Mercado de soluções verdes ganha potência

Valor Econômico

Por Andrea Vialli

29/10/2021

Conceito de SBN abre oportunidades de negócios de restauração natural de ecossistemas

A criação da Floresta da Tijuca e seu reflorestamento, no Rio de Janeiro do século XIX, foram uma resposta de D. Pedro II à grave crise de abastecimento de água na cidade na ocasião. Devastada pelo corte de madeiras nobres e pela expansão das lavouras de café, a mata precisou ser restaurada, em um processo que durou 13 anos e envolveu a desapropriação de terras o plantio estimado de mais de 100 mil árvores, concentrado em áreas de nascentes. Essa foi, provavelmente, a primeira vez que o Brasil adotou uma Solução Baseada na Natureza (SBN), conceito cunhado pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês) que inclui abordagens para a restauração e conservação de ecossistemas, infraestrutura natural e adaptação climática, entre outros.

Com elas, busca-se maneiras de trabalhar de forma conjunta com os ecossistemas, sem a dependência apenas de soluções convencionais de engenharia. Embora conceitualmente novas, essas estratégias já vêm sendo empregadas há décadas por governos e empresas, e têm sido apontadas como tendência que deve ganhar maior destaque a partir da COP26, dada a intersecção com a questão climática, a perda da biodiversidade e a escassez hídrica.

As SBN representam uma oportunidade de criação de negócios para o Brasil, que precisa recuperar áreas degradadas tanto em nível local quanto nacional. Os compromissos assumidos pelo país no âmbito do Acordo de Paris, por exemplo, falam na restauração de 12 milhões de hectares de áreas desmatadas até 2030, mas menos de 1% disso foi alcançado até este ano, segundo a plataforma Observatório da Restauração e Reflorestamento, da Coalização Brasil Clima, Florestas e Agricultura.

O país representa, sozinho, 20% do potencial global não explorado em SBN combinadas com tecnologias para redução das emissões de gases de efeito estufa, segundo estudo do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS). Em torno de 63% do potencial do Brasil vem da conservação, 21% do reflorestamento, 14% da agropecuária, 1% do manejo de florestas naturais e 1% na conservação de áreas úmidas. “Se esses instrumentos forem viabilizados, podem gerar negócios de até US$ 17 bilhões até 2030, mas precisam ser implementados logo, ao longo dos próximos dez a 15 anos”, afirma Henrique Luz, coordenador da Câmara Temática da Biodiversidade do CEBDS. É esperado que a COP26 traga impulso e perspectivas de financiamento para essas soluções, na visão de Luz.

As SBN também podem contribuir para abrandar a crise hídrica e energética no país e agilizar o cumprimento do ODS6 (Objetivo de Desenvolvimento Sustentável), que trata da universalização do acesso a água e saneamento. A Rede Brasil do Pacto Global da ONU construiu, em outubro, uma declaração em que aponta as SBN como parte do arsenal do qual o Brasil terá de dispor para alcançar a resiliência dos recursos hídricos. “Precisamos discutir como ter resiliência hídrica em um futuro incerto, também para as empresas”, diz Carlo Pereira, diretor executivo do Pacto Global da ONU.

No campo, a busca por estratégias produtivas que tenham relação com as SBN ganha espaço. Um exemplo é a Pretaterra, empresa especializada no desenvolvimento de sistemas agroflorestais (que permitem a coexistência de culturas agrícolas e vegetação nativa). Fundada em 2016 pelos engenheiros florestais Paula Costa e Valter Ziantoni, a Pretaterra desenvolveu uma metodologia para replicar designs de produção agroflorestal regenerativa, que combina informações científicas, conhecimento empírico e de populações tradicionais. No último ano, a demanda disparou. “Hoje a demanda vem de empresas pequenas e grandes, investidores e de ONGs”, afirma Ziantoni. Segundo ele, muitas empresas incluem o fomento a sistemas de produção regenerativos alinhado à estratégia de redução das emissões de carbono.

Outra motivação é geracional, afirma Costa – filhos de produtores rurais que querem adotar práticas regenerativas e de impacto ambiental reduzido nas fazendas. “Os mais jovens que estão assumindo a gestão da propriedade rural da família, por exemplo, buscam uma nova forma de produção, com menor impacto ambiental, e veem na agrofloresta parte da solução”, explica. Desde sua fundação, a Pretaterra restaurou 500 hectares com sistemas agroflorestais, com 500 mil árvores plantadas e envolvimento direto de mais de cem famílias.

Embora menos disseminado, outro ramo de incorporação das soluções baseadas na natureza é na indústria. A multinacional de nutrição humana e animal DSM desenvolveu suplementos nutricionais de ômega 3 produzidos 100% com algas marinhas naturais e não transgênicas, em substituição ao uso de peixes na fabricação. O produto voltado para nutrição animal, especialmente para o cultivo em cativeiro de salmão, é um óleo à base de algas com alta concentração (em torno de 50%) de ácidos graxos; para a nutrição humana, as algas serviram de base para um suplemento de ômega 3, que também não utiliza peixes em sua produção.

“A inspiração na natureza não poderia ser mais simples, pois peixes comem algas e produzem os ácidos graxos. O diferencial foi desenvolver uma tecnologia de fermentação que gerasse alto teor de ômega 3”, afirma Luiz Fernando Magalhães, vice-presidente de nutrição e saúde animal da DSM América.

Substituir peixes por algas diminui o impacto ambiental da produção desses suplementos, reduzindo a pressão sobre os estoques pesqueiros. Nos últimos 50 anos, o consumo global de frutos do mar mais que dobrou, saltando de 9 kg per capita em 1961 para 20 kg per capita hoje, de acordo com a FAO.

 

AESBE - Associação Brasileira das Empresas Estaduais de Saneamento

SCS - Quadra 01 - Bloco H - Edifício Morro Vermelho - 16º andar - CEP: 70399-900 - Brasília-DF - Tel/Fax.: 55 61 3022-9600

Fazer login com suas credenciais

Esqueceu sua senha?