Mudança climática agrava escassez de água pelo mundo

Valor Econômico

Por Assis Moreira — De Genebra

03/11/2021 

Coalizão internacional defende ação urgente; setor, de US$ 655 bi, pode atrair investidores

 

A mudança climática está exacerbando tanto a escassez quanto os perigos relacionados à água. Atualmente, 3,6 bilhões de pessoas enfrentam um acesso inadequado à água pelo menos um mês por ano e o número de pessoas nessa situação pode aumentar para mais de 5 bilhões até 2050.

Com essas cifras, líderes da “Coalizão Água e Clima”’ na Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP26) lançaram hoje um apelo urgente para uma ação integrada da água e do clima para substituir a abordagem fragmentada no enfrentamento de uma crise já existente.

O setor financeiro já aposta no setor. O banco suíço UBS publica que o valor do mercado de água alcança US$ 655 bilhões. Os serviços de água (utilities) representam 29% do total. Os restantes 71% incluem provedores de equipamentos para exploração, distribuição, tratamento da água.

Somente 0,5% da água na Terra é utilizável e disponível como água doce. Mas, nos últimos 20 anos, o armazenamento de água terrestre – toda a água na superfície da terra e no subsolo, incluindo a umidade do solo, neve e gelo – caiu a uma taxa de 1 cm por ano. Isso tem enormes ramificações para a segurança futura da água, dado o aumento da população e a degradação ambiental, segundo especialistas.

Vários países enfrentam crescentes problemas de escassez, enquanto outros têm superabundância. O desequilíbrio no fornecimento é enorme na China e Índia. Embora ambos estejam entre os 10 países com maiores recursos renováveis de água, a realidade em termos per capita são totalmente diferentes. A distribuição de água é muito desigual, com bom acesso na região sul mas com problemas em províncias do norte, por exemplo.

A escassez de água na África do Sul levou o governo a impor limite no seu uso a 50 litros por pessoa em fevereiro de 2018 na Cidade do Cabo. As estimativas são de que a Cidade do Cabo e Melbourne podem ter declínio de água fresca de 30% a 50%, e a situação poderá ser mesmo pior em Santiago do Chile, até 2050.

O aquecimento do planeta não é a única causa da crise. O consumo mundial explode. Nos últimos 100 anos, o consumo aumentou num ritmo duas vezes mais rápido do que o crescimento demográfico, e continua a aumentar em razão do desenvolvimento económico e novos usos da água. E a poluição maciça do lençol freático e dos rios agrava a situação.

A agricultura é de longe a maior consumidora, usando 69% da água doce do planeta. A necessidade de água é enorme para produzir carne bovina e cereais. São necessários 15 mil litros de água para produção de um quilo de carne bovina, segundo estudo citado pelo UBS. Uma dieta contendo 20% de carne quase triplica o montante de água usada por uma pessoa.

O secretário-geral da Organização Mundial de Meteorologia (OMM), Petteri Taalas, alertou que o aumento das temperaturas causa mudanças nos padrões de precipitação e estações agrícolas, com um grande impacto na segurança alimentar e na saúde e bem-estar humanos. “Neste último ano, houve uma continuação de eventos extremos, relacionados à água, que mataram centenas, deslocaram milhares e afetaram milhões”, disse ele.

Nos trópicos, a desertificação diminui a produtividade das colheitas e pode ampliar a volatilidade já grande dos preços de alimentos, por exemplo.

Em Glasgow, vários líderes alertaram para sua situação nacional.

“Nossas geleiras estão derretendo rapidamente e até hoje mais de 1.000 das 14.000 geleiras do Tadjiquistão derreteram completamente. Nas últimas décadas, o volume total das geleiras em nosso país, que constituem mais de 60% dos recursos hídricos da região da Ásia Central, diminuiu em quase um terço”, disse Emomali Rahmon, Presidente do Tajiquistão, segundo relato fornecido pela OMM.

Para regiões de alta montanha como a Ásia Central, os Himalaias e os Andes, o derretimento das geleiras aumenta o risco de deslizamentos de terra e avalanches.

“A mudança climática está acontecendo agora e está comprometendo a paz, a segurança, a biodiversidade e o desenvolvimento sustentável global”, afirmou Barbara Visser, ministra da Infraestrutura e Gestão da Água da Holanda.

Dez agências internacionais se uniram para emitir um apelo urgente por ação internacional, incluindo o setor privado.

 

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