Ibovespa busca composição de carteira mais diversificada

Valor Econômico
21/01/2020        

Por Ana Carolina Neira

Índice mostra peso maior de setores ligados ao consumo

Desde o início deste mês, o Ibovespa opera com 73 ativos, representativos de 70 empresas, algo inédito. Além de um número maior de ações, o Ibovespa conta agora com um peso maior dos setores ligados ao consumo doméstico, com destaque para saúde e varejo. Para analistas, há 3 horas esse quadro representa um índice mais “saudável e equilibrado”, menos dependente de ações ligadas a commodities e com potencial de ganhos no longo prazo.

Um exemplo desse movimento são as empresas que entraram no índice a partir do ano passado, como Azul, IRB Brasil, SulAmérica, Hapvida, Cia Hering e Carrefour Brasil, diluindo a participação de empresas tradicionais como Vale e Itaú, que há anos exercem maior peso no índice.

“As companhias mais ligadas a commodities, como Petrobras e Vale, continuam tendo papel extremamente relevante no índice, mas, de fato, vão perdendo espaço aos poucos. Caminhamos para que o Ibovespa passe a refletir mais o PIB brasileiro”, diz Enrico Cozzolino, analista de investimentos do banco Daycoval. Ele cita um comentário recorrente no mercado, de que o Produto Interno Bruto (PIB) não está refletido na bolsa. Setores ligados a commodities têm peso grande no índice, enquanto empresas de varejo, serviços e tecnologia têm participação mais reduzida, o que não espelha diretamente as características da economia do país. De todo modo, o que se percebe é uma mudança gradativa dessa composição do índice, o que é provocado pela demanda de investidores pelas ações mais ligadas à economica local.

Hoje, o setor que tem maior peso no Ibovespa é o financeiro (que inclui os bancos e empresas como Cielo e B3), com 36% da carteira teórica. Esse segmento viu sua participação crescer nos últimos dez anos – em janeiro de 2010, sua fatia era de 19%. Outro importante setor é o de petróleo, gás e biocombustíveis, com peso de 14% (com destaque para a Petrobras). Essa fatia já foi maior: há dez anos, respondia por 18% do índice.

Empresas do setor de materiais básicos, onde está a Vale, têm peso de 13% (sendo (8,604% da Vale). Esses ativos acabam sendo mais sensíveis ao noticiário internacional e às oscilações de preços das commodities, o que faz com que nem sempre caminhem na mesma direção da economia doméstica. Isso explica o fato de, em muitos momentos, a bolsa ter operado em alta expressiva impulsionada por esses papéis mesmo com um quadro econômico local não tão positivo.

Há dez anos, por exemplo, o setor de materiais básicos tinha 32% do Ibovespa. Em janeiro de 2000, tinha apenas 7% do índice.

Olhando mais para o passado, em 1968, as cinco maiores participações do índice concentravam 37,2% do total, com foco nas empresas de commodities e indústria de base. Já na década de 90, as empresas de telecomunicações eram o forte do índice, com a Telebras representando mais da metade dele.

“O Ibovespa passa por uma mudança clara de perfil e a chegada de mais companhias domésticas é algo positivo, mas não podemos pensar que essa proporção precisa ser invertida. Afinal, com as ações ligadas ao cenário interno fazendo mais peso, qualquer reviravolta deixaria o índice mais afetado”, avalia Ricardo Peretti, estrategista da Santander Corretora. A melhor forma de proteger o Ibovespa e a rentabilidade dos investidores, segundo ele, seria atingir um equilíbrio entre empresas mais ligadas às exportações e aquelas que respondem ao ciclo doméstico. Esse cenário, no entanto, ainda está distante e a melhora é gradual.

“O Ibovespa ainda não representa o PIB, mas a situação melhora aos poucos e vai tornando a carteira melhor”, diz Peretti. Ele aponta os setores de educação e tecnologia como aqueles que mais carecem de representatividade, enquanto a área da saúde vai ganhando espaço e os bancos seguem dominando espaço significativo. É importante lembrar que o Ibovespa ganhou sua primeira empresa de tecnologia neste ano, com a chegada da Totvs ao índice.

Daqui em diante, Cozzolino, do Daycoval, diz acreditar que as ações mais ligadas ao ciclo doméstico deverão continuar com oportunidade de entrada no Ibovespa, enquanto aquelas que já fazem parte do índice devem apresentar desempenho ainda melhor. Ele destaca os setores de educação, vestuário e saúde como suas preferências.

Para entrar no Ibovespa, é preciso que um papel seja negociado com regularidade, tendo presença em pelo menos 95% dos pregões do último ano, e apresente volume financeiro relevante no mesmo período (acima de 0,1% do volume total negociado). Aquelas que estiverem enquadradas nesses pré-requisitos são ordenadas em um índice de negociabilidade, que considera tanto a quantidade de negociações realizadas quanto o volume financeiro gerado. Companhias em recuperação judicial ou com ações negociadas a menos de R$ 1 (média) não podem entrar nem permanecer na carteira.

Para Marcelo Audi, sócio e gestor da Cardinal Partners, commodities e bancos acabaram perdendo o poder de ancorar o índice como ocorria até poucos anos atrás, o que representa importante reestruturação. “Quando falamos de empresas de consumo, por exemplo, elas possuem estratégias de crescimento mais agressivas e, conforme a economia se recupera, terão necessidade de acessar mais o mercado de capitais, então são candidatas naturais a adentrar o Ibovespa algum tempo depois.”

A previsão de PIB crescendo acima de 2% neste ano, juros nas mínimas históricas e inflação controlada dão suporte à expectativa de aumento de lucro das empresas, com reflexo direto no Ibovespa.

Audi destaca o setor de consumo como aquele com maior potencial para ocupar cada vez mais espaço dentro do Ibovespa. Formado por empresas como Cia Hering, Via Varejo, Magazine Luiza, Lojas Americanas e Lojas Renner, esse setor representa 10% da carteira teórica neste início de ano. É a maior participação desde janeiro de 2014, quando era 9% do total. Dez anos antes, essas empresas detinham apenas 2% do Ibovespa, atingindo seu pico em meados de 2012, quando chegaram aos 15%.

“O varejo é um dos principais componentes do PIB brasileiro, então essas empresas têm potencial de crescimento e também aumentar sua participação no Ibovespa. A realocação recente ainda está muito longe de ser super fiel ao PIB, mas vai em uma direção mais próxima”, diz o gestor. “O setor de consumo é o que passa por maior transformação e consolidação recente, enquanto o ciclo das commodities piorou”, afirma Audi.

Em nota, a B3 informa que a entrada de empresas no índice, assim como o movimento de determinados setores, são decorrência do movimento de mercado, e não existe uma atuação específica da bolsa de valores para a atração de mais ativos, empresas ou setores para o índice.

 

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