Bancos públicos injetam R$ 175 bilhões

Valor Econômico
19/03/2020

Por Talita Moreira

Movimento não foi acompanhado até o momento por instituições privadas, que digerem aumento no risco

A crise do coronavírus levou o governo a deixar de lado, ainda que temporariamente, a diretriz de reduzir a participação estatal no crédito. Banco do Brasil (BB) e Caixa já anunciaram um reforço de R$ 175 bilhões em suas linhas. O BNDES deve entrar com R$ 100 bilhões adicionais, segundo informação do Ministério da Economia ainda não confirmada pela instituição financeira.

Até agora, o movimento não foi acompanhado pelos concorrentes privados – que se retraíram para digerir a alta nos riscos de crédito trazida pela pandemia. Com empresas parando atividades e consumidores dentro de casa, o governo tem sido cobrado a dar uma resposta mais contundente aos impactos econômicos do vírus, e foi aí que os bancos públicos entraram em cena.

O passo mais recente foi dado pelo BB, que ontem reforçou em R$ 100 bilhões suas linhas de crédito. O anúncio de parte das medidas foi feito pelo presidente Jair Bolsonaro durante a entrevista interministerial na qual foram elencadas ações para mitigar a crise.

O Banco do Brasil percebeu uma oportunidade para reforçar as principais linhas de crédito num momento em que parte de nossos clientes pode precisar de apoio”, afirmou o presidente do BB, Rubem Novaes, ao Valor em entrevista por escrito.

Na semana passada, a Caixa já havia anunciado R$ 75 bilhões para reforçar capital de giro (R$ 40 bilhões), comprar carteiras de empréstimo consignado de bancos médios (R$ 30 bilhões) e agronegócio (R$ 5 bilhões). Hoje, o banco vai detalhar as medidas e anunciar reduções de taxas de juros de algumas modalidades de crédito.

Do total disponibilizado pelos bancos públicos até agora, mais da metade foi reservada para empresas. A leitura é a de que as companhias, especialmente as de pequeno porte, vão precisar de capital de giro para continuar pagando as contas durante os meses de portas fechadas.

No caso do BB, as linhas a empresas foram ampliadas em R$ 48 bilhões, incluindo capital de giro, investimentos e antecipação de recebíveis. Outros R$ 25 bilhões irão para o agronegócio e R$ 24 bilhões, para pessoas físicas. O banco também ampliou o limite de crédito de 13 milhões de clientes, com impacto de R$ 18 bilhões.

“É muito importante que o crédito continue disponível aos nossos clientes neste momento”, afirmou o presidente do Banco do Brasil em nota à imprensa.

Há uma década, os bancos de controle público também foram acionados pelo governo para conter os efeitos do pós-crise de 2008. Naquela ocasião, as instituições financeiras ampliaram muito a oferta de recursos, entraram em novos segmentos e cortaram taxas de juros para estimular sobretudo o consumo.

A diferença em relação àquele momento é que BB e Caixa estão mais bem capitalizados e líquidos hoje. Além disso, os executivos à frente desses bancos atualmente têm um olhar mais pautado na rentabilidade das operações e, pelo menos até agora, têm feito valer essa visão.

“Vamos ajudar a economia, mas dentro das nossas restrições de matemática”, afirmou ao Valor o presidente da Caixa, Pedro Guimarães. “Também temos nosso papel nas políticas sociais [que geram custo para o banco].”

Novaes, do BB, disse que manterá “critérios técnicos” na concessão de recursos. “Seguiremos com a responsabilidade da nossa política de crédito”, destacou.

De acordo com o presidente do BB, o aumento da oferta de recursos pela instituição é decorrente das medidas adotadas recentemente pelo Banco Central (BC) para reforçar a liquidez e reduzir os juros. Nas últimas semanas, o regulador diminuiu compulsórios e aliviou indicadores de liquidez e capital bancário. “Os bancos são essenciais em momentos de crise e ganharam combustível para atuar com mais força neste momento”, afirmou Novaes à reportagem.

As mesmas medidas, no entanto, têm sido consideradas insuficientes pelos bancos privados para estimular a oferta de crédito, conforme relatos de executivos dessas instituições feitos ao Valor. Uma parte do setor defende, nos bastidores, que o BC faça novos afrouxamentos nos depósitos compulsórios.

Os bancos privados têm discutido novas linhas em meio à crise, mas pouca coisa foi anunciada para ampliar a oferta. O Santander foi quem mais se movimentou nos últimos dias. A instituição anunciou um aumento de 10% no limite dos cartões de crédito dos clientes que não estiverem com as faturas em atraso. Em outra frente, o banco está incentivando os produtores rurais a já renovarem o custeio da próxima safra.

Nesta semana, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) anunciou um acordo pelo qual os cinco maiores bancos do país (BB, Caixa, Itaú Unibanco, Bradesco e Santander) se dispõem a atender pedidos de prorrogação por 60 dias dos vencimentos de dívidas de pessoas físicas e micro, pequenas e médias empresas.

Em nota à imprensa ontem, o presidente do Itaú Unibanco, afirmou que o comando da instituição tem feito um acompanhamento constante da crise do coronavírus e tenta atenuar os impactos “profundos” da pandemia sobre a atividade econômica. Segundo ele, o banco tem procurado ouvir os clientes para atender suas necessidades.

Após a reunião do Copom, que reduziu a Selic para 3,75% ao ano, o Itaú anunciou que repassará o corte integralmente para suas linhas de crédito pessoal e de capital de giro. “A decisão anunciada pelo Copom contribui para amenizar os efeitos econômicos da crise provocada pelo avanço da covid-19”, afirmou em comunicado o diretor-geral de varejo do banco, Márcio Schettini.

O Bradesco também informou que reduzirá as taxas de suas principais modalidades de crédito a partir da próxima segunda-feira, acompanhando a queda na Selic.

 

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