Lucro dos bancos deve saltar 60%, mas com margens sob pressão

Valor Econômico
27/07/2021

Por Álvaro Campos, Lucinda Pinto e Fernanda Bompan

Base de comparação baixa, sob efeito de provisões em razão da pandemia, favorece desempenho

 

Os grandes bancos de capital aberto devem mostrar um salto de quase 60% nos lucros do segundo trimestre. A recuperação da economia ajuda, mas o principal fator é a base de comparação fraca, já que no mesmo período do ano passado os resultados foram reduzidos pelos bilhões de reais em provisões constituídas para lidar com a pandemia. A despeito do crescimento na última linha dos balanços, a tendência é que as margens financeiras permaneçam sob pressão.

Segundo pesquisa do Valor com oito casas de análise, Itaú, Bradesco, Santander e Banco do Brasil devem ter um lucro combinado de R$ 21,5 bilhões no segundo trimestre, uma alta anual de 59,9%, mas queda de 1,6% em relação ao primeiro trimestre. O Santander puxa a fila das divulgações, publicando seus números amanhã.

A expectativa é que as carteiras de crédito continuem crescendo em ritmo saudável e haja leve deterioração na inadimplência, algo já esperado, dado que o indicador bateu nas mínimas históricas em razão de pausas nos pagamentos oferecidas aos clientes. As margens financeiras, no entanto, devem sentir o impacto da maior competição, ainda que o avanço de linhas com spread maior possa aliviar esse fator.

Para os analistas do J.P. Morgan, o apetite dos bancos em ofertar empréstimos está crescendo em meio à melhora na atividade com a reabertura da economia e o avanço da vacinação. Citando dados do Banco Central (BC), eles chamam a atenção para o fato de que a alta anual do crédito passou de 14,5% em março para 16% em maio, sendo que entre os bancos domésticos privados essa expansão é ainda mais forte, de 24%. “Produtos mais arriscados e com spread maior estão crescendo mais rápido, o que pode impulsionar as margens”, afirmam em relatório.

O Itaú BBA destaca que os investidores buscarão sinais de recuperação na margem financeira, mas no segundo trimestre ainda não deve ocorrer uma melhora substancial. Segundo os analistas da casa, o período ainda foi marcado por restrições de mobilidade, e uma recuperação mais forte das margens deve vir na segunda metade do ano. “A maior confiança e a normalização da poupança das famílias devem impulsionar a demanda por produtos de crédito de maior retorno. Este também será um ambiente melhor para os bancos ajustarem os preços para cima e compensarem o aumento gradual nos custos de financiamento em função da alta da taxa Selic”, afirma a instituição.

Os analistas ressaltam, no entanto, que um fracasso em melhorar a margem financeira no segundo semestre prejudicaria as previsões de lucro dos bancos. O Itaú BBA diz que isso alimentaria os pessimistas que argumentam que a compressão da margem está mais relacionada à concorrência e à regulação, e não tanto à redução da Selic. “O Brasil entrará na fase dois do open banking, provavelmente aumentando a concorrência no segmento de crédito e lançando dúvidas de longo prazo se a recuperação dos spreads não se materializar. Ou seja, se os spreads bancários não melhorarem com o crescimento de quase 6% do PIB e um ciclo de aumento da taxa de 4 pontos percentuais, será mais difícil argumentar por um futuro mais brilhante”, apontam no relatório.

“Temos visto o crédito crescer, mas as receitas, nem tanto”, diz o analista Bruno D’Avilla, da Mauá Capital. “ Para ficar mais otimista com [as ações] de bancos, seria preciso que a receita crescesse mais.” Ele espera nova rodada de expansão das carteiras, com a inadimplência ainda controlada, abaixo do nível anterior à pandemia, e também prevê que o nível de provisões será reduzido.

Haverá grande atenção, portanto, a como ficarão os guidances para 2021 – os bancos costumam fazer ajustes nessas diretrizes ou reafirmá-las nas divulgações do segundo trimestre.

Os analistas da XP consideram preocupantes os preços mais elevados das ações dos grandes bancos em um cenário de “disrupção” causado tanto por intervenções regulatórias quanto por maior concorrência. Essa avaliação, somada aos riscos com o open banking e uma competição mais agressiva no setor de atacado, levou a uma mudança na postura deles de otimista para cautelosa. “Embora nossa recomendação dos bancos em junho de 2020 tenha valido a pena, os preços das nossas ações de cobertura cresceram em média 26%, justificando uma visão menos otimista sobre o setor.”

Para o UBS, a margem financeira deve ficar praticamente estável na comparação entre o primeiro e o segundo trimestres, mas com uma qualidade melhor agora, ou seja, com uma parte maior formada pelo crédito e um peso menor da tesouraria.

Com as carteiras em crescimento, outro ponto de atenção é a inadimplência. No entanto, os analistas dizem que as métricas de qualidade dos ativos devem ficar bem comportadas. O UBS afirma que os dados do BC mostraram alta de 0,2 ponto porcentual na inadimplência em abril e maio. “A inadimplência acima de 90 dias deve continuar em um nível muito baixo, mas com tendência de alta, após ter terminado o primeiro trimestre em 2,2%, apenas 0,05 ponto acima da mínima histórica”.

Ao contrário do que ocorreu nos Estados Unidos, onde os bancos começaram a reverter provisões já no primeiro trimestre, por aqui os analistas não acreditam nessa possibilidade. A expectativa é que eles provisionem volumes abaixo do que vai entrando em inadimplência, consumindo assim aos poucos o excesso de reservas. “Após atingir níveis recordes no quarto trimestre, os índices de cobertura começaram a cair no primeiro trimestre deste ano e essa tendência deve continuar no segundo”, afirma o UBS. Os analistas dizem que o índice de cobertura médio dos bancos deve caiu 18 pontos porcentuais de março para junho.

Na linha de receita de tarifas, o maior uso do cartão de crédito deve ajudar, embora o avanço do Pix pressione o agregado para baixo. Já do lado das despesas, a busca por eficiência, incluindo com redução de agências e do quadro de funcionários, deve manter os gastos crescendo abaixo da inflação.

dividualmente, o Santander deve apresentar o maior aumento anual no lucro, de 84,3%. Enquanto Itaú e Bradesco fizeram o grosso das provisões para a pandemia no primeiro trimestre de 2020, o banco espanhol deixou para o segundo trimestre, por isso a base de comparação agora fica mais baixa. “Após um bom desempenho das tarifas no primeiro trimestre, esperamos uma ligeira redução (-2% na comparação trimestral), enquanto os gastos devem continuar sob controle, pois o Santander se mantém totalmente comprometido com seus processos de industrialização dentro do banco”, diz a equipe do BofA.

Na sequência o Bradesco deve ter alta de 73,0% e novamente superar o lucro do rival Itaú. O J.P. Morgan aponta que a área de seguros, que responde por quase 30% do resultado do grupo, deve ter uma pressão maior, em função da pandemia – que afeta os sinistros em seguros de vida – e dos reajustes abaixo da inflação no setor. Ainda assim, o banco americano mantém o Bradesco como seu “top pick”. “A forte redução de gastos deve continuar no primeiro semestre e o banco tem um índice de cobertura elevado”.

O lucro do Itaú deve subir 51,7% na comparação anual. O UBS aponta que a cisão da fatia na XP – que ocorreu em maio – deve afetar os resultados do banco, levando a uma queda de 0,3% no trimestre. Outro fator negativo é a valorização do câmbio, com um real mais forte desfavorecendo os resultados das operações do banco em outros países da América Latina. “As margens com clientes caíram materialmente em 2020 e acreditamos que o segundo trimestre de 2021 deve apresentar uma inflexão. Prevemos uma alta trimestral de 2,3%. Os resultados de tesouraria, que alcançaram nível recorde no primeiro trimestre, devem se normalizar no segundo”, dizem os analistas do banco suíço.

Por fim, o Banco do Brasil deve ter o menor crescimento anual no lucro, de 39,6%. O Itaú BBA diz que o BB é o banco que menos faz hedge para proteger seu balanço de flutuações nos juros e também é o mais exposto ao risco político, à medida que se aproximam as eleições de 2022. Além disso, a equipe de analistas fez uma simulação do que aconteceria com os bancos se for aprovada a proposta de reforma tributária que acaba com os juros sobre capital próprio (JCP) e reduz a alíquota de imposto corporativo. O BB seria o mais atingido, com queda de 13% no lucro em 2022 e 9% em 2023.

Em relação à recomendação das ações, os analistas da XP decidiram rebaixar as classificações para dois dos incumbentes cobertos pela casa: Bradesco para “neutro” e Santander para “venda”. Mantiveram as recomendações do Banco do Brasil e do Itaú em “compra” e “neutra”, respectivamente.

 

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