Opinião: Renovável, reciclável, responsável

O Estado de S.Paulo

Roberto Giannetti da Fonseca* – Artigo de Opinião

02 de novembro de 2021

Se alguém desse um zoom sobre o Século XX e o primeiro quartil do século XXI poderia classificar este sombrio período da história da Humanidade como a Era da Barbarie Ambiental. A destruição do planeta Terra teve nestes últimos 125 anos uma aceleração exponencial. Poluímos como nunca antes em milênios anteriores, nossos rios e oceanos, destruímos muitas florestas e biomas, contaminamos a atmosfera do planeta com os combustíveis fósseis, e seguimos conspirando contra as próximas gerações que encontrarão pela frente uma Terra quase arrasada. Que vergonha meus contemporâneos! Como fomos capazes de tamanha destruição?

Sob o ponto de vista de um economista, julgo que o que nos levou a esta inaceitável catástrofe ambiental foi um sistema de preços deficiente, que além de ter admitido por muitas décadas subsídios irresponsáveis para os combustíveis fósseis, não considerou na sua formulação os custos sociais indiretos e as chamadas externalidades adversas da matriz energética baseada em petróleo e carvão mineral. Todos agentes econômicos numa sociedade têm o potencial de gerar custos adversos a outrem. Se tais custos não forem imputados na formação dos preços dos produtos ao mercado, ocorrerá um subsídio implícito a esses produtos, estimulando seu consumo e agravando-se os custos que serão assumidos coletivamente pela sociedade. Na economia baseada no uso extensivo de combustíveis fósseis isto hoje se torna evidente, apesar de ainda ocorrer na maioria dos países.

Lembro-me como se fosse hoje quando ainda adolescente li assustado nos anos 60 o alarmante relatório do Clube de Roma. Para os leitores mais jovens, cabe destacar que o relatório, que ficaria conhecido como Relatório do Clube de Roma ou Relatório Meadows, tratava de problemas cruciais para o futuro desenvolvimento da humanidade tais como energia, poluição , saneamento, saúde, ambiente, tecnologia e crescimento populacional. Ao ser publicado vendeu mais de 30 milhões de cópias em 30 idiomas, tornando-se o livro sobre meio ambiente mais vendido da história. Ali nos bancos universitários comecei a refletir com mais atenção sobre a inconsistência da sociedade de consumo, de desperdício, e de poluição, tal qual a criamos na primeira metade do século XX após duas Guerras Mundiais que foram devastadoras para muitos povos e continentes.

Acontece que muitas das previsões do Clube de Roma sobre a futura escassez de recursos naturais e de alimentos diante de um crescimento populacional acelerado, não se concretizaram por conta dos avanços tecnológicos na agricultura e na mineração, como também de um ritmo bem inferior do crescimento da população mundial. Isto de certa forma sancionou para muitos países a continuidade do insustentável modelo econômico consumista e poluidor por mais de 50 anos, e agora aqui estamos em 2021 ainda observando com inadmissível tolerância a destruição do meio ambiente de nosso planeta.

Mas parece que agora finalmente observamos novos avanços, tanto no comportamento social das novas gerações, como na ciência e na inovação tecnológica que nos permitem um certo otimismo sobre o futuro próximo. A Era da Responsabilidade Ambiental, das energias renováveis, da reciclagem de resíduos sólidos, do uso do hidrogênio verde na indústria, no transporte de cargas, e na mobilidade urbana, parece estar no seu limiar. As soluções técnicas já são conhecidas e podem ser utilizadas de pronto, desde que devidamente estimuladas pela adoção de um sistema de preços relativos que leve em conta as tais externalidades negativas das fontes poluidoras e as positivas que devem ser atribuídas às fontes descarbonizadas que venham a gerar créditos de carbono aos seus empreendedores.

Temos um momento especial para a história da humanidade na Cop26 que ora se realiza em Glasgow na Escócia. Sou otimista em relação a mudança do comportamento humano diante da ameaça das mudanças climáticas que já se fazem sentir ao redor do mundo. Por exemplo, por que não anteciparmos a transição energética para carbono zero até 2030 ou 2035 no máximo? Isto seria possível se os líderes mundiais tomassem as medidas necessárias para tal, estimulando a substituição de energia térmica a carvão e petróleo por energia eólica, solar, e hidráulica. Como também estimulando em escala mais acelerada a substituição pela indústria automotiva dos motores a gasolina e diesel por motores híbridos elétricos e a hidrogênio verde.

Nesta pauta não poderia faltar a universalização do saneamento básico, especialmente nas grandes áreas metropolitanas, a requalificação dos oceanos, dos rios e reservatórios hídricos hoje poluídos, o tratamento extensivo dos resíduos sólidos, a reciclagem de metais, plásticos, e papel, entre outras tarefas gigantescas que devem ser realizadas. Ainda temos tempo e oportunidade para resgatar muito dos erros cometidos na pauta ambiental e melhorarmos as condições de vida e mesmo de preservação da humanidade. Vamos fazer de 2022 o ano da virada de ciclo. Da finda Era da Barbarie Ambiental para a nascente Era da Economia Renovavel, Reciclável, Responsável.

*Roberto Giannetti da Fonseca, economista e empresário, presidente do Lide Energia

 

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