Crédito livre ainda não influencia rumo da inflação

Valor Econômico
26/11/2019

Por Estevão Taiar

Para Senna, a preocupação é “legítima” e o Banco Central “continuará monitorando de perto” as mudanças

A expansão do crédito livre e do mercado de capitais ainda não representa uma “transformação de grandes proporções” a ponto de influenciar consideravelmente a trajetória de inflação. A avaliação é de José Júlio Senna, chefe do Centro de Estudos Monetários do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV).

Na última ata do Comitê de Política Monetária (Copom), alguns membros “destacaram que as mudanças no mercado de crédito e na intermediação financeira, como o maior papel desempenhado pelo crédito com recursos livres e pelo mercado de capitais, podem impactar a transmissão da política monetária”.

Para Senna, a preocupação é “legítima” e o Banco Central “continuará monitorando de perto” as mudanças. “De imediato, porém, não parece que estejamos diante de uma transformação de grandes proporções”, afirma, no Boletim Macro do Ibre-FGV de novembro.

O encolhimento do crédito direcionado e a expansão do crédito livre, por exemplo, têm “ampliado a sensibilidade de variáveis como a atividade e a inflação a alterações de política monetária”. “Mas tal ampliação possivelmente ainda se mostra modesta, uma vez que permanece elevada a segmentação do mercado de crédito”, diz.

Do fim de 2015 até setembro deste ano, os empréstimos direcionados passaram de 49,2% do total de crédito do Sistema Financeiro Nacional (SFN) para 43,5%, “número que ainda revela alto grau de segmentação do sistema”. Além disso, mesmo com o encolhimento recente, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ainda é responsável por 12% de participação no crédito total da economia, uma “parcela elevada”, de acordo com Senna.

Ele também faz ressalvas a respeito da influência do crescimento do mercado de capitais sobre a atividade econômica e a inflação. Isso porque as recentes emissões de ações e renda fixa no ainda não trazem sinais de mobilização das empresas em torno de novos projetos de investimento”, o que aumentaria o impacto da política monetária.

Entre janeiro e outubro deste ano, foram emitidos R$ 204,4 bilhões em debêntures, notas promissórias e outros. No entanto, dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais (Anbima) mostram que 34,8% dessa quantia foi usada para reestruturação de passivos e 29,2%, como capital de giro. “Apenas 14,7% das emissões diziam respeito a financiamento de investimentos em infraestrutura”, diz Senna.

Em relação ao crescimento do crédito pessoal, Senna afirma que a expansão de 18,2% neste ano do financiamento para veículos “permite realmente uma interpretação positiva”. “Mas talvez o mesmo não possa ser dito a respeito da expansão do crédito bancário pessoal e no cartão [de crédito]”, afirma, citando duas modalidades em que os empréstimos tiveram alta de 13,7% e 20,1%, respectivamente. “Com a renda média crescendo apenas modestamente e mais de 12 milhões de desempregados, fica difícil admitir que a elevação do endividamento pessoal seja algo positivo”, afirma.

 

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