Cenário fiscal leva a corte nas projeções do PIB

Valor Econômico

Por Victor Rezende, Rafael Vazquez, Felipe Frisch e Marta Watanabe

26/10/2021

 

Estimativas para 2022 sugerem recessão técnica e parte dos economistas acredita em queda do indicador

 

Após uma semana em que a percepção de ruptura do regime fiscal se propagou, uma nova onda de revisões para o Produto Interno Bruto (PIB) joga as estimativas para a economia de 2022 para a estagnação, com crescimento próximo de zero. Algumas das novas projeções apontam até retração no ano ou embutem uma recessão técnica, caracterizada quando há dois trimestres consecutivos com queda de PIB. O panorama de alguns economistas para o ano que vem inclui um possível quadro de estagflação, um cenário que combina recessão e inflação.

O Itaú Unibanco anunciou ontem revisão com projeção de retração de 0,5% para o PIB de 2022. A estimativa anterior do banco era de expansão de 0,5%. Também ontem o J.P. Morgan e a MB Associados zeraram a perspectiva de crescimento econômico para o ano que vem, ante estimativas anteriores de alta de 0,9% e 0,4%, respectivamente. Na semana passada, a ASA Investments fez um corte 1,1 ponto percentual na sua estimativa e reduziu de 1,5% para 0,4% a taxa esperada de alta do PIB para o ano que vem.

A mediana das projeções do mercado ainda aponta expansão acima de 1% para o PIB de 2022, mas com queda. A projeção caiu de 1,5% para 1,4%. segundo o Relatório Focus, divulgado ontem pelo Banco Central (BC), com estimativas coletadas até o fim da semana passada. O ponto médio das projeções para 2021 também caiu de 5,01% para 4,97%.

Ao divulgar a revisão de PIB, o Itaú Unibanco disse que o movimento foi motivado “pela forte mudança recente nos preços e perspectivas para os ativos brasileiros, com suas consequências para a inflação e para a política monetária”. O banco aponta que a política de aperto monetário deve ser acelerada diante do aumento da incerteza fiscal, que implica risco-país mais alto, maior depreciação do real e perspectivas piores para a inflação.

A Selic, segundo os economistas do banco, deverá chegar ao fim do ciclo em 11,25% e, diante de taxas de juros mais altas, a atividade econômica deverá perder força. A projeção para o IPCA no fim deste ano foi revisada também, de 8,7% para 9%, enquanto a estimativa para o IPCA de 2022 foi de 4,2% para 4,3%.

Em comentário distribuído ontem, a equipe da ASA Investments, encabeçada pelo economista Carlos Kawall, diz que os acontecimentos da semana passada apontam para mudança relevante do regime fiscal vigente desde o pós-2016. O informe da gestora deixa claro que o cenário projetado de crescimento de 0,4% para 2022 embute período de encolhimento da economia, com recessão técnica no primeiro semestre do ano que vem. “Como consequência da incapacidade de se fazer escolhas dentro do teto de gastos, estamos colhendo um cenário de prêmio de risco muito mais elevado, com piora acentuada de condições financeiras”, diz o boletim.

Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, também considera possível uma recessão técnica, com recuo de PIB no último trimestre deste ano e primeiros três meses de 2022. “Vai ser um ano com proximidade da estabilidade, com o impacto vindo agora, mas também no final do ano pelo efeito cheio da alta de juros. Há risco de queda do PIB no ano como um todo”, avalia. A MB elevou a estimativa para a Selic ao fim do ciclo de 9% para 10,5%.

Além de revisar as estimativas pra a taxa de juros básica e para o PIB do ano que vem, a consultoria também elevou sua projeção de inflação pelo IPCA para 2021, de 9% para 9,4%. A estimativa do indicador para o ano que vem foi mantida em 4,7%. Com a perspectiva de crescimento zero em 2022, destaca Vale, configura-se cenário de estagflação. “De fato, o PIB per capita deve cair 1,8% no acumulado de 2020 a 2022, com inflação acumulada no período de 18%”, diz o boletim da MB.

Para 2021, a consultoria manteve projeção para PIB de alta de 4,7%, com viés de baixa. O número contempla, ressalta Vale no boletim, leve alta no terceiro trimestre, de 0,2%, e queda no quarto trimestre, de 0,2%, que pode ser maior do que isso depois dos choques que temos vivido desde setembro. “Por enquanto ainda não revisaremos esse número do quarto trimestre, mas ele caminha para ser de queda. Abrimos aqui a possibilidade de que o terceiro também possa ter queda, a depender dos resultados de setembro, que ainda não estão claros”, alerta o boletim.

As revisões, diz Vale, foram resultado das propostas defendidas pelo governo na semana passada, entendidas como ameaça ao arcabouço fiscal. Em boletim, ele diz que em quase três anos de governo talvez não tenha havido uma semana tão ruim do ponto de vista de política econômica como a última. “Ela entrará para a história como o desmonte de um regime fiscal construído a duras penas e com um longo aprendizado não apreendido de por que é importante manter a sinalização de um bom equilíbrio fiscal.”

O J.P. Morgan também mencionou preocupações com a situação fiscal depois que o governo preparou o que tem sido considerado um drible no teto de gastos. “Embora permaneçam as expectativas de que a economia global continuará crescendo acima do potencial, no Brasil vemos recentes decisões de política pesando sobre o PIB à frente.”

A estimativa para inflação para o ano que vem pelo IPCA também foi elevada de 3,9% para 4,5%. No boletim a instituição financeira diz que “a credibilidade da política permanece em risco com a falta de uma âncora fiscal confiável no curto prazo”. Da mesma forma que outros bancos, o J.P. Morgan também espera taxa básica de juros maior, com Selic chegando a 11,25% em 2022.

O Banco Fibra também fez revisões, mas de forma um pouco mais otimista. A estimativa de crescimento para o PIB em 2022 foi reduzida de alta de 1,1% para alta de 0,8%, com revisão mais acentuada da taxa de crescimento no segundo semestre do ano que vem por conta do impacto da política monetária mais restritiva. Segundo boletim divulgado ontem, o banco também revisou para cima a estimativa para a inflação medida pelo IPCA em 2022, de 4,8% para 5,2%.

A expectativa de inflação mais alta no ano que vem, segundo o boletim do banco, é devido à inércia inflacionária maior e à expectativa de real mais depreciado. Para o IPCA de 2023, a estimativa foi revista para baixo, de 3,1% para 2,9%, dado o impacto defasado da política monetária mais contracionista. O banco também revisou a projeção para a Selic ao final do ciclo de 9% para 9,5% ao ano.

 

 

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