Dois novos fundos nascem para ‘destravar’ mais de R$ 500 milhões em investimentos ESG

Karla Spotorno
O Estado de S.Paulo
30/09/2021

Instrumentos serão lançados pelo Laboratório Global de Inovação em Finanças Climáticas (Lab) e envolvem empresas como a Natura e entidades como a Associação Brasileira de Biogás (Abiogás)

Dois novos fundos brasileiros acabam de ser desenhados para destravar mais de R$ 500 milhões em investimentos diretos em projetos ESG (sigla em inglês para práticas ambientais, sociais e de governança). Os dois instrumentos estão sendo lançados nesta quinta-feira, 30, pelo Laboratório Global de Inovação em Finanças Climáticas (Lab), um programa de aceleração de inovação financeira patrocinado pelos governos da Alemanha, Holanda, Suécia e Reino Unido e pela Fundação Rockefeller, dos EUA.

O primeiro é um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC), proposto pela Natura e pela Mauá Capital, que prevê captar US$ 50 milhões (aproximadamente R$ 265 milhões) na fase-piloto. A proposta já nasceu inovadora, segundo aponta a analista Rosaly Byrd, da Climate Policy Initiative (CPI), instituto sem fins lucrativos de análise e pesquisa responsável pela gestão do Lab. “Poucas vezes temos uma gestora participando desde o início do projeto “, diz Byrd.

A proposta do FIDC foi concebida numa parceria da Natura, que já trabalha com a maioria das cooperativas na Amazônia, que receberão recursos, com a gestora de Luiz Fernando Figueiredo. Sócia da Mauá, Carolina da Costa está à frente do desenho do fundo feito a partir do conceito “blended finance”. A expressão em inglês significa que diferentes fontes de recurso e condições de risco e retorno serão utilizadas no fundo.

Além do fundo, o projeto, que ganhou o nome em inglês Amazonia Sustainable Supply Chains Mechanism (AMSSC), terá um braço de filantropia, que irá investir US$ 12,7 milhões em ações voltadas para a educação, saúde, acesso a internet e infraestrutura das comunidades relacionadas às cooperativas.

Fundo de renda fixa e biogás

O segundo fundo será de renda fixa e servirá como garantia para os empreendedores ligados ao projeto proposto pela Associação Brasileira de Biogás (Abiogás). O Guarantee Fund for Biogas (GFB) servirá de garantia em empréstimos que serão tomados por desenvolvedores de projetos de biogás. 

“O biogás é visto com ressalva na Europa porque alguns projetos utilizam insumos que poderiam ir para a produção de alimentos. Mas, no Brasil, quase todos os projetos de biogás utilizam dejetos da agricultura ou urbanos”, afirma Felipe Borschiver, analista da Climate Policy Initiative.

Na fase-piloto, o fundo prevê a captação de US$ 53 milhões (aproximadamente R$ 280 milhões) e vai beneficiar 43 empreendimentos que, segundo Borschiver, não conseguem financiamento nas linhas tradicionais por não disporem de garantias para oferecer às instituições financeiras. O analista ressalta que a inovação do projeto está em ser o primeiro fundo de garantia ambiental do Brasil, sendo que a maioria dos fundos garantidores é de instituições públicas ou governamentais no País.

O Laboratório Global de Inovação em Finanças Climáticas (Lab) existe no Brasil há cinco anos. Criado em 2014, já lançou projetos que destinaram US$ 2,5 bilhões para ações climáticas e reúne mais de 70 investidores institucionais e instituições públicas e privadas. Além dos dois instrumentos brasileiros, o Lab endossou e lançará outras quatro inovações financeiras em outros países.

 

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