Carbono zero deve levar em conta déficit social no país, dizem executivas

Valor Econômico
Por Gabriel Vasconcelos
27/10/2021


Transição para economia limpa deve incluir medidas para melhorar serviços básicos, como saneamento e transporte e estratégias para atenuar transformações no mercado de trabalho

 

A transição para uma economia neutra em carbono no Brasil deve considerar não somente metas climáticas, mas também os déficits do país em serviços básicos, como saneamento e transporte, além de estratégias para atenuar transformações no mercado de trabalho ante o avanço da inteligência artificial.

A consideração foi feita pela presidente da Microsoft Brasil, Tânia Consentino, pela presidente da Equinor no Brasil, Verônica Coelho, e pela diretora-geral do NDB, o banco do Brics, nas Américas, Claudia Prates, ontem, no Fórum de Sustentabilidade do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Tânia foi enfática sobre a importância de governos e empresas se prepararem para os impactos sociais de novas tecnologias que vão ampliar a automação nos setores de bens e serviços, eliminando empregos no futuro próximo. Ela citou estudo da consultoria McKinsey & Company, que estima, por essa razão, a perda de 400 milhões de postos de trabalho no horizonte de cinco anos.

Nessa linha, a presidente do “think tank” Tanaloa, Natalie Unterstel, disse que a transição para a neutralidade em carbono não se limita a fontes energéticas limpas, mas é, também, uma “transição de empregos e negócios”. Ela sugeriu que assumir a ponta do processo, em curso no mundo inteiro, pode ser motor de empregabilidade: “Se vamos participar [dessa transição mundial] como líderes ou lanterninhas, isso vai depender da estratégia. E não vai depender de um ator sozinho”, disse Natalie em referência à cooperação entre governos, empresas e terceiro setor.

Sobre as metas de redução de emissões do governo brasileiro, Tânia lembrou que muito se fala na importância de reduzir o desmatamento e queimadas e a eficiência energética é pouco mencionada. “Precisamos de mais smart buildings [prédios inteligentes]. Temos um desperdício de energia gigantesco. Isso inclusive ajudaria o Brasil em momentos de crise hídrica e energética, como agora. A melhor energia é a não consumida”, disse.

A chefe da Microsoft no Brasil avaliou que, seis anos depois da Conferência do Clima de 2015, “muito pouco do prometido aconteceu”, mas disse que, ao menos, a agenda ESG chegou ao conselho das empresas. Essa “cultura ESG”, disse, é um primeiro pilar da transição nas empresas e deve ser seguido pela estruturação de um plano efetivo de medição, reporte e redução das emissões de carbono nas cadeias produtivas. “Falta mais senso de urgência e responsabilidade, porque os caminhos já estão aí.”

A presidente da Equinor no Brasil, Verônica Coelho, ressaltou a questão da equidade na transição. Para tanto, lembrou que, em todo o mundo, cerca de 1 bilhão de pessoas ainda não têm acesso a energia, contingente que deve ser incrementado em 1,5 bilhão nos próximos 20 anos. “A maior parte dessas pessoas não vai nascer em países desenvolvidos, mas em regiões que hoje carecem de energia. Isso significa que a demanda vai aumentar e o nosso desafio é desenvolver soluções que levem energia limpa de forma justa e sustentável a essas regiões”, disse.

A petroleira norueguesa tenta transitar para uma matriz limpa, sobretudo na Europa. No Brasil o principal negócio ainda é a produção de óleo e gás em campos do pré-sal. Por isso, segundo Verônica, o plano de redução de emissões considera a ampliação do braço de fontes renováveis, sobretudo eólica em alto mar, mas também a redução do impacto da produção de hidrocarbonetos, negócio central.

“A Equinor emite nove quilos de carbono por barril produzido, enquanto a média da indústria é de 17 quilos de carbono por barril. A ambição é chegar a zero”, disse.

Por fim, a diretora do banco do Brics nas Américas, Claudia Prates, ressaltou a importância do financiamento de infraestrutura verde, o foco do banco, e disse que ele deve se adequar à realidade sócio-econômica de cada país ou região.

“Muito se fala em eletrificação de ônibus, mas há países que não têm ônibus a diesel confortável para a população. É preciso medir os impactos de investimentos de forma diferente para cada região” diz ela. Claudia defendeu metas climáticas mais aceleradas para países e regiões mais adiantadas e afirmou que mitigar desigualdades sociais é um passo necessário para caminhar de forma mais decisiva para a neutralidade em carbono.

 

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