Indústria sobe 8% em julho e expectativa é de agosto forte

Valor Econômico
04/09/2020

Por Ana Conceição e Bruno Villas Bôas

Retomada é rápida, mas há incertezas quanto ao ritmo do resto do ano

A produção da indústria brasileira aumentou 8% em julho sobre junho, com ajuste sazonal, uma alta acima do esperado, de 6%. Economistas consideraram o número uma boa surpresa, após o choque inicial da pandemia. No total, 25 das 26 atividades acompanhadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) cresceram, com destaque para o avanço de automóveis, metalúrgica e extrativa. O volume de produção total continua, porém, 6% abaixo de fevereiro, antes da covid-19. Em 12 meses, a queda é de 5,7%.

Em agosto, a produção deve continuar a crescer, embora em ritmo menor. Analistas estimam avanço entre 4% e 6%. Os primeiros dados de atividade do mês são positivos (ver abaixo), mas, passada a recuperação das perdas de abril, os analistas veem incertezas pela frente.

Na indústria, a forte alta de julho veio depois de ganhos também expressivos em maio (8,7%) e junho (9,7%). “Foi uma bela surpresa”, afirmou o economista Rodrigo Nishida, da LCA Consultores. A sua projeção preliminar para agosto é de avanço de 5,4%. A retomada do setor se assemelha a um “V”, diz ele. “A progressiva flexibilização das medidas de distanciamento social e a melhora da demanda por produtos industriais, na esteira das medidas de auxílio governamental, já fazem com que muitos segmentos operem acima do mesmo período do ano passado.”

Andressa Guerrero, economista da Tendências Consultoria, vê uma dinâmica mais positiva no setor. “O resultado surpreendeu. Na margem, o índice de difusão foi altíssimo”, diz, referindo-se à alta na maioria das atividades industriais em relação ao mês imediatamente anterior. A única exceção foi impressão e gravações.

Ela observa que não apenas setores que vinham bem na pandemia, como alimentos e limpeza, continuaram a subir, mas outros, que estavam bem atrás, passaram a crescer. É o caso das bebidas. “Essa produção caiu no auge do isolamento social por causa do fechamento de bares e restaurantes, e agora cresceu 16% [sobre julho de 2019] com a reabertura dos estabelecimentos”. Outras atividades que produziram mais que no ano passado foram, por exemplo, informática e eletrônicos (9,1%), móveis (5,4%) e produtos farmacêuticos (0,6%).

A Guide Investimentos chama atenção para o aumento de 42% na produção de bens duráveis em julho sobre junho. Na comparação com o ano passado, essa categoria ainda mostra queda de 16,9%, mas alguns segmentos registraram altas expressivas sobre julho de 2019. São os casos da linha branca (geladeiras, fogões e máquinas de lavar), com expansão de 28,7%, e linha marrom (TV e som), com 27,3%, motocicletas (6,6%), móveis (5,7%) e outros eletrodomésticos (2,6%)

A respeito dos duráveis, Flávio Serrano, economista-chefe do banco chinês Haitong, diz que a produção responde ao aumento das vendas num cenário em que as transferências do governo conseguiram, no agregado, sustentar a renda da população. “Uma parte do consumo que saiu dos serviços foi deslocada para esses bens. Os juros baixos ajudaram.” Serrano estima que em agosto a produção industrial cresça pelo menos 4%, a julgar pelos números de vendas de veículos da Fenabrave, que representa as concessionárias.

Em nota, economistas da Guide dizem que o resultado alimenta as expectativas de a atividade econômica voltar à dinâmica anterior à covid-19. “Indicadores de alta frequência, como cobrança de imposto sobre vendas estadual, vendas de cartão de crédito e mobilidade também apontam nessa direção.”

Mais à frente, o desempenho da economia e da indústria é incerto. Uma das dúvidas é sobre como o brasileiro vai se comportar com uma parcela menor do auxílio emergencial, diz Serrano, do Haitong, lembrando que há indícios de que as famílias pouparam parte dos recursos à espera de saber quanto dura a crise. “Se houver a percepção de que o pior passou, os gastos das famílias podem aumentar”, afirma ele. Mas ele não espera uma queda abrupta do consumo de bens. Já os serviços devem continuar a depender do fim das restrições à mobilidade.

Nishida, da LCA, diz que o passivo fiscal deixado pelo combate à crise, em um contexto em que as contas públicas já estavam fragilizadas, mais as incertezas em relação às reformas estruturais, devem pesar no ritmo da atividade num período mais longo. “No ano que vem boa parte dos auxílios será retirada ou reduzida, o que gera dúvidas sobre a sustentação da retomada. Além disso, a evolução da pandemia segue sem solução definitiva e o número de casos e óbitos continua em patamar elevado.”

Para o gerente da Coordenação da Indústria do IBGE, André Macedo, a atividade vai depender do emprego. “Um contingente grande de pessoas está fora do mercado de trabalho, e isso é importante para o comportamento da demanda doméstica. O aumento da massa de rendimento atrairia melhora de consumo e produção industrial”.

 

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