Vai ter crise energética no Brasil?

Valor Econômico

Por Amália Safatle

05/11/2021 

Com preços altos, crise ambiental e insuficiência de renováveis, empresas e consumidores se viram para não ficar no escuro e sem água

Com temperaturas que chegam a 38 graus, fica difícil dormir sem ar-condicionado em Junqueirópolis, no oeste paulista. O calor — mas também a conta de luz — era de tirar o sono de Arisson Moreira e sua mulher, ambos aposentados, e do filho, que trabalha como vendedor. Com renda de R$ 1,9 mil, a família penava para despender R$ 350 do orçamento somente com energia, mesmo ligando poucas lâmpadas e uma televisão, até que o vizinho relatou uma boa experiência com a energia solar.

Os Moreira resolveram, então, aderir à novidade. Em abril, financiaram a instalação de nove painéis solares sobre o teto da garagem. Em vez do gasto com luz, a família desembolsa R$ 388 por mês para pagar as 48 prestações do Meu Financiamento Solar, uma fintech do banco BV, que tem 50% da clientela com renda de até R$ 5 mil. Agora a família consegue usar dois aparelhos de ar-condicionado durante as tardes e noites mais quentes.

Mas, sem poder contar com bateria, que ainda é cara no Brasil, a casa deixa de receber energia se houver blecaute, pois o sistema, por questões de segurança, é desligado se a rede pública cair. Em relação ao abastecimento de água, outra dor de cabeça que ronda os brasileiros, a família Moreira depende da prefeitura, que faz a captação em poço artesiano. Algumas cidades no interior de São Paulo, que se assustaram com a ocorrência mais frequente de gigantes nuvens de poeira, ainda vivem sob a ameaça de racionamento, por mais que alguma chuva entre fim de outubro e início de novembro tenha aliviado a secura.

A situação não é melhor para pequenas empresas diante do aumento de 50% na bandeira tarifária neste ano, de R$ 9,49 para R$ 14,20 por 100 kWh, combinado ao peso importante que as despesas de água, saneamento, energia e gás têm nos custos. Com base em dados do IBGE, o economista e assessor técnico da Federação do Comércio (Fecomercio) de São Paulo, Guilherme Dietze, afirma que esses itens respondem por 12% das despesas no setor. Somente a energia é responsável por 22% dos custos em lavanderias e a 21% nos hotéis.

A geração intensiva nas termelétricas, uma das respostas do governo federal para enfrentar os riscos de racionamento e de apagão neste ano, tem como resultado o aumento do preço da energia acima da inflação. Nos últimos 12 meses, ela subiu 28,8%, sendo o segundo item que mais pesa no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

De acordo com Roberto Kishinami, coordenador-sênior no Instituto Clima e Sociedade, a dificuldade em repassar os preços ao consumidor explica em grande parte as portas do comércio fechadas nas ruas, o que prejudica um setor-chave na retomada da economia e de empregos, além de afetar a indústria também.

Segundo o estudo “Impacto econômico do aumento no preço da energia elétrica”, da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o aumento no preço da energia elétrica resultará em uma queda de R$ 8,2 bilhões no PIB deste ano, em comparação com o que ocorreria sem a crise energética. Para 2022, a previsão é de perda de R$ 14,2 bilhões. O consumo das famílias se reduzirá em R$ 7 bilhões, as exportações terão perdas equivalentes a R$ 2,9 bilhões, e o impacto no emprego será de menos 166 mil postos de trabalho. O PIB industrial, que inclui indústrias extrativa e de transformação, serviços industriais de utilidade pública e a construção, deve se reduzir em R$ 2,2 bilhões.

 

AESBE - Associação Brasileira das Empresas Estaduais de Saneamento

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