As commodities e a inflação global sincronizada

O Estado de S.Paulo

Por Fernando Dantas

16.Nov.2021

Para Bráulio Borges, da LCA e Ibre-FGV, é preciso entender fatores que afetam diferentes categorias de matérias primas no atual ciclo para projetar inflação de países como Estados Unidos, Brasil e outros.

 Há uma grande sincronia entre a aceleração da inflação ao consumidor dos Estados Unidos e a do Brasil desde o início da pandemia. A observação é de Bráulio Borges, economista sênior da LCA e pesquisador-associado do FGV-Ibre.

A correlação entre a aceleração da taxa acumulada em 12 meses do CPI americano e a do IPCA brasileiro foi de 95% entre março de 2020 e outubro de 2021, pelos cálculos do economista, vinda de pouco mais de 30% entre janeiro de 2018 e fevereiro de 2020

O CPI dos Estados Unidos subiu 1,3% em 2020, chegando a uma alta acumulada de 6,2% nos 12 meses terminados em outubro. Como nota Borges, considerando o “nowcast” para o CPI do Fed de Cleveland para novembro, de 0,57%, e admitindo uma alta de 0,3% em dezembro, o CPI americano cheio deve fechar 2021 com uma elevação de cerca de 6,7%. Isso significa uma aceleração de 5,4 pontos porcentuais (pp) na comparação de dezembro de 2021 e de 2020, em termos de taxas acumuladas em 12 meses.

Já no Brasil, o IPCA deve saltar de 4,5% em 2020 para algo entre 9,5% e 10% (há quem preveja até mais) em 2021, também acelerando 5/5,5pp entre este ano e o passado.

O economista analisou também a evolução da inflação ao consumidor no conjunto dos países da OCDE desde o início da pandemia, encontrando novamente elevada correlação entre a aceleração da inflação brasileira e a “mundial”, num sinal claro de inflação globalizada.

Borges examinou, em particular, a correlação entre as acelerações e desacelerações das taxas acumuladas em 12 meses dos índices de inflação varejista do Brasil e dos Estados Unidos desde 2001, e encontrou poucos momentos nesses 20 anos em que se observou uma sincronia tão elevada quanto a recente. E esses momentos coincidem ou com fortes acelerações dos preços de algumas commodities (2003 e 2012/13) ou com a crise financeira global (2008/2009).

O mundo claramente se encontra de novo num período de forte alta das commodities, que provoca pressão inflacionária global. A grande questão para os países é saber quanto desse fenômeno é temporário, e quanto é persistente.

Borges observa que o índice de commodities do FMI, que engloba as metálicas (excluindo o ouro), energéticas e agrícolas, valorizou-se em 150% entre abril de 2020 e outubro de 2021.

Mas ele acrescenta que não é muito “justo” tomar abril do ano passado como base de comparação, porque as matérias primas despencaram com o impacto inicial da pandemia. Tomando-se o final de 2019, a alta é de 70%, isto é, menor, mas ainda assim trata-se de um choque de grande proporção.

Apenas em setembro e outubro deste ano, aponta o economista, o índice do FMI subiu cerca de 20%, puxado por produtos como carvão, gás natural e petróleo.

“Não é que as commodities tenham subido muito no final de 2020 e início de 2021 mas agora nós tenhamos um alívio”, diz Borges.

Na verdade, há bastante heterogeneidade entre as commodities neste ponto do ciclo. O minério de ferro, por exemplo, chegou a ultrapassar os US$ 200 por tonelada, mas depois recuou fortemente – em boa parte pelos problemas no setor de construção na China – e já é cotado abaixo de US$ 100.

No caso das commodities agrícolas, milho e soja já começaram a cair há alguns meses, mas ainda não “devolveram” boa parte da forte alta anterior.

E há finalmente o caso das commodities energéticas, impulsionadas por um coquetel de razões climáticas – o inverno no hemisfério Norte se aproxima – e geopolíticas, ligadas à rivalidade entre a Rússia e os principais países europeus e às articulações da Opep.

Segundo Borges, tentar entender os fatores que vão influenciar os preços internacionais das commodities nos próximos meses e ao longo de 2022 é hoje um exercício fundamental para projetar a inflação à frente nos Estados Unidos, no Brasil e em muitos países.

No setor agrícola, por exemplo, há expectativa de um aumento espetacular da safra brasileira em 2022 (que influencia os preços globais), que pode atingir algo em torno de 10%, segundo as últimas projeções da Conab e do IBGE. Pelo outro lado, existem riscos climáticos relevantes, que podem impedir que essa perspectiva bastante favorável efetivamente se materialize.

Na energia, é possível um retorno à normalidade após o inverno no hemisfério norte, mas as incertezas geopolíticas nublam o cenário. Não se trata apenas da Rússia, nota Borges, mas também da Opep, que hoje está produzindo menos do que no período anterior à pandemia. Ainda responsável por cerca de 1/3 da oferta global de petróleo, o cartel poderia ajudar consideravelmente a aliviar os preços, caso quisesse – mas isso depende de um complexo jogo de decisões políticas muito difícil de antecipar.

Finalmente, as commodities metálicas estão sofrendo com a queda do mercado imobiliário chinês, mas um subconjunto dentre elas, como cobre, níquel, cobalto e lítio, pode se beneficiar da transição energética para uma economia livre de carbono. São matérias primas importantes no processo produtivo descarbonizado, como no caso de carros elétricos, por exemplo.

A expectativa é que o preço desses produtos possa subir muito nos anos à frente, mas isso depende de quão sério é o compromisso dos países com a transição energética. Alguns analistas ficaram preocupados com os resultados da COP26, com a sensação de que a retórica supera a real disposição para mudar em vários países.

Por outro lado, a recente vitória de Joe Biden em viabilizar já a partir do início de 2022 o seu pacote de infraestrutura de US$ 1,2 trilhão, parte do qual é destinado à transição energética, pode ser mais um impulso para as commodities metálicas, tal como o equivalente europeu, o NexGen EU, de US$ 900 bilhões, que começa a sair do papel.

Como se vê, é um conjunto intricado de fatores que vai determinar a intensidade e a durabilidade da pressão inflacionária global das commodities. E há também, evidentemente, o processo de reversão do desvio do consumo de serviços para bens (que impulsionou a demanda por matérias-primas metálicas e energéticas) com o fim da pandemia, cujo ritmo e extensão também são muito difíceis de prever.

 

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