Bolsa cai e dólar sobe devido ao pânico gerado pelo coronavírus

Estadão
06/03/2020

Por Lereno Soares*

A informação de casos de coronavírus confirmados no Brasil deixa o mercado em alerta e a dúvida sobre qual será o seu efeito na economia do país. Em meio à safra de balanços corporativos e no temor da epidemia, a bolsa de valores acumulou perdas expressivas apenas na curta semana marcada pelo carnaval. Como em qualquer outra situação de temor e incerteza global, os grandes investidores tendem a retirar dinheiro de ativos arriscados – como o investimento em ativos de países emergentes – e alocar em ativos mais seguros, como ouro e títulos do tesouro americano. A consequência desse movimento, para o Brasil, é a alta do dólar. Após a confirmação pelo Ministério da Saúde do primeiro caso do novo coronavírus no Brasil, o índice Ibovespa caiu 7% e o dólar subiu 1,08%, a R$ 4,44.

Em situações de pânico nos mercados, como esta e tantas outras comuns à vida do investidor, algumas perguntas devem ser feitas: a manada está tomando o rumo certo? Está exagerando na reação? A perda de dias de produção dos países afetados realmente teria o poder de afetar, nessa magnitude, o valor (ou a expectativa de valor) das empresas brasileiras? Tudo isso faz sentido numa estratégia de longo prazo?

Uma curiosidade é que, por exemplo, a letalidade de tuberculose e de leptospirose é maior que a da 2019-nCov.Mas por que enchentes em bairros sem saneamento básico não fazem a bolsa cair? Porque o que faz bolsa cair não é a morte certa e rotineira: é incerteza sobre o futuro.

A bolsa cai na expectativa de desvalorização das empresas e na incerteza. Cai na expectativa de queda de lucros das empresas e cai na fuga de capital para ativos mais seguros. Mas para quem mira no longo prazo, quedas podem ser uma oportunidade para compras. Mas será que a crise vai se agravar mais? O que devemos tomar cuidado numa crise? O leitor segue o pânico e vende ou aproveita a barganha e compra? Devemos ter cuidado com a nova crise, mas cuidado também com o já velhos e conhecidos pânico, medo e euforia, eternamente presentes na vida do mercado.

A maior preocupação nesta nova epidemia é com a transmissão, o que a diferencia de outras síndromes respiratórias que vimos nas últimas décadas, a exemplo do SARS (2003), Gripe Suína (2009-2010), Gripe aviária (2014-2017). É importante salientar que a taxa de mortalidade da Sars era de 10%, mais que o triplo dos 3% remetidos ao 2019-nCov. Uma característica diferente e que chama a atenção é que o coronavírus está se espalhando por vários continentes, enquanto as outras síndromes ficaram mais restritas a Ásia, especialmente na China, e ao Oriente Médio.

Ficamos na torcida para que este novo surto não impacte diretamente o Brasil, por meio de eventuais quarentenas e trabalhadores doentes. Por outro lado, não podemos ignorar os impactos indiretos, dado que vivemos numa economia mais globalizada onde a China tem importância central no comércio com o Brasil. Assim, algumas empresas brasileiras já veem dificuldades logísticas e atraso da chegada de insumos produtivos, tanto pela paralisação de empresas em solo chinês, quanto pelo justificado cuidado redobrado da vigilância sanitária em navios de bandeira chinesa.

Por fim, é na análise de ônus reais para a economia e para o bem-estar da sociedade que a avaliação de ativos deve se basear. O pânico não pode embaçar a visão do investidor.

*Lereno Soares, economista na fintech de créditos Juros Baixos

 

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