Construção confirma que o pior ficou para trás

Valor Econômico
04/12/2019

Por Ana Conceição

Início de recuperação segue concentrado no mercado imobiliário; falta reação da infraestrutura

Em crise há cinco anos, a construção civil deixou o fundo do poço após marcar o segundo trimestre consecutivo de crescimento, segundo dados das Contas Nacionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A recuperação, contudo, segue concentrada no segmento imobiliário, que tem reagido à queda dos juros. Falta a infraestrutura, que, estagnada, ainda não contribui para um impulso maior da economia, afirmam analistas.

O PIB da construção cresceu 1,3% no terceiro trimestre, na comparação com o segundo, feito o ajuste sazonal, de acordo com o IBGE. Foi um dos destaques positivos do PIB total, que se expandiu 0,4% no período. Houve desaceleração, já que no segundo trimestre o produto do setor cresceu 2,4% sobre o primeiro, mas a perspectiva positiva se mantém diante dos dados que mostram aumento do crédito imobiliário, lançamento e vendas de imóveis. Na comparação com o mesmo período do ano passado, a alta do PIB da construção acelerou de 2,4% para 4,4%.

“A construção saiu do fundo do poço. O pior ficou para trás. As sondagens – e agora o PIB – indicam isso”, afirma Ana Maria Castelo, coordenadora de projetos do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV). Dito isso, ela pondera que a economia, o emprego, a renda e a infraestrutura precisam reagir de forma mais contundente para que esse movimento seja sustentável. “Sustentação é outra história. Não temos ainda, por exemplo, indicações de um ciclo puxado por infraestrutura”, diz.

O PIB da construção está 30% abaixo do pico alcançado no segundo trimestre de 2014. E na revisão dos anos de 2017 e 2018 o IBGE piorou os números. Em 2017, a queda foi revista de 7,5% para 9,2% e, em 2018, o recuo de 2,5% passou a 3,8%. “Em 2019, o setor parou de cair. Mas a base de comparação é muito baixa”, observa Castelo. Lucas Nóbrega, economista do Santander, que considera o crescimento da construção nos dois últimos trimestres “robusto”, mas diz que é preciso cautela. “Já houve trimestre bom que depois devolveu a melhora. Não estamos falando de uma recuperação do dia para a noite, é algo muito gradual, mas que gera impactos secundários na economia”, diz, citando como exemplo a geração de empregos.

Entre os analistas, a avaliação é de que a queda da Selic, que provocou uma corrida de bancos para reduzir o juro do crédito imobiliário, e a aprovação da reforma da Previdência ajudaram a iniciar a retomada do segmento de edificações, algo já evidente no segundo terço do ano.

“A reforma abriu horizonte para um ambiente de juros mais baixos no longo prazo e contribuiu para diminuir parte das incertezas”, diz Ricardo Jacomassi, sócio e economista da gestora TCP Partners. A TCP iniciou o ano com uma previsão de queda de 0,5% no PIB da construção, que foi revisada para crescimento de 1,2%. Em 2020, a expectativa é de expansão de 2%. Para Ana Castelo, do Ibre-FGV, o aumento de 2019 pode ficar em torno de 2%. A MB Associados, por sua vez, espera alta de 2,4%. A última vez que o PIB do setor cresceu foi em 2013, com 4,5%.

“Desde julho, houve aumento de clientes em busca de recursos, de investidores. Principalmente empresas que trabalham nos segmentos A e B”, diz Jacomassi. Em 2020, afirma, esse movimento deve alcançar os segmentos de renda mais baixa por causa da queda dos juros e da relativa melhora do mercado de trabalho. Nóbrega, do Santander, observa que o setor é muito sensível ao juro, seja para financiar o empresário, seja o consumidor. “A política monetária começa a ter reflexo.”

Na infraestrutura, 2019 tem sido um ano de preparar condições para o futuro, acredita Jacomassi, para quem as concessões e a nova Lei do Saneamento terão impactos positivos no investimento. Andressa Monteiro Durão, economista da Icatu Vanguarda, também acredita que a expansão da construção deve continuar a contribuir para o crescimento da economia, mas nota que falta reação da infraestrutura. “Parte disso vem da contração dos gastos do governo”, diz. Sob o ponto de vista da demanda, a construção responde por cerca de metade do investimento. Assim, a estagnação da infraestrutura tende ter impacto também sobre essa linha do PIB. (Colaboraram Arícia Martins e Anaïs Fernandes)

 

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