BNDES é viável sem ações na carteira, diz Montezano  

Valor Econômico
19/12/2019

Por Francisco Góes e Juliana Schincariol

BNDES apresenta Plano Trienal 2020-2022 e afirma que banco é sustentável financeiramente mesmo vendendo carteira de ações

O Plano Trienal 2020-2022 apresentado ontem pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) dará maior ênfase ao “S” da sigla que dá nome à instituição. O lucro não será uma prioridade, embora a sustentabilidade financeira precise ser garantida. “Um banco de desenvolvimento não deve medir seu sucesso por quantos reais desembolsou, quanto deu de lucro. A função do passado foi gerar lucro para ajudar no primário [superávit primário do governo federal]. A função do banco é ser sustentável, pagar suas contas, mas, sobretudo, gerar lucro social, ajudar o Brasil a se desenvolver. É voltar às origens. Tinha [antes] governo de esquerda que forçava o banco a dar lucro e agora tem um governo de direita liberal fazendo ação social, desenvolvendo o Estado”, disse Montezano ao Valor.

Ontem pela manhã, em uma apresentação à imprensa e a outras partes interessadas, como acadêmicos e investidores, Montezano e sua diretoria passaram a mensagem que a sustentabilidade financeira do BNDES não depende da carteira de renda variável da instituição. O sistema BNDES, incluindo a BNDESPar, a empresa de participações do banco, tem cerca de R$ 120 bilhões em ações de empresas e o objetivo da atual gestão é reduzir esse portfólio em cerca de 80% em três anos desde que as condições de mercado permitam. Há três operações em curso: Marfrig, já concluída, JBS e Petrobras.

Sobre Petrobras, disse Montezano: “Estamos com o processo na rua, que prevê a contratação de um banco líder, que contata o sindicato de bancos. Pode demorar alguns dias, uma semana [para definir os bancos], mas está indo bem, estamos animados”. A orientação sobre a venda de ações ordinárias da Petrobras, atual mandato do BNDES, virá dos bancos. Para o desinvestimento dos papéis preferenciais, ainda não há previsão e pode ser feito tanto via mesa ou oferta no mercado. “O volume que vamos vender dessa oferta [Petrobras], quando vier, depende do timing de absorção do mercado. Temos três anos, o que não nos dá pressa. Se o mercado estiver absorvendo bem, supriremos mais rápido. Se o mercado estiver pedindo desconto demais ou não couber no volume todo, vamos mais devagar.”

No caso de JBS, Montezano reforçou que os bancos que vão participar da oferta são Bradesco BBI (líder), Bank of America, BTG Pactual, Itaú BBA e UBS, de acordo com fato relevante divulgado pela companhia. Na operação de Marfrig, Montezano disse que o banco ganhou R$ 387 milhões com o investimento na empresa desde 2007, considerando-se a venda a R$ 10 por ação. O número representa uma taxa interna de retorno (TIR) de 1,5% ao ano, abaixo do Ibovespa no período (6,3% ao ano) e do CDI, de 9,9% ao ano, disse Montezano. “É um retorno nominal baixo, mas positivo. Não perdeu, mas podia ter feito coisa melhor com esse dinheiro” criticou Montezano.

Na apresentação do Plano Trienal tanto ele quanto a diretora financeira Bianca Nasser mostraram slides em que a carteira de renda variável do BNDES, em horizonte de dez anos (2010-2019), teve retorno menor do que o CDI. O desempenho histórico da carteira foi de 4,4% ao ano enquanto o CDI rendeu 9,9% ao ano. Em prazo de 18 anos, o retorno entre esses dois ativos foi semelhante. Em dois e cinco anos, a carteira teve desempenho bem superior ao CDI. “Se eu tivesse pego o dinheiro que comprei as ações dez anos atrás e posto no CDI, teria mais do que o dobro dos R$ 120 bilhões atuais”, disse Montezano na apresentação.

Depois das declarações, especialistas no mercado de ações criticaram a comparação e afirmaram que a melhor relação seria com o Ibovespa. “CDI é a melhor comparação para uma carteira de ações? Evidente que não: é o Ibovespa”, disse fonte. Outro analista afirmou: “Não é mandato do BNDES arbitrar com dinheiro público. O BNDES não faz investimentos especulativos. O objetivo não é ficar procurando ativos que dão retorno, mas sim fazer investimentos que gerem emprego, renda. O BNDES não poderia pegar o dinheiro em 2010, e investir em CDI. Os investimentos tinham propósito de executar políticas de governo, estimular o empreendedorismo, governança, gerar emprego e renda”, disse o analista.

Em julho, antes da posse de Montezano, o Valor mostrou, com base em contas do próprio BNDES, que a instituição teve até aquela data um ganho econômico de R$ 74,8 bilhões em cinco anos com empresas listadas na bolsa das quais é sócio. Em dez anos, esse ganho foi menor, mas ainda assim relevante: R$ 66,3 bilhões. Os números correspondiam a um aumento da “riqueza” do banco em empresas abertas que, no fim de março, representavam 88% da carteira de renda variável do sistema BNDES.

Perguntado pela reportagem se a comparação com o Ibovespa não seria mais adequada, Montezano afirmou: “Quisemos mostrar que o investimento [em ações], olhando em dez anos, não só não foi importante para a sustentabilidade econômico-financeira do banco como, em termos de custo de oportunidade, rendeu menos”. O executivo disse que quando chegou ao banco, em julho, um dos argumentos contrários à venda de ações era que a carteira de renda variável era “primordial” para a sustentabilidade financeira da instituição, disse Montezano.

Bianca Nasser, a diretora financeira, afirmou que a lucratividade do banco, excluindo a renda variável, garantiu um índice de cobertura de cinco vezes os gastos com despesas administrativas. Segundo ela, a cobertura das despesas do banco nos últimos dez anos vem, sobretudo, da intermedição financeira (crédito mais tesouraria menos funding), e não do resultado com renda variável. Ela mostrou projeções “conservadoras”, segundo Montezano, que indicam que o BNDES pode ter um lucro líquido recorrente (sem efeitos extraordinários) entre R$ 6,6 bilhões e R$ 8,6 bilhões em 2022. A estimativa é superior ao resultado de 2018, de R$ 5,5 bilhões. A projeção exclui a venda de ações da carteira.

Montezano disse que o BNDES é um dos bancos mais sustentáveis do mundo financeiramente. Ele também previu um cenário positivo para a instituição em 2020. “Fechamos 2019 com chave de ouro e vejo 2020 como o ano do BNDES. Prepararmos o banco para jogar esse jogo que ele sabe fazer. A agenda inclui a redução de risco de mercado [em renda variável], as privatizações e desestatizações e três novas fronteiras de atuação: saneamento, gás natural e preservação florestal. O objetivo é acelerar nessas três frentes”, afirmou. Ele também negou que haja qualquer atrito com o ministro Paulo Guedes e com o secretário especial de Desestatização, Salim Mattar. “Minha relação com eles e com o conselho do banco não podia ser melhor. O ministro [Paulo Guedes] é direto, reto e objetivo. Minha relação com o ministro é espetacular.”

 

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