Inflação pressiona resultados do trimestre

Valor Econômico
Por Ana Luiza de Carvalho e Felipe Laurence — De São Paulo
08/11/2021 05h00


Números divulgados até o momento pelas companhias abertas mostram aperto nas margens

A escalada da inflação e dos juros já vem se traduzindo na temporada de balanços do terceiro trimestre, iniciada no fim de outubro, e nas estimativas para os últimos três meses deste ano. Segundo executivos, o repasse do aumento nos custos da cadeia de produção está provocando uma retração do consumo da população, especialmente entre as camadas de menor renda, com impacto direto nas receitas das companhias de vários setores.

O aumento dos custos de matéria-prima pressionou as margens de lucro no período de julho a setembro de parte das empresas que publicaram suas demonstrações financeiras – cerca de 30. A fabricante de calçados Grendene destacou na sua apresentação de resultados do período a alta nos preços da resina de PVC, motivada por fatores como escassez de contêineres e crise energética na China.

O aumento da taxa de juros é outro fator que terá efeito nocivo, principalmente para as mais endividadas.

Uma inflação “mais maligna” nos últimos meses de 2021, por causa da escalada nos preços de alimentos, combustíveis e energia, com impacto nas marcas da empresa mais expostas às classes C e D, é o que espera o diretor de relações com investidores da Grendene, Alceu de Albuquerque, que conversou com analistas durante teleconferência de resultados na semana passada.

A Alpargatas foi outra varejista que chamou a atenção para a pressão de custos.

Roberto Funari, presidente da fabricante da Havaianas, afirmou na divulgação de resultados que a alta nos custos vai gerar deterioração da margem bruta, a diferença entre a receita e os custos. “Não estamos trabalhando com um cenário otimista, e sim com o cenário atual”, disse, a analistas.

Apesar de seu balanço ter sido elogiado pelo mercado, com um robusto volume de vendas, a Ambev e sua controladora, AB InBev, manifestaram preocupação com a alta nos insumos e não descartam novos reajustes nos produtos. “Em países em que mais de um reajuste foi feito no ano, como no Brasil, o que se observou é que a inflação geral acompanhou os aumentos e a demanda continua forte”, disse o presidente da AB InBev, Michel Doukeris, ao analisar os resultados.

A Ambev trabalha com um cenário onde a pressão nas margens deve continuar, disse Lucas Lira, diretor financeiro da empresa, durante teleconferência. Isso porque a perspectiva, segundo a empresa, é de que não haja um recuo expressivo dos custos. Ainda assim, a companhia espera que em 2022 a pressão maior venha das commodities, com o câmbio, fator que pesou neste ano, começando a sair de cena.

Nesse ambiente, a Unidas não pretende abrir mão do repasse de custos. “No aluguel de carros as tarifas estão subindo consistentemente. E estamos repassando os aumentos de custos para as tarifas”, afirmou o diretor-presidente da locadora, Luis Fernando Memória Porto, durante teleconferência. “Não abriremos mão de rentabilidade por nenhum outro critério. Empresas que fizeram alternativas diferentes não estão aqui mais para contar história.”

“Inflação não tem chegado via aumento de demanda, mas sim por custos”, afirmou o diretor comercial do Assaí, Wlamir dos Anjos, durante teleconferência de resultados da rede de atacarejo, que identificou uma aceleração do movimento de troca por produtos mais baratos pelos clientes.
Os sucessivos aumentos de preço no setor de alimentação também impuseram resultados piores ao Grupo Pão de Açúcar, que passou de lucro para prejuízo no trimestre. Fatores macroeconômicos como alta do desemprego e forte inflação, disse o diretor vice-presidente de finanças do GPA, Guillaume Gras, “travaram o desempenho do consumo”.

Setores não essenciais, como varejo discricionário, terão dificuldade de repassar o aumento de custos aos clientes, segundo o analista da Guide Investimentos Rodrigo Crespi. A consequência é conhecida: a queda de poder de compra fará com que essas empresas tenham redução nas margens e resultados ruins.

Mesmo setores considerados prioritários podem chegar a um ponto no qual não vão conseguir mais repassar os preços se a inflação continuar a corroer a renda, diz o gerente de pesquisa da Ativa Investimentos, Pedro Serra.

Nas empresas que atuam na ponta oposta da cadeia de produção, há uma maior flexibilidade no repasse de custos, mesmo com a alta do preço das commodities, em meio à forte demanda por esses insumos básicos. A Klabin, que além da venda de celulose, está presente no mercado de embalagens, diz que a expectativa é de preços estáveis com “algum repasse” da inflação ao longo de 2022.

Na Vale, os custos de inflação no terceiro trimestre em algum momento superaram os 10% na conta anualizada, afirmou Luciano Siani, vice-presidente de finanças, ao comentar os resultados da mineradora. O resultado operacional menor foi influenciado não só pela queda na cotação do minério de ferro no período, mas também pelos custos de frete e extração mais altos que o estimado para o trimestre, destacaram os analistas.

O segmento de siderurgia viu os fortes volumes de aço no último trimestre amenizarem a alta nos custos de insumos. A Gerdau conseguiu manter seus custos em linha, o que garantiu mais um balanço de números fortes. Gustavo Werneck, presidente, disse que os custos em 2022 devem “navegar nos patamares semelhantes aos deste ano”.

Na Petrobras, a alta nos preços do petróleo impulsionou o bom desempenho no segmento de exploração e produção, mas houve uma redução de margens em refino, o que deixou o seu resultado bem próximo ao do segundo trimestre.

Outro setor essencial, o elétrico, também tem flexibilidade no repasse dos custos, uma vez que os contratos são reajustados conforme a inflação e a crise hídrica resultou em uma alta nas tarifas cobradas pelas distribuidoras.
Um efeito destacado pela transmissora ISA Cteep na divulgação de seu resultado foi uma possível alta de preços de materiais e equipamentos, que deve afetar o nível de desconto dos próximos leilões de transmissão.

Além da inflação, a evolução na taxa de juros, com a Selic passando de 2% ao ano em janeiro para 7,75% ao ano na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), também pode começar a bater nos resultados das empresas.

“Empresas que estão muito alavancadas ou tenham estrutura de capital complexa, como concessionárias, podem sentir esses efeitos da alta nos juros em seus resultados financeiros”, diz Rodrigo Crespi, da Guide.

As empresas do setor de construção e incorporação devem ser atingidas nas duas frentes, uma vez que são afetadas tanto pela inflação, elevando os custos na compra de materiais e insumos necessários para seus empreendimentos, quanto pela alta dos juros, que deixa mais caro o financiamento imobiliário e afasta clientes das unidades prontas.

Na alta e média rendas, os lançamentos sobem 41%, enquanto as vendas líquidas caem 22%, estima o BTG Pactual em relatório a clientes. Na baixa renda, a continuidade do programa Casa Verde e Amarela vai representar aumento de 8% nas receitas, mas a limitação no repasse de custos deve fazer com que a margem bruta do segmento caia 2,7 pontos percentuais.

 

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