‘País precisa ter foco no médio e no longo prazo’, diz Gesner Oliveira

Estadão

13/09/2021

Por Sonia Racy

O Brasil já convive com a escassez hídrica, é uma situação bem clara “há meses”. A oferta de energia, tudo indica, não será suficiente para dar segurança à atividade econômica. A advertência é do economista Gesner Oliveira, professor da FGV-SP, para quem os seguidos governos não aprenderam direito as lições do longo racionamento vivido pelo governo FHC em 2001 – e, em menor escala, pelo governo Dilma em 2014.

O que faltou? Simplesmente faltou planejamento. O País fica “apagando incêndios no curto prazo e não olha o longo. Não criamos metas”, diz ele. “Temos que definir: que tipo de matriz elétrica queremos ter daqui a 10 anos, ou 20 ou 50?”

Com graduação na USP, mestrado na PUC e doutorado na University of California, Gesner é também sócio-diretor da GO Associados e acaba de lançar – em abril passado – o livro Nem Negacionismo nem Apocalipse. Sua experiência no ramo o leva a constatar que não faz sentido o Brasil ter problemas de energia. A hidrelétrica é uma energia limpa, responde no País por 70% da matriz nacional, uma raridade no planeta. O problema é que “dependemos agora de um regime de chuvas que tem variado muito”.

Nesta entrevista ao Show Business, da Band, o professor repete um bordão que vem discutindo há algum tempo em seus grupos: o 30 em 30. “São metas. O que quero dizer é: 30% de energia solar até 2030”. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Vai faltar energia ao País?

Já está faltando. Na verdade, já estamos vivendo uma escassez hídrica, uma situação clara há meses, em que a oferta de energia não é suficiente para dar segurança à economia, ao País. O que precisamos é enfrentar o curto prazo, de olho sempre no médio e no longo prazo, pra evitar situações já vividas em 2001, em 2014.

Por que os governos não evitaram essa nova crise?

Olha, temos um sistema com vantagens e desvantagens. A vantagem é dispor de uma energia limpa, a hidrelétrica, que representa 70% da nossa matriz energética. Ela não depende de combustível fóssil, o que significa que o Brasil não emite muitos gases de efeito estufa – os que causam o aquecimento global. Esse é o lado positivo da história.

E qual é o negativo?

O negativo é que dependemos de um regime adequado de chuvas. Onde nós armazenamos energia? Na forma de água nos reservatórios, que aciona as turbinas e garante a energia necessária à economia. O problema é que o regime de chuvas varia. E tem havido uma mudança climática muito forte, no mundo inteiro. Ou seja: nosso sistema é hoje dependente de um regime de chuvas que se tornou mais instável.

E isso não era previsível?

Era, com certeza. Na primeira crise houve uma corrida pela construção de termoelétricas. Elas são mais caras, é certo, e vão encarecer a conta, mas temos uma segurança. Na segunda crise, acredito, não se fez muita coisa. Em 2001, nossa matriz elétrica dependia quase 90% da hidreletricidade, e, portanto, das chuvas. Houve uma melhora de uns 25% na matriz de outras fontes. E nós tivemos um aumento da energia eólica, que hoje representa quase 10% do consumo da energia hidrelétrica. Aí começamos com a energia solar. Temos muitas vantagens nessas duas fontes. Temos ventos e uma incidência solar muito boa. E podemos expandir muito mais. Estamos um pouco menos dependentes da chuva do que em 2001.

E o que isso muda, na prática?

Tenho discutido com vários grupos sobre um bordão, “30 em 30”. O que é isso? É 30% dessa nova energia em 2030. É possível fazer, desde que você aumente muito essa fatia solar e eólica. Por exemplo: temos resíduos urbanos sólidos, que podem gerar energia a partir do lixo. Há várias formas de tecnologia para a recuperação energética dos resíduos e temos profissionais competentes para isso. Agora, é preciso ter um foco nessa direção, pra acontecer.

Não existe uma continuidade entre nas políticas energéticas. Isso é uma tarefa do Estado, do governo. Como explicar isso?

Temos aí dois problemas. Primeiro, falta planejamento. Ficamos apagando incêndios no curto prazo sem olhar onde queremos chegar. Então, quando eu sugiro “30 em 30” estou falando de metas. Precisamos de metas. Que tipo de matriz energética queremos daqui a 10 ou 20 ou 50 anos? E isso é atribuição do Estado, não de um só governo. Não pode ficar variando de um para outro.

Não sei se seria o caso, mas me vem à mente uma certa blindagem na administração do BB. Regras pra isto, para aquilo, não politizar. De certa maneira, funcionou. Na Petrobras não funcionou porque as travas criadas pelo então governo foram desativadas na gestão seguinte. Tem como fazer dar certo?

Não há uma fórmula mágica, mas tem algumas iniciativas. Hoje você tem mais autonomia do BC, que é importante para a taxa de juros, para o custo do dinheiro. A reforma administrativa também é muito importante, desde que consiga racionalizar, não é qualquer reforma pra enganar. Ela tem de valorizar o servidor do Estado, pensando no longo prazo. O que é, no caso, racionalizar? É tirar recursos de onde só tem desperdício, do empreguismo. E fazer, no médio e longo prazo, uma política de transporte, urbana e tantas outras. Um projeto nacional, que independe deste ou daquele governo.

E como os outros países conseguem criar esse planejamento? Os desenvolvidos, pelo menos, conseguem. Nós, em desenvolvimento, não. A China, de algum modo, conseguiu fazer, em um regime capitalista ditatorial. Não é o que nós, os ocidentais, almejamos. Olha, eu estou na profissão de jornalista há 30 anos ouvindo “temos de fazer isto, fazer aquilo”. Mas cada novo governo muda o rumo. Isso poderia estar, por exemplo, numa PEC votada e aprovada no Congresso? Como blindar?

Você tem aí ingredientes fundamentais. Nesses órgãos de Estado tem de haver excelência técnica e isso demanda talentos. Para atrair esses talentos é preciso ter uma política de recrutamento, precisa pagar bem, pra isso tem de ter recursos, pra ter recursos tem de não desperdiçar, quer dizer, precisa focar onde pôr o dinheiro. Daí a importância de uma reforma administrativa que racionalize gastos e torne a máquina pública menor e mais eficiente. E a transparência é fundamental. Neste nosso caso, o que é transparência? É saber com segurança a situação dos reservatórios, ter indicadores energéticos seguros.

Mas não temos isso hoje?

Na parte da energia sim, em outras partes temos menos. No monitoramento do desmatamento, por exemplo, que afeta o bioma amazônico, que afeta o regime de chuvas, o acompanhamento oficial acaba gerando dúvidas sobre o que está de fato acontecendo. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, INPE, é sim adequado, mas precisa ser fortalecido. E tem de ter independência, para dar opiniões e informações à sociedade com independência.

A propósito, o que você pensa da privatização da Eletrobras? Ela foi privatizada e caminhou a passos largos para produtividade, retorno do investimento.

Acho que seria positiva. Quando comparamos as empresas estatais e as privadas, estas têm muito mais capacidade de investimento, mais estímulo à inovação. Uma estatal pode funcionar bem? Pode. Um exemplo é a Sabesp. Mas, no geral, as privadas têm maior capacidade para investir – e se tem coisa de que precisamos na infraestrutura brasileira é de investimento. Veja só, investe-se hoje em infraestrutura uns 2% do PIB, muito abaixo do necessário, que seriam uns 4%. E estamos abaixo do que já tivemos nos anos 1970, que era acima dos 5%. Então falta tudo, falta rodovia, ferrovia, porto, armazenamento, energia. E a Eletrobras em mãos privadas pode investir mais, inovar mais.

Acredita que, ainda neste governo, será possível avançar nessa privatização?

Houve avanço, no sentido de aprovação pelo Congresso do projeto de privatização. Mas, infelizmente, foram incluídos pontos que nada têm a ver com o projeto e que são absolutamente questionáveis. Nada a ver com Eletrobras do ponto de vista da eficiência. Podia ter sido melhor.

 

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