Investidor dobra pessimismo com economia no fim de 2022

Empresas criticam ação do governo contra inflação e crise hídrica

Por Daniel Rittner — De Brasília
19/10/2021 05h01  Atualizado 19/10/2021

Investidores na área de infraestrutura têm uma avaliação predominantemente negativa das perspectivas de crescimento econômico do país na reta final do governo Jair Bolsonaro. Esse sentimento foi detectado na sexta edição de pesquisa semestral da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), em parceria com a EY Brasil (antiga Ernst & Young), realizada dos dias 20 de setembro a 1º de outubro com 167 gestores de investimentos e especialistas que apoiam estruturação de projetos.

O barômetro da infraestrutura indica que 40,1% deles têm uma visão pessimista de como estará a economia no fim de 2022. Trata-se de quase o dobro do índice verificado na pesquisa anterior (22,3%), divulgada em maio, e do mais alto em todas as edições. Já a proporção dos que se dizem otimistas com as perspectivas econômicas no fim do mandato presidencial caiu de 34,9% para 23,4%.

Também encolheu – de 41,7% para 35,9% – a fatia dos entrevistados que enxergam o cenário como estável. Os demais não souberam ou não quiseram responder. As causas para o aumento do pessimismo não foram apontadas na pesquisa, que será divulgada nesta semana e foi obtida pelo Valor.

No entanto, quando questionados especificamente sobre a escalada inflacionária e a crise hídrica, os gestores e especialistas deixam clara sua apreensão. Eles afirmam que é alto (50,3%) ou médio (38,3%) o impacto da inflação sobre suas próprias empresas. A maioria acha que o governo tem administrado as atuais pressões nos índices de preços de forma inadequada (58,1%) ou parcialmente inadequada (33,5%).

Esta é a 28ª semana seguida em que analistas de mercado ouvidos pela pesquisa Focus, do Banco Central, elevam as estimativas de inflação para 2021. O mercado vê o IPCA em 8,69% – acima da meta, de 3,75% (com intervalo de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos). Para 2022, a projeção no Focus é de 4,18% – a meta do ano é de 3,5%.

Já a crise hídrica, que tem aumentado o custo do fornecimento de energia, foi citada como responsável por impacto alto (26,4%) ou médio (33,5%) sobre as próprias empresas dos entrevistados. A maioria avalia que o governo lida com a crise de forma inadequada (55,1%) ou parcialmente inadequada (35,3%).

É preciso ponderar, contudo, que a pesquisa foi realizada antes das chuvas nas duas últimas semanas. Embora os reservatórios da região Sudeste/Centro-Oeste ainda estejam abaixo do patamar registrado em 2001, quando o país teve um racionamento de energia, o volume armazenado parou de cair e está acima hoje das previsões do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) para o fim de setembro, auge da estiagem. Mesmo assim, dependendo da quantidade de chuva até o fim do verão, os riscos continuarão em 2022.

O presidente da Abdib, Venilton Tadini, destacou que a pesquisa também oferece aspectos mais encorajadores. “A perspectiva de geração de empregos na infraestrutura continua bastante positiva, bem como é positiva a promoção de investimentos no nosso setor. A agenda legislativa tem avançado, por mais que falte aprovar projetos importantes.”

No entanto, ele acrescentou: “Do ponto de vista macroeconômico, infelizmente, continuamos com uma grande nuvem de incerteza para 2022, dadas as perspectivas de aumento dos juros, desvalorização cambial, elevado desemprego e inflação, fatores que se somam a um ambiente eleitoral muito incerto”.

O levantamento mostra que 43,1% dos respondentes veem cenário favorável para a contratação de novos empregados em suas empresas e 44,9% crêm na mesma tendência em relação ao mercado como um todo. Em ambos os casos, trata-se dos maiores índices das seis edições. O controle da pandemia e o início da execução de contratos de grande porte são citados como fatores.

Para o consultor Adalberto Vasconcelos, CEO da ASV Infra Partners e ex-secretário do Programa de Parcerias de Investimentos, os investidores – principalmente estrangeiros ainda sem ativos no Brasil – estão cautelosos quanto à possibilidade de participar dos novos leilões de infraestrutura previstos para 2022.

“Investimentos em infraestrutura têm características de retorno do capital investido a longo prazo”, diz Vasconcelos. “Apesar disso, a redução da expectativa de crescimento, a crise hídrica, o aumento da inflação, casos de ausência de neutralidade regulatória em controvérsias de ativos já concedidos e o cenário político indefinido afetam diretamente a atratividade de nossos ativos de infraestrutura a serem licitados no curto prazo.”

 

AESBE - Associação Brasileira das Empresas Estaduais de Saneamento

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