Impacto do saneamento ainda é subestimado

Valor Econômico

Por Marília de Camargo Cesar

25/10/2021

 

Estudo da Kimberly-Clark mostra que problemas entram em 9º lugar entre maiores preocupações

 

Se alguém pedisse para um brasileiro médio traçar um ranking com as dez questões que mais o preocupam atualmente, os primeiros lugares iriam para: 1) saúde; 2) educação; 3) desemprego e 4) segurança pública. Os problemas causados pela falta de saneamento básico viriam em 9º lugar, atrás de inquietações com o direito dos animais (7º lugar) ou à moradia (8º). Mas se a pergunta fosse: “Quais são os três principais problemas que o Brasil precisaria resolver nos próximos dez anos?”, saúde, educação e desemprego continuariam no topo, e a falta de saneamento básico subiria para 5ª posição.

A Kimberly-Clark, multinacional americana com 150 anos de idade, presente em 175 países, US$ 19,1 bilhões em vendas em 2020, e com marcas conhecidas como Neve, Huggies, Kleenex e Scott, resolveu encomendar uma pesquisa desse tipo para conhecer as percepções dos brasileiros sobre a importância de se ter uma boa infraestrutura de saneamento. As respostas demonstraram, em resumo, que 70% dos entrevistados subestimam o problema; de forma espontânea, 54% definem saneamento básico como acesso a água ou esgoto tratado; 18% dizem que é coleta de lixo. Quando perguntados “para onde vai o esgoto?”, 54% dizem que vai para o centro de tratamento; 16% que vai para o rio e um quarto das pessoas respondem que não sabem se o esgoto da própria casa é tratado.

Realizada pela Grimpa, a pesquisa da K-C ouviu 1.002 pessoas das classes ABC1, de todas as regiões, entre 12 e 18 de agosto.

“Existe ainda uma dissonância de percepção do que realmente é o problema e como ele afeta a saúde das pessoas”, afirma Patrícia Macedo, diretora de marketing da Kimberly-Clark no Brasil.

Hoje, 100 milhões de brasileiros, ou 46% da população, não têm acesso à coleta de esgoto, segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), do Ministério do Desenvolvimento Regional. Em 2019, houve 273 mil internações no sistema público de saúde relacionadas a doenças causadas por água contaminada, como gastroenterite, hepatite infecciosa e cólera.

“O mais impressionante é ver que o saneamento é uma questão quase invisível. Um dos nossos objetivos é provocar debate, para gerar discussão e mais engajamento”, afirma Macedo. Outra conclusão que lhe pareceu relevante do estudo é que 92% dos pesquisados entendem que o setor privado tem uma contribuição a fazer nesse campo. “As empresas têm um papel a fazer, de cobrar as lideranças e gerar engajamento”, afirma. “As respostas mostraram que as pessoas não sabem como se engajar nesse tema e que elas precisam de incentivo para fazer parte desses ecossistemas de transformação.”

Para promover organizações sociais com impacto nessa área, a empresa está lançando esta semana, juntamente com a pesquisa, um crowdfunding cuja meta é levantar R$ 200 mil para iniciativas educativas e focadas em construção de banheiros. A Kimberly-Clark entra com doação inicial de R$ 100 mil.

A ação faz parte do programa global Banheiros Mudam Vidas, que está ativo em 12 países, treinando colaboradores e parceiros, e que já impactou, segundo a empresa, cerca de 5 milhões de pessoas com obras de acesso a saneamento básico e à água potável. Na América Latina, ele começou na Bolívia em 2015, com o nome “Baños cambian vidas”. “A pesquisa de Banheiros Mudam Vidas é importante pois atesta que as pessoas desconhecem essa triste realidade de seu próprio país. Se a população não tem consciência da gravidade da situação, então não dará atenção ao problema e não poderemos evoluir juntos neste sentido”, afirma Roseane Maria Garcia Lopes de Souza, diretora da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (Abes), parceira da K-C.

O programa chegou ao Brasil em 2016, apoiando trabalhos da Unicef na Amazônia legal, beneficiando segundo Macedo, 230 mil pessoas. A K-C já investiu US$ 2,3 milhões nesse projeto na América Latina, sempre utilizando a marca Neve. “Neve é a marca mais lembrada do mercado de papel higiênico, é uma marca icônica, que nos dá legitimidade do ponto de vista do consumidor, nos dá voz para tratar desse assunto.”

Uma das ações foi um edital lançado em 2019, para acelerar startups de empreendedorismo social com foco no desenvolvimento de soluções na área de saneamento básico. “Selecionamos 4 startups e oferecemos capital semente, R$ 50 mil para cada uma, além de seis meses de mentoria.” As escolhidas foram Taboa Engenharia, Biosaneamento, BioMovement, 10Envolver.

Entre as organizações parceiras da K-C no Banheiros Mudam Vidas estão a Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (Abes), Pacto Global das Nações Unidas, Plan International, que trabalha pelo direito das crianças e igualdade para meninas, Redes da Maré, com ações no conjunto de 16 favelas da Maré, no Rio de Janeiro, e Water.org.

Para Carlo Pereira, secretário executivo do Pacto Global da Organização das Nações Unidas, o tema que precisa do comprometimento de todos. “Os governos, claro, têm o seu papel maior, mas empresas também precisam estar engajadas. Por isso iniciativas como “Banheiros Mudam Vida” mostram um caminho e que precisa ser seguido.”

Segundo Pereira, o acesso a saneamento envolve questões pouco debatidas: “A busca pela água é até uma fonte de assédio para mulheres e crianças vulneráveis. Por isso é muito complexa e precisa ser tratada com a urgência que merece.”

 

AESBE - Associação Brasileira das Empresas Estaduais de Saneamento

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