganhos no mercado de ações local

Por Juliana Machado — De São Paulo
01/10/2019 05h00

O efeito do juro básico em níveis cada vez mais baixos já é sentido pela bolsa de valores e deve continuar guiando a valorização das ações, com a busca dos investidores locais por mais retorno. O recente corte da taxa Selic, para 5,5% ao ano, e os indicativos de mais reduções pela frente só não fizeram o Ibovespa andar mais por causa do aumento da aversão ao risco no exterior, que continua limitando a entrada de recursos estrangeiros.

Só neste ano, o Ibovespa, principal referência de bolsa, já subiu mais de 19% e aproxima-se dos 105 mil pontos. A leitura é de que há espaço para o índice chegar aos 120 mil pontos no fim do ano – retorno potencial de 14%. A valorização deve ser puxada principalmente por papéis de empresas que se beneficiam do ciclo de retomada da economia local.

Com a situação inédita de juro estruturalmente reduzido no Brasil e empresas com alta capacidade produtiva e baixo endividamento, há um potencial de geração de lucros que ainda não foi totalmente incorporado aos preços das ações. Conforme cálculos da Mauá Capital, nos atuais patamares, o Ibovespa é negociado a 12 vezes o lucro projetado para as ações da carteira em 12 meses, em linha com a média histórica. Entre 2016 e 2018, essa relação entre preço e lucro (P/L, que dá ideia do tempo de retorno do investimento) pouco oscilou: ficou entre 12 vezes e 14 vezes.

Múltiplos são indicadores que permitem avaliar se um ativo está caro ou barato diante das estimativas de geração de lucro no futuro. A última vez, numa série histórica desde 2008, que o índice P/L do Ibovespa chegou ao teto de 14 vezes foi em meados de 2015, antes, portanto, do início do rito de impeachment da então presidente Dilma Rousseff.

Houve uma disparada de preços na bolsa naquele momento, por conta das perspectivas de substituição do governo por um mais alinhado ao mercado. Só que as estimativas para os lucros das empresas ainda sofriam o impacto da crise econômica do país. E a Selic estava bem mais alta, em 14,25%. Ou seja, o índice P/L subiu porque houve uma valorização pontual dos preços das ações, sem uma melhora dos fundamentos das companhias e da economia do país.

Desta vez, se o Ibovespa for para o nível de 120 mil pontos até o fim do ano, conforme a previsão de boa parte das corretoras e bancos de investimento, o P/L do índice retomaria o nível de 14 vezes. Mas, agora, esse múltiplo seria resultado da valorização dos preços das ações diante da melhora das estimativas de lucro das empresas. Com o juro básico podendo cair abaixo dos 5%, o investidor tende a aceitar pagar mais caro para carregar o investimento.

“Qualquer movimento de valorização é justificado quando pensamos em perspectiva de médio e longo prazo. Ainda vemos um potencial de crescimento de lucro grande das companhias, porque falta o componente da atividade se recuperar e um pequeno impulso nessa frente terá grande relevância”, afirma Pedro Chermont, diretor de investimentos da Leblon Equities. “O P/L ainda está retraído se considerarmos o juro estruturalmente baixo e as perspectivas de expansão das empresas, hoje de maior qualidade. É um cenário que justifica, portanto, aumento tanto de preços, quanto dos lucros.”

Ainda segundo a Leblon Equities, considerando números de 2018, os lucros de 122 empresas do universo de cobertura da casa ainda precisam crescer 73% para atingir os níveis de 2010, se considerado o ajuste da inflação no período. Os dados não levam em conta empresas do setor de commodities e bancos.

O que especialistas observam, entretanto, é que essa recuperação dos preços não acontecerá de maneira uniforme, uma vez que muitas ações já incorporaram a perspectiva de melhora da atividade e também a queda do juro básico. A pedido do Valor, a gestora realizou um estudo de dispersão em que identificou qual o tamanho do desvio de cada ação do Ibovespa em relação ao seu P/L, historicamente. Nessa análise, fica visível que há papéis de setores ligados à economia doméstica que estão acima da média dos últimos cinco anos. No entanto, considerando o todo, a maior parte dos ativos – e o próprio Ibovespa – de fato ainda pode andar um pouco mais.

“O múltiplo nos dá uma fotografia do quanto vale uma empresa e isso é muito sensível à taxa de juros. Quando cai o juro, o valor das empresas muda. Você traz o fluxo de caixa da companhia a valor presente e, quanto menor o juro, menor o custo da empresa no tempo”, afirma Henrique Bredda, gestor da Alaska. “Em linhas gerais, se olharmos os últimos dez anos, o múltiplo está no mesmo lugar, mas o custo de capital das empresas é estruturalmente mais baixo hoje.”

Nas contas de Vicente Matheus Zuffo, diretor de investimentos da SRM Asset, o Ibovespa já teria subido cerca de 35% se fossem retirados da conta Petrobras, Vale, bancos e o setor de papel e celulose – justamente aqueles que tiveram uma contribuição negativa e que capturaram a piora da percepção de risco no exterior ao longo do ano. Em outras palavras, se o Ibovespa fosse composto apenas pelos papéis ligados ao ambiente local, ele já teria atingido o fatídico patamar dos 120 mil pontos.

Levantamento recente do Credit Suisse mostra que, entre todos os setores da bolsa de valores, apenas três registram perdas no ano até agora, todos ligados a commodities ou ao comércio global: minério (-5,5%), indústria (-11,8%) e papel e celulose (-13,4%). Os demais avançam no intervalo, com destaque para energia e saneamento (46,1%), transportes (44%), consumo (12,8%) e construção (23,2%).

 

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