Financiamento e reparação dividem países na COP26

Valor Econômico

Por Daniela Chiaretti — De Berlim

29/10/2021

A COP26 quer garantir que o mundo chegue ao fim do século mantendo o limite de temperatura em 1,5º C, mas há pouco entusiasmo, ausência de líderes e muitas dúvidas quanto aos resultados

A Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima começa no domingo, na Escócia, com muita expectativa e igual dose de pessimismo. No primeiro grande evento internacional desde o início da pandemia não se sabe ao certo o quanto os dois maiores emissores globais de gases-estufa, China e Estados Unidos, irão avançar no tema

Financiamento é ponto de tensão, assim como a reparação dos danos aos países mais afetados pelos impactos da crise ambiental e o formato dos mecanismos de mercado. A COP26 quer garantir que o mundo chegue ao fim do século mantendo o limite de temperatura em 1,5º C, mas há pouco entusiasmo, ausência de líderes e muitas dúvidas quanto aos resultados.

Na segunda-feira o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, disse estar “muito preocupado” com o êxito da conferência, a mais importante desde que o Acordo de Paris foi criado, em 2015.

A declaração aconteceu no mesmo dia em que se tornou público o relatório do plano de financiamento climático dos países desenvolvidos de mobilizar US$ 100 bilhões ao ano, a partir de 2020, aos em desenvolvimento. A promessa não foi cumprida e segundo o relatório preparado por representantes dos governos da Alemanha e do Canadá, só será alcançada em 2023. É a primeira meta da presidência britânica da COP26 que fracassa, antes mesmo de iniciarem as negociações formais.

“O mundo não está olhando para os US$ 100 bilhões, mas para os trilhões que devem mudar de curso e moldar a economia de baixo carbono”, minimizou uma fonte do governo britânico. Na perspectiva dos países em desenvolvimento, o nãocumprimento da promessa das nações ricas quebra a confiança no processo.

A África do Sul, por exemplo, colocou na mesa de discussão uma proposta de que o financiamento climático deva ser de US$ 750 bilhões ao ano a partir de 2025. Não cumprir a meta inicial, de US$ 100 bilhões, não é um ponto de partida promissor para a COP26.

O evento se dá em um momento em que há cerca de 45 mil novos casos diários de covid no Reino Unido. A logística foi complicada, cara e tornou-se uma questão política em função da desigualdade de vacinação entre os países. Delegações de países vulneráveis foram muito reduzidas.

Serão mais de 120 chefes de Estado em Glasgow, mas as ausências são mais notadas do que os que confirmaram presença. O presidente russo, Vladimir Putin, disse que não irá em razão da pandemia. A rainha Elizabeth, também não. O presidente Xi Jinping nunca saiu da China desde o início da crise sanitária e sinaliza que não o fará agora. O presidente Jair Bolsonaro parece que também não irá, mas sua falta não está sendo lamentada.

O Brasil tem o desafio de reverter a imagem de desconfiança, rejeição e antipatia que o governo Bolsonaro criou internacionalmente em mil dias de gestão. Não será fácil. “O governo Bolsonaro não compartilha os mesmos valores da Europa. Vamos esperar 1 ano e três meses por tempos melhores no Brasil”, diz uma fonte ligada ao partido Verde alemão, que fará parte do novo governo. “A Alemanha quer ver cair o desmatamento no Brasil. E os dados têm que ser do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), não confiam em outros”, diz um diplomata sediado na Europa.

Na terça-feira, no prédio-sede do Potsdam Institute for Climate Impact Research (PIK) – que Albert Einstein frequentava para reunir-se com outros cientistas -, a declaração de Bolsonaro sobre a relação entre a vacina contra covid e a Aids repercutia com reações de desprezo e escárnio. O PIK é um dos centros de pesquisa climática mais famoso do mundo. “Ninguém é bobo. Não vamos cair em campanhas de marketing fantasiando a imagem do Brasil”, disse um pesquisador ao Valor

A delegação brasileira é a segunda maior da COP26, perdendo apenas para a dos EUA. Devem vir à Escócia os ministros Joaquim Pereira Leite, do Meio Ambiente, que chefiará a delegação, e Bento Albuquerque, das Minas e Energia, além do presidente do Banco Central Roberto Campos Neto e do Bndes Gustavo Montezano. Ao menos 12 governadores estão previstos para participar da cúpula, além de dezenas de prefeitos e parlamentares, muitos empresários, alguns CEOs e vários ambientalistas. O Brasil terá um estande de 200 m2 conectado com o auditório da Confederação Nacional da Indústria onde se pretendem exibir “imagens do Brasil real”.

O dado oficial do desmatamento da Amazônia em 2020, que é produzido pelo sistema Prodes do Inpe, só deve ser divulgado depois da COP26, o que não é um bom sinal. As emissões brasileiras de gases-estufa em 2020 cresceram 9,5%, puxadas pela alta do desmatamento principalmente na Amazônia, segundo o SEEG, o sistema de monitoramento feito pelo Observatório do Clima. No mundo, contudo, as emissões caíram quase 7% em função da pandemia no mesmo período.

A expectativa da comunidade internacional é que o Brasil aumente seu compromisso climático, passando dos atuais 43% de redução em 2030 para 45%, em relação aos níveis de 2005, conforme anunciado esta semana. E que formalize a meta de adiantar a neutralidade de carbono de 2060 para 2050.

Além disso, a comunidade internacional aguarda um plano concreto de combate ao desmatamento e outro da implementação da NDC brasileira, a sigla em inglês para o compromisso voluntário dos países, com um caminho claro para chegar à neutralidade em 30 anos.

Não se sabe se o governo brasileiro assinará a declaração política sobre florestas e uso da terra que está sendo impulsionada pela presidência britânica para a Cúpula de Líderes, marcada para os primeiros dias do evento. “Está ganhando força o lobby global de produzir alimentos de forma saudável”, diz a ex-ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira. “E na comunidade internacional ganha força associar a proteção das florestas ao uso da terra e à agricultura sustentável”, continua.

Um observador britânico diz que o financiamento climático, na COP26, é um mix de dinheiro público e privado, e várias iniciativas de proteção às florestas devem ocorrer. É o que querem investidores e consumidores.

“O Brasil é um país importante nas negociações de clima”, diz Patrícia Espinosa, secretária executiva da Convenção do Clima. “Sabemos que está engajado com outros participantes e esperamos que ajude a finalizar o Livro de Regras do Acordo de Paris.”

O Brasil já sinalizou que está disposto a ceder para conseguir um acordo no Artigo 6, que criar os mercados de carbono.

A COP26 tem que aumentar a ambição dos países na redução das emissões, no aumento do financiamento, em mais recursos para adaptação e na compensação aos mais vulneráveis, processo conhecido como “Perdas e Danos”.

Há dados concretos de que o mundo está em rota de ter um aquecimento global de 2,7º C no fim do século com os compromissos climáticos que estão sobre a mesa. “O mundo está no caminho para viver uma catástrofe climática”, reagiu o secretáriogeral da ONU António Guterres.

Entre os países do G 20, que se encontram no fim de semana em Roma, dois não têm metas de longo prazo – a Índia e o México.

Esta semana a Austrália finalmente concordou em ter um plano de longo prazo e tornar neutras suas emissões de carbono até 2050. O primeiro-ministro Scott Morrison, contudo, disse que não iria transformar a meta em lei e que o país continuaria a depender de combustíveis fósseis e investir em projetos destinados a compensar suas emissões.

O caso australiano é um exemplo de países que dizem que irão reduzir a ambição, mas sem abandonar a conexão com os combustíveis fósseis. Bill Hare, diretor executivo do Climate Analytics diz que o plano de Morrison reduziria emissões de 65% a 73% até 2050 e se conseguir sequestrar carbono e enterrar gases-estufa ou compensá-las internacionalmente, chegaria a reduções de 85%.

O plano depende de tecnologias que ainda são muito caras para serem lançadas comercialmente em larga escala, disse Hare à Bloomberg.

Ontem a China reafirmou a meta de atingir o pico das emissões de gases-estufa antes de 2030 e registrar emissões líquidas zero em 2060. Formalizou o compromisso de aumentar a participação de combustíveis renováveis em seu consumo primário de energia para 2025 até 2030. Antes a participação prometida era de 20%.

A esperança era que a China fosse mais ambiciosa e que o pico de emissões fosse adiantado para 2025. Mas a crise de energia indicou que Pequim não assumiria novas metas agora.

Os Estados Unidos também não têm muito a entregar em função de dificuldades domésticas. O plano climático do presidente Joe Biden esbarra na resistência de alguns deputados democratas ligados a Estados carvoeiros e que não concordam com a proposta.

“O pacote climático, portanto, está no limbo”, explica o professor Eduardo Viola, especialista em relações internacionais. “A ideia do imposto ao carbono, por exemplo, que estava presente no pacote do Biden está praticamente abandonada porque não consegue maioria no Congresso”.

Dados recentes do Fundo Monetário Internacional (FMI) mostram que a indústria de combustíveis fósseis recebeu US$ 5,9 bilhões em subsídios em 2020. São US$ 11 milhões por minuto.

 

 

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