Maior demanda por petróleo e gás puxa preços e gera temor de crise

Valor Econômico
Por Gabriela Ruddy e Olívia Bulla
29/09/2021

 Alta no consumo de gás natural sobe na Europa, Estados Unidos e China poderá ser compensado com mais oferta da Opep+

 O temor de que a crescente demanda por gás e petróleo no mundo provoque uma crise energética global ganhou força ontem diante da disparada dos preços das commodities para níveis não vistos há mais de três anos. Com o avanço da vacinação contra a covid-19, houve um aumento acima do esperado no consumo não só de gás mas também de petróleo e derivados na Europa, Estados Unidos e China, o que puxou para cima os preços das commodities e levanta o receio de que surjam gargalos que comprometam a capacidade de produção das grandes economias e, como consequência, gerem inflação e inibam o crescimento global.

Ontem, os preços dos contratos futuros de gás natural fecharam a US$ 5,841 por milhão de unidades térmicas (BTU), alta de 2,4% e maior nível desde fevereiro de 2014. O barril de petróleo tipo Brent, referência global, ultrapassou a marca de US$ 80 ao longo do dia, maior nível em três anos, e fechou pregão cotado a US$ 79,09, queda de 0,55%.

Especialistas dizem que a pressão sobre os preços do petróleo e do gás natural tem razões econômicas, geopolíticas e ambientais. O cenário afeta o Brasil e levou a Petrobras a aumentar ontem os preços de venda do diesel aos distribuidores em 8,9%.

Para o chefe de pesquisas para o “upstream” (exploração e produção) da consultoria Wood Mackenzie na América Latina, Marcelo de Assis, apesar da instabilidade recente, não há riscos de a produção global de petróleo e gás deixar de atender à demanda, uma vez que ainda há espaço para aumento da oferta global. Isso porque parte da produção da Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados (Opep+) segue restrita.

O cartel e países aliados concordaram, em abril de 2020, em cortar a produção em cerca de 10 milhões de barris por dia, em reação ao colapso no consumo na pandemia. O grupo vem flexibilizando os cortes e deve ter reunião nos próximos dias sobre novos relaxamentos. “Deve ocorrer pressão americana e, talvez, chinesa, sobre a Opep para aumento da produção de modo a estabilizar ou baixar os preços do petróleo”, disse Assis.

Uma das razões que têm puxado a alta dos preços do petróleo e do gás é o maior consumo de gás natural liquefeito (GNL) em diversas regiões do mundo, incluindo o Brasil, para suprir usinas termelétricas. O cenário se relaciona à transição para uma economia de baixo carbono e mudanças do clima. O aumento da geração termelétrica em diversas regiões do mundo ocorre depois da ampliação da capacidade instalada de geração de energia renovável, que produz abaixo do previsto. Enquanto no Brasil as dificuldades vêm das hidrelétricas, que estão com os reservatórios baixos em meio à maior seca em 91 anos, na Europa as usinas eólicas sofrem com um menor volume de ventos.

Para o chefe de estratégia de commodities da Liberum Capital, Tom Price, o salto nos preços do gás natural na Europa reflete também a queda no fornecimento de carvão na Ásia, uma vez que os geradores de energia são alternados entre gás e carvão.

Além disso, a redução na exportação de gás da Rússia para a Europa também afeta o continente. A Gazprom, estatal russa, tem restringido vendas complementares de gás para os europeus, em um momento em que o Kremlin pressiona para a provação do início do funcionamento do gasoduto Norde Stream 2, que conecta a Rússia à Alemanha. Nesse contexto, os estoques de gás natural na Europa caíram e chegaram a um volume de 72% esta semana, depois de alcançarem 94% em igual período em 2020, segundo dados da consultoria S&P Global Platts.

No caso da China, a pressão de Pequim para reduzir a poluição no ar antes das Olimpíadas de Inverno no ano que vem também levou a um aumento do uso do gás natural, principalmente liquefeito. “O racionamento de energia pode ser parcialmente devido às tentativas dos governos locais de atingir as metas para o ano”, avalia a analista do Neican, Yun Jiang.

Ela afirmou que, há um ano, na Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), o presidente chinês Xi Jinping anunciou que a China tem como objetivo atingir o pico das emissões de carbono antes de 2030 e a neutralidade de carbono até 2060. “Na semana passada, no mesmo fórum, Xi também se comprometeu a não construir novos projetos de energia a carvão no exterior, ressaltando o compromisso da China com mais ações sobre mudança climática”, disse a analista.

Para o estrategista sênior global do Rabobank, Michael Every, a crise pode afastar o planeta das metas sustentáveis de 2030: “A não ser que a energia verde seja colocada em operação muito mais rapidamente [onde pode ser] ou a demanda seja cortada criando uma recessão [econômica]”, disse em relatório, referindo-se aos objetivos de desenvolvimento sustentável da Agenda 2030 da ONU.

O cenário de ampliação da demanda global por gás ocorre logo depois da queda dos preços de 2020, quando começou a pandemia. “Vários projetos foram adiados e isso está afetando o fornecimento de GNL. O gás natural é uma commodity regional, mas certamente há pressão de alta nos preços em todo o mundo”, diz o analista sênior da Bloomberg Intelligence, Fernando Valle.

Além disso, a produção nos Estados Unidos sofreu uma mudança depois da crise do ano passado, apontam especialistas. Agora, os produtores das áreas de reservas não convencionais (shale gas) reduziram a rapidez com que ampliam a produção de gás quando há aumento da demanda.

O coordenador-técnico do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo (Ineep), Rodrigo Leão, não vê uma grande queda nos preços: “A Opep deve fazer um relaxamento nas restrições à produção, mas no sentido de atender a demanda e manter os preços num patamar relativamente alto. Acho que vamos ver mais alguns meses de instabilidade nos preços e na relação entre oferta e demanda”, afirma.

 

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