Concessionárias de água ampliam ações contra racionamento

Valor Econômico
31/08/2021

Por Daniel Rittner

Captação flutuante, poços de ‘backup’ e campanhas são medidas adotadas para evitar rodízio

A piora da crise hídrica tem feito gestores municipais e concessionárias de saneamento resgatar ações tomadas no biênio 2014-2015, auge da última grande seca, e colocar em prática medidas de contingência como estratégia contra um racionamento de água.

Em Araçatuba (SP), como há sete anos, uma plataforma móvel para captação flutuante foi instalada novamente no rio Tietê e deve ser acionada para testes nesta semana. O Tietê, que ali tem um de seus trechos mais limpos, é utilizado para cerca de metade do abastecimento do município.

“As tubulações já foram passadas. Hoje a cota do rio está 1,29 metro abaixo do mesmo período de 2020. Ainda temos uns 60 centímetros de folga para fazer a captação, mas agora a estrutura flutuante nos dará muito mais tranquilidade”, diz o comissário-geral da agência reguladora dos serviços de saneamento, Márcio Saito.

De acordo com o grupo BRK Ambiental, um dos maiores do país e com operações em mais de cem municípios, a situação no interior de São Paulo é a que mais preocupa. Das cinco cidades com serviços de água operados pela concessionária na região, todas se encontram em estado de alerta em relação ao nível dos reservatórios, embora o abastecimento não tenha sido afetado ainda.

A empresa executou uma série de obras, investimentos e medidas preventivas nos municípios paulistas de Limeira, Mairinque, Porto Ferreira, Santa Gertrudes e Sumaré. Todas as medidas foram incluídas em planos de contingência. As ações envolvem redução de perdas, ampliação da reserva de água tratada, modernização de processos e campanhas de consumo consciente. Como em anos anteriores de estiagem, a prefeitura de Limeira requisitou o uso da represa particular de Salto do Lobo para compensar a baixa vazão do sistema Jaguari.

A Abcon (associação das concessionárias privadas de água e esgoto) afirma que monitora a situação com a Agência Nacional de Águas (ANA), mas ainda não detectou nenhuma “implicação estrutural” para o abastecimento de água. “A tendência, chovendo a partir de novembro, é conseguirmos passar sem racionamento”, diz o diretor-executivo da entidade, Percy Soares Neto.

O nosso setor aprendeu bastante com a crise de 2014-2015 e a onda mais recente de investimentos conseguiu atenuar o problema”, acrescenta. Naquele biênio, havia 124 contratos de concessão ou PPPs com empresas privadas para serviços de saneamento, com 238 municípios atendidos. Hoje são 191 contratos e 389 cidades, segundo levantamento feito até o fim do primeiro semestre. “Passamos a fazer um gerenciamento mais adequado dos mananciais e a ter mais poços artesianos como backup para o atendimento.”

O grupo Aegea, que atende 153 municípios, também colocou em ação várias medidas para evitar desabastecimento. Na concessionária Águas de Guariroba, em Campo Grande (MS), foram investidos R$ 50 milhões para a perfuração de nove poços somente neste ano, a fim de ampliar o sistema de abastecimento na cidade. As novas fontes de captação garantem 1,7 milhão de litros por hora adicionais de água, descartando o risco de torneiras secas.

Em Araçatuba, que fez a concessão dos serviços de saneamento para a GS Inima Samar, houve avanços importantes no combate ao desperdício de água. O índice de perdas na distribuição caiu de 46% para 34%. O município foi dividido em 42 microssetores. Cada um tem entrada única de água do sistema principal e tudo é monitorado em tempo real. Em caso de vazamentos grandes, o corte restringe-se só aquele microssetor.

Além disso, conforme explica Márcio Saito, outra medida – de caráter preventivo – foi iniciar escuta do subsolo, de madrugada, para identificar tubulações desgastadas e pequenos vazamentos em 300 quilômetros de rede. Em Araçatuba, assegura o chefe da agência reguladora, não há risco de rodízio. “A nossa ação extrema seria reduzir a pressão da água em alguns períodos do dia, mas confiamos que não será necessário.

Araçoiaba da Serra (SP), no entanto, precisou adotar o abastecimento periódico. Desde o dia 12 de agosto, uma região do município recebe água nos dias pares, e outra, nos dias ímpares. Está sendo bombeada água de uma pedreira e um novo poço entrou em operação. O nível do manancial está em 60 centímetros (80 cm seriam satisfatórios). Hoje a concessionária está captando 85 litros de água por segundo, enquanto o necessário seria 115 l/s.

O sistema Cantareira, principal fonte de abastecimento da Grande São Paulo, está com 37,3% do volume útil. Há exatamente um ano, o nível de armazenamento do reservatório chegava a 48%.

 

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