Sem chuva, racionamento avança e chega a 6 meses no interior de SP

Folha de São Paulo
Por Marcelo Toledo
01/10/2021

 Reservatórios registram volume negativo ou queda recorde; prefeituras põem caminhões-pipa nas ruas

A falta de chuva tem baixado cada vez mais os níveis dos reservatórios, feito com que alguns locais já operem praticamente no volume morto e obrigado cidades a oferecem caminhões-pipa para atender moradores.

Para piorar, as previsões de chuva não são favoráveis, e o colapso no abastecimento faz parte da rotina diária de municípios no interior paulista.

A capital também sofre, com medidas de redução de pressão da água nas torneiras e perspectivas pouco animadoras, com o nível do Cantareira diminuindo rapidamente.

O racionamento de água, primeira medida tomada pelas prefeituras, chegou a seis meses em uma cidade e a três em outras, mas mesmo assim os níveis das represas de captação de água insistem em diminuir.

Para tentar conter o consumo, mais de uma dezena de cidades do interior paulista estão aplicando multas de até R$ 1.000 para quem for flagrado utilizando irregularmente a água.

É o que acontece em Bauru, que desde abril adotou rodízio no fornecimento de água aos moradores atendidos pela captação do rio Batalha, o equivalente a 35% da cidade, de 381 mil habitantes. É o pior ano de chuvas em uma década no município.

Adotado inicialmente no sistema 24 por 48 (um dia com água e dois sem), o rodízio chegou a ser dia sim, dia não e até foi suspenso por dez dias em junho, mas, com o nível da lagoa de captação em queda, foi novamente retomado.

Atualmente, a região A recebe água num dia, enquanto no segundo dia o abastecimento é feito à região B. No terceiro dia, nenhuma das regiões recebe água.

“Visando dar um fôlego para a lagoa de captação”, informou o DAE (Departamento de Água e Esgoto), em comunicado.

Para tentar minimizar o rodízio, já que a lagoa de captação está 70 cm abaixo do desejável, cinco caminhões-pipa serão contratados na próxima semana para se juntarem aos oito da autarquia. Poços também estão sendo reativados.

Para tentar conter impactos futuros, estão sendo interligados ou perfurados poços artesianos, e um novo reservatório será construído, na Vila Dutra.

“A partir da conclusão das obras […] o impacto do próximo período de estiagem, em 2022, será muito mais brando, com a expectativa de não ser necessário um novo rodízio na cidade”, diz o departamento.

Nas outras regiões de Bauru, abastecidas por poços artesianos, não há rodízio.

Até setembro, a cidade teve 616 milímetros de chuva, menor volume da década. Como comparação, 2020, que já tinha sido ruim, teve 811,8 mm, segundo o IPMet (Instituto de Pesquisas Meteorológicas), da Unesp. Em 5 dos 10 últimos anos, os índices foram superiores a 1.000 mm.

Em Itu, o racionamento funciona atualmente no sistema 24 horas com água por 48 horas sem abastecimento e está em vigor desde 5 de julho.

Dezoito caminhões-pipa são usados para atender as regiões mais críticas, e 7 dos 9 mananciais (represas) dependem muito da chuva, o que significa que estão em níveis críticos.

Segundo a Companhia Ituana de Saneamento, campanhas de conscientização têm sido feitas, e multas também estão sendo aplicadas.

Com racionamento desde 7 de julho, Salto aplicou mais de 90 multas por desperdício de água até a última semana, mas nem isso foi suficiente para auxiliar no aumento da captação no ribeirão Piraí, responsável por 85% do fornecimento da cidade.

Segundo o Saae (Serviço Autônomo de Água e Esgoto), a régua de captação no manancial alcançou 40 cm negativos nesta quinta, 70 cm inferior ao normal para o período. Em 22 de agosto, a captação foi interrompida por 20 horas, após o nível atingir 1 m abaixo da régua. Só se via areia.

Atualmente são captados 260 litros por segundo, 28% menos que os 360 litros ideais, e o racionamento consiste em abastecer uma região por 20 horas e deixá-la sem água por outras 28 horas.

Em Araçoiaba da Serra, que raciona água há mais de um mês, o rodízio dividiu a cidade em dois setores, que recebem água em dias alternados.

Na última segunda-feira (27), prefeitos da região se reuniram em Sorocaba para discutir o abastecimento a partir da represa de Itupararanga e do rio Sorocaba.

Prefeitos de dez cidades –Sorocaba, Cerquilho, Ibiúna, Laranjal Paulista, Mairinque, Salto, Piedade, São Roque, Votorantim e Alumínio– declararam estado de alerta hídrico devido à falta de chuvas.

No encontro, foi apresentada a informação de que o volume útil da represa de Itupararanga estava em 23,76% da capacidade. Se não chover, o total é suficiente para abastecer a região por cem dias, até alcançar o volume morto.

Sem chuvas, a vegetação fica mais vulnerável ao fogo, o que já tem sido registrado em todo o estado.

No último fim de semana, um incêndio na linha férrea suspendeu a operação do trem turístico entre Louveira e Vinhedo. Já a maria-fumaça usada na rota entre Campinas e Jaguariúna ficará parada enquanto persistir a escassez hídrica.

“É um risco colocá-la em operação com a vegetação tão sensível como está”, disse Hélio Gazetta Filho, diretor administrativo da ABPF (Associação Brasileira de Preservação Ferroviária).

Para funcionar, o trem precisa de uma caldeira, que produz o vapor usando o combustível (carvão ou lenha e água), transformando a energia em atividade mecânica. Por viagem, são gastos até 10 mil litros de água. As locomotivas a diesel farão a rota.

Há ainda locais no interior onde não há rodízio, mas a prefeitura já decretou emergência, como Limeira.

O decreto foi publicado na última terça-feira (28), segundo o prefeito Mario Botion (PSD), após a vazão do rio Jaguari cair drasticamente neste ano.

“O preconizado é que, de 2 m cúbicos a 5 m de vazão, configura estado de alerta. De 2 m cúbicos para baixo, de emergência. E ela está em 0,9 m cúbico”, disse.

A publicação também estabelece a possibilidade de aplicação de multa em caso de desperdício.

Em Limeira, o consumo médio diário por pessoa está em 180 litros de água, acima do indicado. “O ideal é que o uso fique entre 110 litros e 140 litros. Se a população conseguir reduzir o consumo, ajuda muito a passar menos aperto nesse momento de crise hídrica.”

 

AESBE - Associação Brasileira das Empresas Estaduais de Saneamento

SCS - Quadra 01 - Bloco H - Edifício Morro Vermelho - 16º andar - CEP: 70399-900 - Brasília-DF - Tel/Fax.: 55 61 3022-9600

Fazer login com suas credenciais

Esqueceu sua senha?