Gasolina atinge maior valor do século nas bombas

 

Valor Econômico

Por André Ramalho e Rafael Rosas — Do Rio

05/11/2021

Alta dos combustíveis pode levar IPCA próximo a 10% no fim do ano

Os preços dos combustíveis voltaram a subir no mercado brasileiro, na semana passada, após o novo reajuste da Petrobras nas refinarias. De acordo com levantamento da Agência Nacional de Petróleo (ANP), o litro do diesel S-10, com menor teor de enxofre, subiu 4,8% em relação à semana anterior, para um valor médio, na bomba, de R$ 5,29. Já o litro da gasolina aumentou 3,15%, para R$ 6,562. Com isso, outubro se tornou o mês mais caro deste século para os consumidores da gasolina. A expectativa é que a pressão inflacionária se acentue ainda mais em novembro, de acordo com analistas.

Depois de uma contração sem precedentes na demanda global por combustíveis em 2020, diante da eclosão da pandemia de covid-19, os preços das commodities começam a refletir a recuperação da economia e vivem uma forte valorização este ano. O consumidor brasileiro tem se deparado com uma inflação geral em todos os combustíveis.

Para os motoristas que abastecem os veículos flex fluel, a gasolina acumula uma alta de 45,3% no ano, nos postos. De acordo com dados da ANP, o derivado atingiu em outubro um preço médio de R$ 6,341, o patamar mais alto deste século, tanto em valores nominais quanto reais (ajustado à inflação), segundo o monitor de preços do Observatório Social da Petrobras (OSP), entidade de pesquisa ligada à Federação Nacional dos Petroleiros (FNP), ao Instituto Brasileiro de Estudos Políticos e Sociais (Ibeps) e ao Instituto Latino-Americano de Estudos Socioeconômicos (Ilaese).

Enquanto isso, o etanol hidratado, principal alternativa ao combustível fóssil, vive uma inflação ainda pior, de 59,3%. A exemplo da gasolina, suscetível às oscilações do petróleo e do câmbio no mercado internacional, o biocombustível também não está alheio às influências da economia global, no caso à dinâmica do mercado de açúcar. O gás natural veicular (GNV), atrelado à dinâmica do mercado de petróleo, por sua vez, acumula um aumento de 33,1% nos postos brasileiros, em 2021.

Já o preço do diesel S-10, derivado com menor teor de enxofre, acumula, no ano, um aumento de 42,3% nas bombas. Em outubro, o valor médio do litro vendido nos postos foi de R$ 5,096, segundo a ANP, valor mais alto desde 2012, quando o produto começou a ser vendido no Brasil, aponta a OSP.

Já o gás liquefeito de petróleo (GLP), o gás de cozinha, acumula uma alta, para o consumidor, de 35,5%. O botijão de 13 quilos (P-13), o mais popular, foi vendido, em outubro, em média, a R$ 100,79 – patamar recorde no século, segundo o OSP.

Na semana passada, a Petrobras aumentou em 7% o diesel nas refinarias, o que representa impacto para o consumidor de R$ 0,24 no litro do derivado, se o reajuste for repassado integralmente pelos demais elos da cadeia. Já a gasolina foi reajustada em 9,15%, com impacto potencial de R$ 0,15 por litro no preço final do combustível. O valor cobrado pela companhia, nas refinarias, responde por 35,5% do preço final da gasolina. No diesel, essa parcela é de 55,8%.

André Braz, economista do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ibre), diz que o impacto da gasolina na bomba pode ficar em 3%. Caso esse reajuste se confirme, haverá um impacto de 0,18 ponto percentual no IPCA de novembro, uma vez que a gasolina compromete 6% do orçamento familiar.

Braz tinha a expectativa de que a taxa de inflação em novembro ficasse na casa de 0,6%. Ou seja, caso nenhuma outra pressão ocorra, o IPCA de novembro poderá vir próximo a 0,8%. Para o ano, ele acredita em um IPCA perto de 9,5%, mas com viés de alta. “É uma pressão inflacionária que faz toda diferença, porque tem impacto grande, direto e deve vigorar ao longo de 2022. Não existe previsão de queda no barril de petróleo ou de nenhuma melhoria no câmbio no Brasil, dada a discussão sobre fontes de financiamento para o governo no ano que vem”, diz Braz.

O economista lembra que o preço futuro dos combustíveis no Brasil depende de duas coisas: da confiança de que o país continuará controlando as despesas, o que tem impacto direto no câmbio; e do aquecimento da economia global e seu efeito nas cotações do petróleo. “Não vejo possibilidade de mudança na trajetória [nos preços do petróleo]. E o cenário de incerteza não contribui para a estabilidade cambial”, afirma.

Braz diz ainda que a economia do país vai colher em dezembro e janeiro parte dos aumentos dos combustíveis de outubro. Porque se a gasolina tem um impacto mais imediato sobre o IPCA de novembro, o efeito do preço do diesel demora mais a chegar ao consumidor e chega por vias como o valor do frete e o preço de bens que usam transporte de carga.

“O impacto do diesel se transmite pela cadeia lentamente”, diz Braz, lembrando dos transportes urbanos. “Isso engrossa o caldo do IPCA de 2022”, frisa.

O economista diz ainda que o setor de energia segue pressionado globalmente, movimento que deve ganhar força com o crescimento da demanda com o inverno no Hemisfério Norte. Com isso, estima, o IPCA pode chegar a 10% no fim do ano, “a depender dos efeitos indiretos”. “Cada mês tem uma coisa a mais que acontece com a inflação. Novembro não tinha nada para pressionar e vieram os combustíveis”, pondera Braz.

 

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