Oriente Médio está ficando sem água e parte dele se tornando inabitável

Portal Saneamento Básico
23/08/2021

As balsas que antes transportavam turistas para as ilhas do Lago Urmia, localizado no Irã, estão enferrujadas e incapazes de se mover. O local está se tornando uma planície de sal.

Clima quente e água cada vez mais escassa podem gerar uma mudança nos alimentos que os produtores do Oriente Médio cultivam e exportam.

Há duas décadas, Urmia era o maior lago do Oriente Médio e sua economia local um próspero centro turístico de hotéis e restaurantes.

“As pessoas vinham aqui para nadar e usavam a lama para fins terapêuticos. Elas ficavam aqui pelo menos por alguns dias”, disse Ahad Ahmed, jornalista da antiga cidade portuária de Sharafkhaneh, à CNN, enquanto mostrava fotos de pessoas aproveitando o lago em 1995.

O desaparecimento do Lago Urmia foi rápido. Seu tamanho caiu para mais da metade — de 5.400 quilômetros quadrados na década de 1990 para apenas 2.500 quilômetros quadrados hoje —, segundo o Departamento de Proteção Ambiental do Oeste do Azerbaijão, uma das províncias iranianas onde o lago está localizado. Agora existem preocupações de que ele desapareça completamente.

Esses problemas são familiares em muitas partes do Oriente Médio — onde a água simplesmente está acabando.

A região tem testemunhado secas persistentes e temperaturas tão altas que mal se adaptam à vida humana. Além disso, a mudança climática, o mau gerenciamento e uso excessivo da água são fatores que colaboram com a crise. Também não há muitas projeções para o futuro da água ou de sua utilização na região.

Em entrevista à CNN, Charles Iceland, diretor global de água do World Resources Institute (WRI) contou que alguns países do Oriente Médio, incluindo Irã, Iraque e Jordânia, estão bombeando grandes quantidades de água do solo para irrigação enquanto buscam melhorar sua autossuficiência alimentar. De acordo com ele, isso está acontecendo à medida que experimentam uma diminuição nas chuvas.

“Eles estão usando mais água do que o disponível rotineiramente pela chuva. E assim os níveis do lençol freático estão consequentemente caindo porque você está retirando a água mais rápido do que está sendo reposta pela chuva”, disse ele.

É o que está acontecendo no Irã, onde uma vasta rede de barragens sustenta um setor agrícola que bebe cerca de 90% da água que o país usa.

“Tanto o declínio das chuvas quanto o aumento da demanda nesses países estão causando o ressecamento de muitos rios, lagos e pântanos”, disse Iceland.

Escassez de Água

As consequências da água se tornar ainda mais escassa são terríveis. Áreas podem se tornar inabitáveis, as tensões sobre como compartilhar e gerenciar os recursos hídricos, como rios e lagos, podem piorar e, no âmbito político-social, a violência poderia explodir.

Em julho, pelo menos três manifestantes foram mortos em confrontos com agentes de segurança em manifestações contra a escassez de água no sudoeste do país.

No Irã, o Lago Urmia encolheu em grande parte porque há muita exploração de recursos, como algumas das represas construídas em sua bacia principalmente para irrigação. Elas reduziram o fluxo de água para o lago, por exemplo. O país vive uma das condições mais secas em cinco décadas, de acordo com o serviço meteorológico do país.

De acordo com as últimas projeções de cientistas publicadas no início deste mês pelo relatório da ONU sobre mudanças climáticas, o Intergovernmental Panel for Climate Change, os invernos do Oriente Médio ficarão mais secos à medida que o mundo aquece e, embora os verões sejam mais úmidos, o calor intenso deve anular os ganhos de água.

“O problema é que, com todo esse aumento de temperatura, qualquer chuva que vier vai evaporar porque está muito quente”, disse Mansour Almazroui, diretor do Centro de Excelência para Pesquisa de Mudanças Climáticas da Universidade King Abdulaziz da Arábia Saudita, à CNN.

“A outra coisa é que essa chuva não será necessariamente uma chuva normal. Haverá chuvas extremas, o que significa que inundações como as que estão acontecendo na China, na Alemanha, na Bélgica, essas inundações serão um grande problema para o Oriente Médio. Este é realmente um grande problema de mudança climática”.

Água salgada demais

Um estudo do Ministério de Energia iraniano descobriu que o desaparecimento do lago foi mais de 30% atribuível à mudança climática. Essas mudanças não afetam apenas a quantidade de água disponível, mas também a qualidade.

O Lago Urmia é hipersalino, ou seja, muito salgado. À medida que encolheu, a concentração de sal aumentou e se tornou tão extrema que usá-lo para irrigação está prejudicando as lavouras dos agricultores.

Kiomars Poujebeli, que cultiva tomates, girassóis, beterraba sacarina, berinjela e nozes perto do lago, disse à CNN que a água salgada tem sido desastrosa. “O dia em que o solo se tornará impossível de cultivar não está longe”, disse ele.

Um ciclo vicioso

Na Jordânia, um dos países com maior estresse hídrico do mundo, as pessoas se acostumaram a viver com muito pouca água.

Um estudo publicado no Proceedings of the National Academy of Sciences mostrou que os jordanianos terão que reduzir pela metade seu uso per capita de água até o final do século. A maioria dos jordanianos de baixa renda viverá com 40 litros por dia, para todas as suas necessidades — beber, tomar banho e lavar roupas e pratos, por exemplo. Na América, em média, hoje usa-se cerca de 10 vezes essa quantia.

Em muitas casas jordanianas, a água não está necessariamente disponível todos os dias, disse Daniel Rosenfeld, professor do Programa de Ciências Atmosféricas da Universidade Hebraica de Jerusalém.

“A Jordânia agora tem uma escassez crítica de água — a água chega às casas na Jordânia uma ou duas vezes por semana, mesmo na capital Amã”, afirmou. “A capital, na verdade, já tem problemas existenciais”, ressaltou Rosenfeld. 

Centro do estresse hídrico mundial

Os níveis de água subterrânea em partes do país estão caindo bem mais de um metro por ano, mostram os estudos, e ondas de refugiados de muitos países da região colocaram pressão extra sobre o recurso já estressado.

O secretário-geral da Autoridade de Água da Jordânia, Bashar Batayneh, disse à CNN que o país precisa de mais financiamento do resto do mundo para lidar com o aumento da demanda por água.

“A Jordânia suportou o pesado fardo da crise dos refugiados sírios em nome da comunidade internacional e foi profundamente afetada em relação à água. Os refugiados custam ao setor de água mais de US$ 600 milhões por ano, enquanto a Jordânia recebe uma fração desse valor da comunidade internacional”, disse ele.

Segundo ele, a Jordânia teve muito menos chuva em 2020 do que no ano anterior, colocando mais de um quarto dos recursos hídricos em risco e reduzindo pela metade as fontes de água potável.

Mas não é só a mudança climática. O país depende do sistema do rio Jordão, que também atravessa Israel, Cisjordânia, Síria e Líbano, e a construção de barragens ao longo dos rios cortou severamente o fluxo de água para a Jordânia. A Jordânia também usa canais para redirecionar as águas do rio para irrigação. O conflito estourou várias vezes em torno do sistema fluvial no passado.

É um problema transfronteiriço também visto em outras partes da região ao longo dos rios Tigre e Eufrates, bem como no norte da África ao longo do Nilo.

Jordânia, Israel e Síria ficaram melhores na coordenação do gerenciamento do sistema fluvial do qual dependem, mas as tensões frequentemente explodem. Os especialistas há muito alertam que a escassez de água agravada pela mudança climática pode levar a mais conflitos.

Compra de água e mudança na alimentação

Por isso, a Jordânia se vê obrigada a comprar grandes quantidades de água de Israel, que tem um enorme programa de dessalinização, onde remove o sal da água do mar para torná-la própria para consumo humano. Mas esse processo consome muita energia — usando grandes quantidades de energia que ainda não é renovável e só contribui para o aquecimento global, um dos principais impulsionadores da escassez de água em primeiro lugar.

Com o clima quente e a água cada vez mais escassa, parte da solução no Oriente Médio será a redução do uso de água na agricultura, o que pode significar uma mudança nos alimentos que os produtores cultivam e exportam, disse Rosenfeld.

“Em Israel, por exemplo, costumávamos cultivar muitas laranjas, mas em algum momento, percebemos que estamos exportando água que não temos”, disse ele, acrescentando que as safras também poderiam ser projetadas para serem mais resistentes ao calor e à secura.

Almazroui, da Universidade King Abdulaziz, disse que as barragens poderiam ser melhor organizadas para considerar a mudança dos padrões de chuva. A coordenação na gestão dos rios que fluem entre os países também precisa melhorar.

Mas isso não vai ajudar um agricultor cuja família é dona de terras há gerações e não pode necessariamente se mudar para climas mais úmidos, ou tem pouco controle sobre onde um país vizinho pode construir uma barragem.

Produção de frutas pela metade

Raad al-Tamami, 54, pai de cinco filhos que mora na província de Diyala, a nordeste de Bagdá, usa o rio Diyal, um afluente do rio Tigre, para obter água. O Diyal está secando há anos e forçou al-Tamami a reduzir pela metade sua produção de frutas em suas três fazendas.

Ele e seus colegas fazendeiros estão trabalhando em um cronograma de racionamento de água e ele às vezes espera até um mês pela chegada da água.

Essa dependência de mais água para garantir a segurança alimentar poderia ironicamente colocar em risco a disponibilidade de alimentos — os agricultores só vão continuar a cultivar nessas condições difíceis por muito tempo. Isso é o que atormenta a mente de al-Tamami o tempo todo.

“Muitos agricultores, inclusive eu, estão pensando seriamente em deixar essa profissão, que é herdada do pai, do avô, e começar a procurar empregos mais lucrativos que garantam um futuro melhor para nossos filhos”.

Fonte: CNN.

 

 

 

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