Cenário instável leva companhias a reavaliar investimentos no país

Valor Econômico
17/09/2021

Por Taís Hirata, Mônica Scaramuzzo e Stella Fontes

Instabilidade política pode afugentar novos grupos estrangeiros dos leilões de infraestrutura

Empresários e executivos de grandes companhias ouvidos pelo Valor afirmam que a crise institucional, além da deterioração do cenário econômico, estão dificultando a tomada de decisão de investimentos de muitas empresas. No setor de infraestrutura, por exemplo, o cenário de instabilidade política também tem afastado novos operadores estrangeiros dos leilões, que devem seguir dominados pelos grupos que já atuam no país.

Alguns grupos do exterior até vinham estudando oportunidades de infraestrutura, porém, deverão esperar 2022 e 2023 para entender qual será o rumo do país, segundo Cláudio Frischtak, sócio da consultoria Inter B. “Novos entrantes têm adiado a decisão de participar de leilões. O problema é que um risco institucional, de possível ruptura, é muito difícil de precificar”, diz ele.

Isso não significa que os próximos leilões terão baixa adesão. O interesse de operadores que já conhecem o mercado e estão mais acostumados com a instabilidade local tem sido grande. “Há agentes que poderiam entrar na disputa e não vão, mas a expectativa é que haverá uma competição interessante. Mas não com novos grupos”, avalia Marcos Ganut, sócio da Alvarez & Marsal.

Leilões de infraestrutura vão ter demanda, mas a atração deverá se limitar aos investidores que já têm atuação no Brasil

Para Massami Uyeda, sócio do Arap, Nishi & Uyeda Advogados, a dificuldade de atrair diferentes operadores não é recente. “Desde 2015 ouço de investidores que o problema não é a crise econômica, mas sim o risco político. Hoje, o mercado de infraestrutura está aberto, quem tiver coragem tem muitas oportunidades. Mas não vejo novos grupos fazendo esse movimento no curto prazo.”

O setor tem visto a atração de alguns investidores de peso, mas basicamente por meio de empresas já consolidadas. Um exemplo recente é a parceria entre a gestora IG4 Capital, de Paulo Mattos, e o grupo australiano Macquarie para fazer a aquisição de uma fatia da CCR – operação que ainda está em curso. No último ano, também houve a entrada do fundo de pensão canadense CPPIB (Canada Pension Plan) na Iguá Saneamento, e da Itaúsa, holding de investimentos do Itaú, na Aegea.

Para uma fonte com experiência no setor, o acirramento da crise política e as turbulências do ano eleitoral deverão tornar mais difícil a vida de quem tenta atrair investidores estrangeiros ao país.

Na avaliação de Frischtak, o predomínio dos operadores locais não é um problema para os leilões de hoje. Porém, em alguns segmentos, como rodovias, pode se tornar em entrave nos próximos anos. “A preocupação é com o cenário futuro, daqui a dois, três anos. O país tem um programa enorme de concessões, são muitos ativos, e as companhias não vão dar conta de tudo, os balanços são restritos”, afirma.

Para ele, o leilão da BR-381/262, entre Minas Gerais e Espírito Santo, marcado para novembro deste ano, será um bom teste desse interesse. “É um ativo grande, complexo e não tão atrativo como a rodovia Dutra, que vai ter muito interesse porque é uma joia da coroa.”

De acordo com Ganut, em alguns segmentos, é importante considerar também o cenário global. Por exemplo, investimentos logísticos ligados ao agronegócio, como em terminais portuários, ferrovias e algumas estradas, devem ter atratividade independentemente das turbulências internas, diz ele.

O acesso a crédito também tende a se tornar mais restrito com a instabilidade, porém, a avaliação é que não será um gargalo. “A situação aumenta o custo de capital, mas não inviabiliza os investimentos”, afirma Frischtak.

Ganut também destaca o interesse por debêntures de infraestrutura. “Em 2020, quando o ambiente estava mais calmo, vimos muitos grupos brasileiros que não são de infraestrutura e ‘family offices’ buscando o setor como um investimento de renda fixa, de longo prazo. Esse movimento perdeu um pouco de velocidade, mas não saiu de cena.”

Já na indústria, os crescentes aumentos de custos, a volatilidade do câmbio, a falta de horizonte para aprovação das reformas para os próximos meses devem empurrar decisões de grandes empresas para 2023, disse um acionista de um grande grupo nacional.

De acordo com um empresário de um conglomerado brasileiro, empresas especialmente dependentes de crescimento do PIB e as que necessitam de investimentos governamentais estão mais comprometidas.

“Muitos CEOs estão adiando planos, à espera de maior clareza no mundo político”, afirmou um executivo de uma das maiores empresas do país. Em sua avaliação, essa paralisia pode se arrastar até as eleições do próximo ano. Nesses 13 meses, os grandes investimentos devem permanecer no papel.

Para essa fonte, as empresas que estão indo bem vão surfar o momento e esperar que as incertezas sejam dissipadas. “Já as que não estão vão operar no modo sobrevivência”, acrescentou. Segundo esse executivo, a aproximação do pleito e o início da campanha presidencial devem exacerbar a polarização, agravando o quadro que já não é favorável a novos investimentos.

Os investidores que olham o Brasil, disse uma outra fonte da indústria, ainda não têm clareza de um cenário mais estável. A aprovação das reformas administrativa e tributária está longe de um desfecho no curto prazo.

Mesmo para investidores que avaliam o Brasil no longo prazo, a instabilidade política atrasa o andamento de importantes reformas no Brasil e que poderiam atrair capital ao país. Companhias nacionais com subsidiárias no exterior estão elevando suas apostas fora do Brasil, uma vez que o cenário externo está mais favorável, disse um outro empresário, que também preferiu não se identificar.

Mas nem todos os setores industriais estão adiando aportes para expansão dos negócios. Com o dólar valorizado, muitos segmentos exportadores, como agronegócio, papel e celulose, além dos setores de siderurgia e mineração, que se beneficiaram com o ‘boom’ das commodities, estão mantendo seus investimentos, apesar da turbulência política e econômica. Ao menos, por ora.

Para Cleiton de Castro Marques, dono da farmacêutica Biolab, é evidente que o ambiente turbulento preocupa. “Mas o país é maior do que isso.” Segundo ele, o grupo está investindo R$ 600 milhões no complexo farmacêutico em Pouso Alegre (MG). “Iniciamos há dois anos e ainda levaremos mais um ano na obra. Será uma fábrica para os próximos 20 anos. São investimentos feitos para longo prazo.”

Para o empresário Horácio Lafer Piva, custos crescentes e instabilidades política e econômica demandam cuidado. “Muitos vão esperar 2023. É uma pena.”

Mas não é o caso da Klabin, empresa da qual ele é acionista, que manterá os investimentos. “Investimos no Brasil e nosso setor tem uma visão de longo prazo, proximidade de matéria prima, mercado potencial de consumo e qualidade para exportação.

Já Walter Schalka, presidente da Suzano, disse que a companhia não está revisando investimentos neste momento.

 

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