Dívida local deve ganhar atratividade

Por Daniela Meibak – Valor Econômico

30/01/2019 – 05:00

A redução da posição do investidor estrangeiro no financiamento da dívida pública brasileira e as perspectivas positivas do país diante das promessas de reforma indicam potencial grande de alocação de recursos globais no Brasil nos próximos meses. O cenário já colocou o país na frente dos pares emergentes nas preferências, mas para que o fluxo de capitais comece a entrar aqui a exigência é alta: a reforma da Previdência precisa ser aprovada.

A participação dos investidores internacionais na dívida pública mobiliária federal interna ficou em 11,22% em dezembro, totalizando R$ 418,41 bilhões, de acordo com o Tesouro Nacional. Dados compilados pelo Valor Data indicam que o Brasil tem um dos menores financiamentos externos na comparação com países emergentes de porte semelhante. A África do Sul tem 38,3% da sua dívida financiada por esse investidor, seguido pela Rússia com 26%, México com 25,5% e Turquia com 14,8%. Apenas a Índia fica atrás, com 4,4% da dívida nas mãos de não-residentes.

Parte desse capital alocado em emergentes deve ser retirado e direcionado para o Brasil, uma vez resolvido o problema fiscal do país. É o que explica Alberto Ramos, economista-chefe para a América Latina do Goldman Sachs.

Segundo ele, a aprovação das reformas deve levar o Brasil para uma trajetória de aceleração do crescimento e aumento da produtividade, com isso o investidor vai tirar recursos de todos os lados para colocar no país. “Se conseguir resolver o fiscal e acelerar o crescimento, está muito bem posicionado para desfrutar de um período longo de prosperidade”, afirma.

O cenário benigno é traçado porque a casa está arrumada e o país tem as condições para avançar no cenário de aprovação das reformas, conforme explica o especialista. A inflação está controlada, a taxa de juros em nível historicamente baixo, a situação da conta corrente é bastante favorável e as empresas reduziram alavancagem nos últimos anos. O que falta agora é resolver o problema fiscal, condição imprescindível para que o estrangeiro volte a colocar seus recursos por aqui.

Uma vez encaminhada essa questão, o Brasil sai na frente dos pares, onde o volume alocado já é maior e as questões internas não devem ser suficientes para levar a uma forte melhora macroeconômica, deixando-os assim dependentes de fatores globais para a movimentação dos ativos. “O Brasil pode ser um dos poucos mercados emergentes com história cíclica positiva e não correlacionada ao que está ocorrendo com o resto do mundo. Podemos ter uma história só nossa e diferente dos demais”, afirma Tony Volpon, economista-chefe do UBS no Brasil.

A primeira relação traçada pelos gestores globais é com o México. O vizinho latino-americano é uma opção menos arriscada dado o grau de investimento pelas agências de rating e se destaca por ter uma taxa básica de juros maior do que a brasileira, em 8,25% ao ano. Os riscos vistos pelo mercado, no entanto, estão ligados à possibilidade de uma guinada à esquerda pelo presidente Andrés Manuel López Obrador. “O problema do México é a situação fiscal de longo prazo caso o presidente foque no crescimento pelo governo. Tivemos essa experiência com o PT e existe o risco de não dar certo para eles”, afirma Gustavo Rangel, economista-chefe para América Latina do ING.

“Sendo os dois maiores mercados da América Latina, pode ter a substituição de um pelo outro na alocação de recursos. Já vimos esse movimento no passado. Mas espero que cresça a alocação em Brasil em detrimento de países emergentes como um todo”, completa o especialista, analisando as possibilidades de mudança no caso da aprovação da Previdência. “Brasil é um dos mercados mais interessantes por tem um gatilho local muito importante.”

Os profissionais apontam que os demais pares do Brasil possuem histórias complexas. A África do Sul passa pelas incertezas de um ano eleitoral e com a economia respondendo pouco à gestão do novo presidente, depois que o anterior caiu por acusações de corrupção. Índia também está em ano eleitoral, o que pode desacelerar o ritmo de reformas do país.

A Rússia continua no centro de disputas geopolíticas e é alvo de sanções por parte dos EUA e a Turquia foi o destaque negativo em 2018 em decorrência da postura do presidente Recep Tayyip Erdogan.

O ambiente global levou o investidor não-residente de mercados emergentes a registrar grandes perdas ao longo de 2018. No Brasil, o cenário mais difícil deixou esse agente conservador e, ao levar em consideração a política local e as necessidades de reformas, a postura do estrangeiro tem sido manter baixa alocação de recursos desde o ano passado.

Reflexo dessa decisão pode ser vista nos dados divulgados pelo Banco Central na nota do setor externo. Os investimentos estrangeiros em carteira apresentam saída líquida de US$ 8,4 bilhões em 2018, ante uma saída de US$ 1,67 bilhão em 2017. Apenas na renda fixa, saíram liquidamente US$ 2,77 bilhões no ano passado.

“A capacidade do estrangeiro de entender a dinâmica política local é menor que a do investidor local, então ele cria menos expectativa e cobra mais entrega. Para ele começar a preencher o cheque, é preciso que fique claro qual a proposta de reforma do governo e qual a capacidade dele de aprovar as propostas no Congresso”, explica Tony Volpon, economistachefe do UBS.

Ramos, do Goldman, vai ainda mais longe e afirma que muitas promessas não foram entregues no passado e que agora o investidor está cético. “Quatro anos atrás, quando Dilma Rousseff foi reeleita, ela trouxe Joaquim Levy para fazer o ajuste fiscal e o saneamento do setor público, mas nada aconteceu. Depois do impeachment, veio [Henrique] Meirelles, Mansueto [Almeida], [Eduardo] Guardia, um time muito competente que entregou pouco. Não foi pela falta de governantes comprometidos que a agenda fiscal não avançou”, diz. Os fatos levam a crer, em sua opinião, que a política impede que os governantes avancem nessa pauta. “O gringo está pagando pouco para ver”, completa.

 

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